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NOTA 6,0
Não era a intenção, mas trajetória de jovem e bem nascido traficante soa como uma apologia às drogas e aos crimes, um perigo para mentes fracas |
Baseado em fatos reais. Tais
palavras são um chamariz e tanto para a publicidade de um filme, mas é fato que
muitas histórias divulgadas como verídicas são extremamente mirabolantes,
coisas que dificilmente até o mais criativo dos roteiristas poderia conceber. A
trajetória de Jesse James Hollywood é um bom exemplo. Quem? Seu nome, uma fusão
de um lendário criminoso dos EUA com a alcunha da maior fábrica de celebridades
do país, não é muito conhecido fora dos EUA, mas com apenas 25 anos simplesmente
era a pessoa mais jovem na lista dos procurados pelo FBI, “honra” que
conquistou às custas de tráfico de drogas e homicídio. Para colaborar com a
imagem do Brasil, nosso país serviu como esconderijo deste delinquente e também
foi palco de sua prisão ocorrida especificamente na cidade de Saquarema no Rio
de Janeiro em março de 2005. O filme
Alpha Dog trocou nomes e fatos para
narrar os acontecimentos que antecederam sua captura (na ficção realizada no
Paraguai), assim o bandido com nome de artista virou Johnny Truelove (Emile
Hirsch) que aos 19 anos já era um notável traficante em sua área, um subúrbio na
Califórnia. Contudo, não bastava ter lucros, era preciso também bancar uma
imagem respeitável para botar medo nos inimigos e domar seus subordinados. Jake
Mazursky (Ben Foster) é um jovem que está lhe devendo uma grana, mas no fundo
sabe que jamais verá a cor do dinheiro, a não ser na base da pressão. A solução
encontrada é sequestrar o irmão do caloteiro, Zack (Anton Yelchin), mas como
não havia a intenção de machucá-lo a temporada no cativeiro acabou se tornando
umas férias curtas, porém, luxuosas para o rapaz que ficou aos cuidados de
Frankie (Justin Timberlake), outro jovem que encara a vida como uma balada sem
fim. O “refém” passa a curtir festas seja dia ou noite regadas a muita bebida,
drogas e garotas bonitas e promíscuas. Zach adora a experiência, afinal qual
garotão não gostaria de levar uma vida sem regras e repleta de diversão, o
problema é que Jake não tem como pagar a dívida e nem como revelar a verdade para
sua mãe que obviamente envolve a polícia no caso. Mais tarde Frankie e Truelove
também não teriam como explicar às autoridades que o sequestro foi apenas uma
farsa, o que revelaria os negócios sujos em que estão metidos. Em tempos em que
muitos pedem a legalização das drogas alegando que a perda da aura de proibido
é a melhor maneira de acabar com o vício, a ideia seria que o filme reforçasse
que “fumar unzinho” ou “dar uma cheiradinha” não é algo normal e que mais cedo
ou mais tarde trará prejuízos físicos e sociais, mas a sensação é que mais de
90% da narrativa exalta tais hábitos e o estilo de vida de seus usuários que
nem de longe lembra o drama daqueles que chegam a morar na rua por conta da
dependência.

Muito se fala sobre os problemas
de educação dentro de casa e suas consequências e este filme mostra bem tal
conflito. Aparentemente, Johnny levava uma vida de luxos e promiscuidade às
custas de crimes apoiado pelo pai, interpretado por um canastrão Bruce Willis,
que devia se orgulhar do jeito machão do filho, certamente resquícios também de
uma péssima criação familiar. Já a mãe de Zach, vivida por Sharon Stone, lhe
ofereceu uma educação mais sufocante, porém, quando o garoto teve a
oportunidade de viver uma realidade diferente não pensou duas vezes e se jogou.
O longa faz um contundente retrato da futilidade que impera entre a classe
média norte-americana e cujo padrão de vida acaba se refletindo na cultura de
outros países como no Brasil onde os filhinhos de papai tentam copiar ao máximo
hábitos e se afogam no consumismo de bugigangas ianques. Enquanto a
americanização se concentra na aquisição de bens de consumo e culturais tais
como vestimentas e música as coisas podem ser controladas, mas o problema é
quando o comportamento também é copiado, seara que engloba as drogas, bebidas e
libertinagens. Aquela inocente “ficada” na balada é um reflexo disso, mas o que
parece só curtição em excesso pode se tornar um problemão e é isso que o
diretor Nick Cassavetes quis mostrar neste trabalho. Filho do conceituado e
saudoso cineasta e ator John Cassavetes, que atuou no clássico
O Bebê de Rosemary, é espantoso ver sua
travessia pelo gênero da denúncia social após dirigir o romântico e lacrimoso
Diário de Uma Paixão. Parece outra
pessoa atrás das câmeras para contar uma história que repudia, mas ao mesmo
tempo conquista. Apesar de tantos palavrões, orgias, violência, químicas e ócio
que preenchem o universo dos jovens do filme, ainda assim ficamos tentados a
saber qual será o desfecho da trama, ou melhor, descobrir quais os eventos que levaram
à prisão de Johnny, mas não é qualquer um que tem paciência para acompanhar o
cotidiano porra louca dessa rapaziada. Difícil não se imaginar como um
personagem onipresente tentado a mandar bala nos miolos dessa turma ou
esfaqueá-los como os seriais killers mascarados de antigamente que puniam os
jovens desvirtuados. Eita, não é filme de terror, que viagem! Se bem que rola
tanta bagaça alucinógena que os personagens parecem estar constantemente fora
da realidade. De qualquer forma, por trás de toda a babaquice que enche boa
parte do longa, no fundo temos uma boa crônica da juventude burguesa e alienada
contemporânea, mesmo a ação se passando em meados dos anos 90. De lá pra cá
pouca coisa mudou e se mudou foi para pior. Talvez por isso a fita não tenha
sido um sucesso. A molecada que se empolgou com o chamativo trailer não deve
ter gostado nada de se ver retratada de maneira tão ordinária, mas a realidade
infelizmente é essa.

Também responsável pelo roteiro,
Cassavetes criou uma obra de difícil classificação. Por se tratar de uma
história real e no fundo trágica, a rigor rotula-se como um drama, mas há
espaço para o thriller policial e até toques de documentário. O diretor teve
acesso a toda documentação arquivada pela polícia a respeito de Johnny, embora
a trama se concentre nos três dias que marcaram para sempre sua vida e também a
de seus amigos. O promotor que liberou o material foi punido, mas como já dito
o diretor driblou possíveis processos substituindo os nomes das
pessoas envolvidas, contudo, ainda manteve o aspecto realista investindo em
depoimentos de acusados e testemunhas em formato jornalístico (algo dá errado
no sequestro de Zach), um recurso válido, porém, que neste caso teve um encaixe
falho. Os personagens dialogam com a câmera, mas o conteúdo não soa
interessante, sendo a mais chamativa destas cenas quando Stone surge exageradamente
maquiada para lamentar o que aconteceu com a família Mazursky, tentando sorrir
enquanto chora, uma clara crítica ao jogo de aparências que faz com que muitos
problemas sejam varridos para debaixo do tapete. É a abordagem do desajuste
social e suas consequências que dão valor à fita. A certa altura, por exemplo,
uma garota indignada com o sequestro vai conversar com a mãe, mas a ajuda é
negada porque simplesmente os pais estão trancados no quarto chapadões. Os
excessos são usados como válvula de escape e entre a classe média ianque as
drogas são de fácil acesso por todos, a melhor opção para fugir da realidade.
Mais cedo ou mais tarde essa menina também se envolveria com entorpecentes
incentivada dentro da própria casa ou por outros jovens que aceitariam lhe
ouvir desde que desse um trago. Experimentou uma vez e já era. Parece bobagem,
mas casos do tipo são muito comuns e a explicação para tantos jovens bem nascidos
caírem nesse mundo sujo, afinal não basta os pais deixarem dinheiro em casa
para seus filhos terem independência. A grana acaba virando a munição para eles
procurarem a pior forma de serem notados. O próprio Frankie é a personificação
do jovem que nada conforme a maré sem ter tempo para calcular riscos, assim
vive cada dia como se fosse o último e não mede as consequências de seus atos.
No conjunto,
Alpha Dog não diverte, tampouco emociona, mas ainda assim não
conseguimos ficar inertes, pois consegue despertar reações negativas por conta
de seu conteúdo que mostra com naturalidade como adolescentes são absorvidos
facilmente pelas armadilhas do submundo que aqui não é apresentado na penumbra
e cercado por lugares fétidos, pelo contrário. Aqui os bandidos andam de cara
limpa, exibem corpos sarados e tatuados e bebem e flertam à beira da piscina,
um convite e tanto para mentes fracas. Mesmo reiterando ao fim que o crime não
compensa, o filme acaba deixando uma imagem contraditória para lembrança.
Drama - 116 min - 2006
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