terça-feira, 7 de maio de 2013

LADO A LADO

NOTA 9,0

Com dois papéis femininos de
peso, drama sobre tolerância,
amizade e relações familiares
é uma opção excelente até hoje
Já faz algum tempo que as sociedades de todos os países em geral estão sofrendo reformulações. O conceito da família unida e feliz hoje em dia já não é mais uma unanimidade. Embora muitos núcleos familiares em ruínas ainda prefiram viver uma felicidade de fachada, outros clãs preferem assumir a separação. Ou melhor, os pais decidem pela ruptura quando os desentendimentos começam a ser mais constantes que os momentos de alegria, mas os filhos são um elo para sempre entre eles. O pai e a mãe têm o direito de tocarem suas vidas como bem entenderem, podendo manter relações cordiais ou não, mas e se caso eles encontrem um novo amor? Tal pessoa deve ser incorporada como um novo membro da família? Muitos anos já se passaram desde o lançamento de Lado a Lado, mas ele ainda continua um bom exemplo de filme para colocar em discussão tais relações. Perdoar e compreender o outro são algumas das mais importantes e difíceis tarefas que o ser humano tem e uns dos temas mais comentados talvez desde os primórdios das civilizações, o que implica intimamente no aprendizado de conviver com seus semelhantes em harmonia. São justamente esses itens que conduzem a narrativa escrita por Ron Bass que soube lapidá-los e escrever um texto que equilibra com perfeição situações dramáticas e outras de humor sutil protagonizadas por mulheres que irradiam veracidade, um convite e tanto para unir duas grandes estrelas de Hollywood. A trama gira em torno da rivalidade existente entre Jackie (Susan Sarandon) e Isabel (Julia Roberts). A primeira é a ex-esposa de Luke (Ed Harris), com quem teve dois filhos, Anna (Jena Malone) e Ben (Liam Aiken). Já a segunda é a atual namorada deste chefe de família que se encontra em uma complicada situação. Mantém uma relação amigável com a antiga mulher, mas esta não tolera a sua nova companheira e não perde a chance de criticá-la e envenenar a relação. O filho caçula até aceita a nova união do pai, mas sua irmã é uma adolescente que se revolta, pois ainda deseja a reconciliação dos pais. Luke por sua vez tenta de tudo para que sua namorada seja aceita por todos. Entre discussões e fofocas, a trégua entre Jackie e Isabel acaba por acontecer de uma maneira inesperada. A mãe das crianças revela que está com um grave câncer e agora precisa aceitar o fato que sua então inimiga mais cedo ou mais tarde tomará conta de seus filhos. Só que até as duas entrarem em um acordo muita coisa pode acontecer.

Duas das maiores estrelas dos últimos tempos do cinemão americano juntas em um mesmo filme só pode significar duas coisas: um belo duelo de interpretações em cena e muita fofoca de bastidores a respeito da guerra de egos. Contrariando as expectativas, Susan e Julia se deram tão bem nos bastidores que tal cumplicidade passou para as telas. Elas são enérgicas nos momentos de raiva de suas personagens e transbordam emoção quando são forçadas a se unir em prol de um bem maior. Desde os primeiros minutos, esquecemos que em cenas temos atrizes e passamos a acreditar que estamos vendo duas mulheres de verdade em um clima de rivalidade intenso e que mexe com o emocional dos mais sensíveis. Contar que depois de muitas brigas elas ao menos passam a ser mais tolerantes uma com a outra não é estragar a surpresa de ver este drama, pelo contrário. O segredo do sucesso está na delicadeza com que o diretor Chris Columbus trabalha as situações do enredo que por mais clichês que sejam não deixam de ser tocantes. Temos aqui as diversas tentativas de Isabel em conquistar a confiança e o amor de seus enteados, situações quase sempre falhas. Acompanhamos a frustração desta mulher que ainda não tem a maturidade necessária para passar por cima das decepções. Jackie por outro lado usa sua experiência de vida para fazer jogo duplo, sem levar a coisa para o lado da vilania. Ainda se mantém dócil e compreensível na presença do ex-marido, mas é um tanto ardilosa quando precisa se dirigir à rival, o que demonstra que ainda não superou o fim de seu casamento. Como água mole em pedra dura tanto bate até que fura, é óbvio que Isabel conseguirá amolecer o coração de Ben e Anna através de situações típicas de mãe e filhos, como buscar na escola o menino ou dar conselhos à garota sobre o primeiro amor, tudo para o desespero de Jackie que tem que lidar com a agonia de que realmente tais cenas serão rotineiras em um futuro próximo. Além disso, ela ainda tem que se mostrar forte em relação a doença para não traumatizar os filhos, assim não estranhe se sua lembrança maior desta produção não seja a de uma mulher agonizando e sim a de uma mãe feliz cantarolando e dançando uma canção com as crianças altas horas da noite. Nesse embate de gigantes, no qual até os atores mirins conseguem uma brecha para brilharem, é uma pena que o excelente Ed Harris seja desperdiçado em um papel inexpressivo cuja única função é criar o elo de conflito entre as protagonistas, mas sem intervir ativamente nessa guerra.

Desenvolvido sem pudor em cima da previsibilidade, esta obra encontra na sinceridade de suas intérpretes o seu diferencial. Raramente o cinema oferece espaço para dois bons papéis femininos sem apelar para um duelo entre o bem e o mal. Neste caso, em nenhum momento uma ou outra é rascunhada como vilã ou coitadinha. Ambas são mulheres comuns em busca da felicidade e que vivem os bons e os maus momentos da vida, erram e acertam, ofendem e se arrependem. Aos trancos e barrancos elas podem entrar em um acordo de paz, porém, não deixando no ar a sensação de felizes para sempre, mas sim a entender que houve a conformidade, o que confere a obra um realismo ausente na maioria dos dramas feitos para emocionar principalmente as platéias femininas. A costumeira calda açucarada é substituída por uma de sabor agridoce. Columbus, especialista em obras para mexer com as emoções dos espectadores mesmo quando investindo no humor, como nos primeiros filmes Esqueceram de Mim e em Uma Babá Quase Perfeita, mais uma vez acerta ao realizar um trabalho simples e eficiente. Não inova no estilo de filmagem, na edição e tampouco reserva ao desenvolvimento do enredo momentos majestosos, porém, consegue imprimir em sua obra um sentimentalismo único e tocante. O segredo é ser despretensioso. O diretor afirmou que realizou o projeto com o objetivo de homenagear sua mãe e esse carinho existente nessa relação era tão forte que não é a toa que a maioria das matriarcas fica encantadas quando assistem Lado a Lado. Pode parecer um filme bobinho e sem importância, mas talvez só coração de mãe mesmo para compreender o conteúdo desta produção que acabou colhendo elogios da crítica e chegou a ser apontado como aposta certa para o Oscar. A Academia infelizmente não conferiu indicação alguma, mas o público tratou de dar o reconhecimento máximo e merecido à obra. Clássico moderno? Pode não chegar a tanto, mas certamente está guardado com carinho na memória e nos corações de quem já o assistiu.

Drama - 125 min - 1998 - Dê sua opinião abaixo.

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