sábado, 23 de agosto de 2014

PASSAGEM SECRETA

Nota 6,5 Drama aborda como judeus tentavam sobreviver na Europa durante a Santa Inquisição

Costumamos ligar a perseguição aos judeus ao período do Holocausto, mas tal situação vergonhosa já vem de longa data, de tempos em que nem o Brasil havia sido descoberto. E quem pensa que os alemães são os únicos grandes vilões desse triste capítulo fique sabendo que antes deles outros povos também demonstraram cruelmente sua aversão ao judaísmo, como os espanhóis. O drama Passagem Secreta especula através de um pequeno grupo de personagens como parte da Europa estava reagindo aos tempos da inquisição. Em 1492, a Espanha decretou que todos os judeus que não se convertessem ao catolicismo seriam conduzidos ao exílio ou até mesmo julgados, podendo ser levados à execução em praça pública ou não. Representantes do governo invadiam as casas para confiscar dinheiro, joias e bens materiais de valor e quem contestasse a ação era eliminado imediatamente. As irmãs Judith e Sara viram ainda pequenas muitas atrocidades, mas foram salvas por seus pais que aceitaram que elas se tornassem cristãs. Rebatizadas respectivamente de Isabel (Katherine Borowitz) e Clara (Tara Fitzgerald), elas se separaram da família e foram viver na cidade de Antuérpia onde, embora ainda tendo que esconder suas origens, as irmãs tiveram alguns anos de felicidade. Isabel, a mais velha, nunca se casou, mas conseguiu para Clara um casamento arranjado com outro judeu convertido que morreu quinze anos depois tentando ajudar membros de sua religião. A inquisição voltava a assombrar os “hereges” e o testamento do falecido guardava surpresas. Deixando a dúvida de que poderia ter tido um caso com a cunhada, algo não explorado no roteiro, ele deixa todos os seus bens para Isabel e a tutela da única filha, Victoria (Hanna Taylor Gordon). Em comum acordo elas decidem ir viver em uma das propriedades da família em Veneza, na Itália, cidade rica em cultura e tolerância e também um importante ponto comercial devido as facilidades de acesso pelo mar, porém, ainda teriam que bancar as católicas e adorando ídolos falsos. Todavia, a mudança coincide com uma brusca ruptura na harmonia do clã. Até então as irmãs nunca tinham tido problemas de convivência, nem mesmo por conta da tal herança.

Logo que chega à Veneza o trio é bem recebido pela alta sociedade e a amizade com o Conde Foscari (Anton Rodgers) é de suma importância para a adaptação. Isabel vai cuidar dos negócios da família e deseja participar dos lucros dos famosos vidros vienenses, um dos grandes e valiosos produtos de exportação da cidade, mas mesmo com todo o respeito que lhe dedicam ela tem dificuldades para alcançar seu objetivo. Os nomes mais influentes têm medo de que o segredo de uma atividade tão lucrativa caia em mãos erradas e a fama dos judeus, mesmo convertidos, não inspira confiança. O receio será justificado. Na realidade, Isabel quer informações sobre a fabricação de vidros para repassá-las a um grupo de turcos mercenários que oferecem em troca um barco para levar os judeus até Istambul, o único lugar onde poderiam viver sossegados. O primo dela, Joseph (Richard Harrington), está para chegar com um grupo de refugiados para colocar em prática um plano. A residência das moças esconde uma passagem secreta que oferece uma rota de fuga marítima, assim os fugitivos teriam acesso mais facilmente à embarcação, mas tudo só seria possível através da duplicidade de acordos. Além das dificuldades para negociar com os vienenses, Isabel ainda terá problemas com Clara que acaba se apaixonando por Paolo Zane (John Turturro), um nobre viúvo e falido que sobrevive às custas da fama e da tradição de sua família. Pensando até em um possível casamento entre Victoria e seu filho Andrea (Marc Pickering), este homem realmente parece estar interessado na jovem viúva, mas seu impulso para conquistas amorosas vai abrir caminho para um grave problema. Com roteiro de Dominique Bursztejn, Olivier Bonas, Jean-François Goyet e Ademir Kenovic, este último também assinando a direção, Passagem Secreta é uma grata surpresa, aquele tipo de filme que nos faz repensar os rumos do cinema. Está longe de ser uma obra-prima, mas também bem distante de ser qualquer abobrinha, pelo contrário. Tem conteúdo, reconstituição de época impecável, bela fotografia, mas pesa o fato de não contar com elenco de peso ou um grande estúdio por trás. Só por documentar fatos históricos sua importância já estaria assinalada.

Drama - 90 min - 2004 

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