sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A ESPINHA DO DIABO

NOTA 8,0

Um dos primeiros filmes do mexicano
Guillermo Del Toro já deixava suas
marcas abordando suspense, drama e
fantasia com pano de fundo histórico
Os melhores filmes de horror não são aqueles escorados em efeitos especiais ou em violência gráfica. Ok, O Exorcista está aí como uma exceção à regra, mas temos os clássicos O Bebê de Rosemary, O Iluminado e até da safra mais recente Os Outros para comprovar que acima de tudo é preciso ter uma boa história para contar sustentada por personagens críveis e motivações essencialmente humanas. O título A Espinha do Diabo sugere uma obra de literalmente gelar a espinha, mas levando a assinatura do cineasta mexicano Guillermo Del Toro sabemos que não se trata de um terror convencional. Bem, hoje conhecemos muito bem seu estilo de unir drama, fantasia e suspense, porém, na época ainda era um ilustre desconhecido. Ele já tinha engatilhado projetos em Hollywood, como Blade 2 e Hellboy, ambos já carregados de vícios da indústria para faturar alto até por serem baseados em personagens existentes no universo dos quadrinhos. Sendo assim, seu drama com pitadas de sobrenatural tendo como pano de fundo a Guerra Civil Espanhola servia praticamente como seu cartão de visitas. Em meados da década de 1930, um orfanato estrategicamente instalado no meio do nada abriga os já órfãos e os filhos de pais recrutados para o combate. A diretora Carmem (Marisa Paredes) é uma senhora bastante rígida, mas bondosa, e que esconde uma fortuna em barras de ouro que são a obsessão de Jacinto (Eduardo Noriega), um ex-interno que agora trabalha para a idosa com quem também divide a cama eventualmente. Na verdade ele quer o tesouro para fugir com a jovem Conchita (Irene Viseto), cozinheira da casa que também é administrada pelo Dr. Casares (Federico Luppi), poeta, professor e que guarda uma paixão platônica por Carmem por se sentir impedindo pela impotência. Parece um novelão mexicano, mas a mente de Del Toro é muito mais fértil. A relação amorosa mal resolvida destas pessoas vai interferir drasticamente no futuro dos internos, entre eles Carlos (Fernando Tielve) que perdeu o pai vítima de um ataque de bombas e é deixado lá por seu tutor. Logo que chega o menino sente que a vida não será nada fácil e faz alguns amigos graças a curiosidade que desperta por trazer alguns gibis na bagagem, um tesouro para um grupo que necessitava de distração. Assim, de imediato, ele causa ciumeira em Jaime (Iñigo Garcés), até então o centro das atenções e líder natural da turminha.

Se já não bastasse o passado e o presente de tristezas destas pessoas e o ambiente desolador do casarão, que fica a um dia de distância da cidade mais próxima e tem um gigantesco míssil cravado no pátio, o lugar ainda é assolado por lendas de fantasmas, mais especificamente a história de Santi (Junio Valverde), um espectro de olhos levemente esbugalhados, face pálida e cujo crânio solta uma espécie de fumaça avermelhada, mas na verdade é como se fosse sangue fluindo, algo que tem a ver com o que aconteceu a essa criança. Ele é um interno que sumiu misteriosamente do local coincidentemente no mesmo dia em que o tal artefato de guerra por pouco não causou uma tragédia de proporções assustadoras. Por medo de explosão, ninguém ousou remover a bomba que nunca deixou de emitir sons que lembram um tique-taque e assim ela permaneceu como uma indesejável lembrança de que há uma guerra fora dos muros do orfanato, mas que a qualquer momento pode ressoar lá dentro, inclusive com sua própria eclosão. Entre a tensão existente entre os adultos, os questionamentos quanto ao míssil e até a imagem impressionante de algo intrigante envasado e guardado por Casares (que ajudará a justificar o título), Carlos vai juntando pistas que parecem se entrelaçar com a história de Sandi que começa a aparecer para o garoto clamando por justiça. Isso sem falar nas aporrinhações de alguns garotos que testam os limites da paciência do novato, principalmente Jaime que com seu jeito autoritário parece querer escamotear fragilidades. É preciso estar atento aos diálogos e situações para conseguir montar o quebra-cabeça proposto, ainda que infelizmente no final a resolução do mistério não se apresente tão acachapante quanto prometia ser, mas nada que diminua a sensação de ansiedade mantida por todo o desenvolvimento da trama. Ela causa impacto e empatia nas mesmas proporções. Com seu roteiro literário, elaborada reconstituição de época apresentando um lúgubre e desanimador cenário e ótimas interpretações, a produção não deixa de recorrer a traquinagens de efeitos, como manifestações ectoplásmicas e sombras e ruídos que surgem sem mais nem menos, mas nunca se rende ao susto fácil.

A qualidade técnica da fotografia, exaltando o clima quente e árido diurno e a frieza e solidão que se instalam a noite, além da trilha sonora instigante fazem toda a diferença para nos envolvermos com a narrativa. O aspecto barroco e a casualidade dessa história de fantasmas possui certo senso de identificação com as lendas inexplicáveis que todos ao menos uma vez na vida já ouvimos e nos impressionamos, particularmente aquelas que tomamos contato quando crianças ou adolescentes, épocas em que naturalmente somos mais impressionáveis. Poderia ser rotulado como uma versão cucaracha de um filme sobre espíritos infantis vingativos, argumento de dez entre dez fitas de horror orientais, mas ao mesmo tempo oferece as temáticas da ambição, moral e histórica para também ser enquadrado como uma obra dramática. Na época houve até quem tenha justificado a fraca exposição da fita por conta do lançamento quase simultâneo do citado Os Outros, produção falada em inglês, mas com direção e texto original impregnados de verve latina e com o bônus de visual esmerado e a presença luxuosa de Nicole Kidman como protagonista. Também há comparações com O Sexto Sentido visto que o argumento principal gira em torno de um garoto que se comunica com um fantasma e a prevalência de dúvidas segura a trama com alguns poucos sustos pontuais. Projeto lapidado ao longo de 16 anos, ninguém queria apostar em uma mistura de gêneros tão excêntrica, até que Del Toro encontrou por acaso em um festival de cinema em 1994 o renomado Pedro Almodóvar que gostou da ideia. Mesmo com sua assinatura como produtor executivo, o longa só foi finalizado sete anos mais tarde. A Espinha do Diabo é um modelo de filme quase artesanal, tão bem realizado que temos vontade de conhecer as ruínas do cenário tão crível sua concepção. É possível sentir as tristezas e incertezas a cada palmo de chão ou parede, sensação intensificada pelas ótimas atuações que equilibram com perfeição a visceralidade  do elenco adulto com a inocência e intensidade das crianças. Visto com anos de distância, hoje podemos encontrar semelhanças diretas com O Orfanato, que o próprio Del Toro produziu, assim como também podemos interpretar como um exercício para sua obra máxima, O Labirinto do Fauno. Muito interessante ver que embora em suas obras hollywoodianas acabe cedendo a pressões da indústria, como Círculo de Fogo, quando trabalha seus projetos pessoais e em seu país-natal o cineasta preserve seu estilo e um universo particular onde transitam memórias de sua própria infância marcada por fantasias e histórias tristes de guerra... Felizmente fatos que conhecera por meio de contos e filmes, não vividos de fato por ele.

Suspense - 106 min - 2001

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