quinta-feira, 6 de novembro de 2014

INSTITUTO DE BELEZA VÊNUS

NOTA 8,5

Misturando romance, drama
e comédia, longa francês causa
identificação imediata com público
feminino e agrada plateias cults
O cinema francês infelizmente não goza de um grande prestígio no Brasil. Até mesmo entre os que gostam de produções do circuito alternativo existem aqueles que teimam na ideia de que os filmes oriundos da França são chatos, arrastados e na maioria das vezes não chegam a lugar algum, apenas um blá-blá-blá descartável. Porém, graças a Deus, existem exceções. Além de suas histórias dramáticas nos últimos tempos tornarem-se palatáveis a um público mais amplo, as comédias francesas também estão ganhando tramas de cunho universal, mas por outro lado é uma pena que elas recebam títulos que para muitos se tornam piada. Os estrangeiros tem a tradição de batizar suas obras cinematográficas com uma única palavra enigmática ou então capricham na escolha de elementos que aparentemente não refletem claramente a ideia do enredo, assim aguçando a curiosidade dos espectadores. E o que dizer de um título que realmente tem a ver com o conteúdo, mas que pode soar como piada? É o que acontece com Instituto de Beleza Vênus, uma elogiada produção feita sob medida para agradar as mulheres, entretanto, que já nasceu fadada a ser apreciada por um público restrito. Para os habituados a filmes mais cults o título é excepcional, mas para os espectadores de cinemas de shopping, ou melhor, para os fregueses de baldes de pipoca e copões de refrigerante nem é preciso dizer que eles caem na gargalhada logo comparando o nome do filme com o do salão de cabeleireiro da esquina. Para quem frequenta este tipo de estabelecimento provavelmente se identificará com algum ponto da trama que é centralizada na personagem de Angèle (Nathalie Baye), uma esteticista que prefere encontros casuais a manter um relacionamento sólido. Vivendo os dilemas e alegrias típicos de uma quarentona, ela já foi muito machucada e iludida no amor e não está mais na idade de acreditar em príncipes encantados. Cada novo homem que conquista é como se fosse um tratamento de beleza que lhe retira as marcas de expressões de uma vida relativamente triste, no entanto, concentrando a maior parte de seu tempo encerrada dentro do ambiente de trabalho é como se usasse as grandes janelas de vidro como escudo protetor de seus sentimentos, mas ainda assim usufruindo de certa forma do cotidiano do lado de fora.

A vida de Angèle ganha um colorido todo especial quando um garotão cruza seu caminho. Ela se apaixona rapidamente pelo galanteador Antoine (Samuel Le Bihan) e deseja um relacionamento duradouro com o rapaz, mas ela terá que enfrentar a namoradinha dele que jamais admitiria ser trocada por uma mulher mais velha. Tal situação até pode parecer engraçada inicialmente, porém, com o passar do tempo os problemas se tornam sérios. Ela não sabe como agir e o amor parece realmente não fazer parte de seu mundo. Aliás, o universo da esteticista parece se restringir ao salão de beleza e suas companhias são as colegas de trabalho Nadine (Bulle Ogier), a proprietária do estabelecimento extremamente vaidosa, Samantha (Matilde Seigner), uma namoradeira inveterada, e Marie (Audrey Tautou – então premiada com o César de revelação feminina), uma jovem aparentemente tímida. Apesar de o enredo ter como atrativo principal os conflitos amorosos de Angèle, existem outras histórias que pontuam o longa e que carregam uma essência feminista. Por exemplo, Marie seduz um homem já de idade, mas muito rico, obviamente atraída pela possibilidade de lucrar financeiramente com a relação. Nesse instante, a protagonista percebe que o importante na vida é viver o presente e finalmente se entrega ao amor de seu jovem apaixonado e passa a enxergar a vida de outra maneira. Antes ela estava acostumada a viver o cotidiano das outras pessoas que ela observava diariamente através dos vidros das janelas de sua casa, restaurantes e principalmente do próprio salão. Aliás, como ouvinte e confidente de suas clientes, os dramas e alegrias delas acabavam mexendo com seu estado emocional também. As conversas fúteis de suas clientes colaboravam para que ela imaginasse que a felicidade é um sonho impossível. Esse olhar feminino, ora romântico, ora ácido, se deve muito ao fato do filme ser dirigido por uma mulher. Embora americana, Tonie Marshall conseguiu com esta sua visão peculiar de um salão de beleza faturar quatro troféus César, o Oscar francês, incluindo melhor filme, direção e roteiro, assim conseguindo um rápido reconhecimento internacional, algo que seu pai, o ator e diretor William Marshall, não conseguiu em anos de carreira. Também roteirista, a diretora construiu diálogos e situações eficientes e realistas graças a sua pesquisa in loco literalmente fazendo plantão nos salões com olhos e ouvidos bem atentos às fofocas e trejeitos de funcionários e clientela, entretanto, a busca pela essência feminina não torna a sua obra proibida para homens.

Os barbados amantes de cinema alternativo também encontram elementos suficientes na trama para se divertirem. Por exemplo, a clientela do lugar é um tanto variada. Da cliente desinibida que gosta de desfilar nua pelo salão até um veterano de guerra que usou a pele das nádegas da própria esposa para realizar uma plástica facial, curiosamente os personagens lembram tipos comuns em obras do cineasta espanhol Pedro Almodóvar (entenda-se como figuras bizarras ou alopradas envoltas com situações dramáticas), talvez até um detalhe proposital para tentar ajudar na carreira internacional do longa. Tudo isso junto resulta em um trabalho que mistura de forma eficiente drama e humor, mas uma pena que ficou restrito a um pequeno público, até por conta de sua raquítica distribuição. Muito sensível e envolvente, Instituto de Beleza Vênus é um ótimo exemplo de obra que equilibra bem características do cinema de arte com o comercial. A história de fácil assimilação, momentos divertidos e outros comoventes, só derrapa no final quando o tom realista abre espaço para o romantismo exacerbado explícito inclusive no visual. Os últimos minutos mostram-se tão artificiais quanto a ambientação principal que vende a beleza como uma falsa tentativa de se encontrar a felicidade. Aliás, os cenários merecem elogios à parte por trabalharem o contraste entre o sossegado salão e a selva das ruas. Para ampliar as diferenças entres esses dois ambientes, o instituto ganhou ares de butique ou até mesmo de um aquário. Muitas cenas mostram as pessoas se movendo naquele mundinho particular e as luzes de neon reforçam o lado kitsch do local. A concentração de pessoas por lá facilita a relação de intimidade entre personagens e espectadores, porém, limita demais o avanço da história, mas algo recuperado quando a câmera passeia por outras ambientações. De qualquer foram, a ação acaba sempre voltando para a casa dos cremes e maquiagens, onde as fofocas são feitas de forma educada e em ambientes reservados. Pode soar estranho, pois o modelo de salão de beleza brasileiro é bem diferente, mas de qualquer forma este é um filme muito bonito e que merecia atenção do público e crítica, pena que sua ausência no mercado nacional já dure vários anos. Talvez reflexo da pouca procura que teve quando lançado ou até mesmo da falência de sua distribuidora. Uma última curiosidade é que o filme fez tanto sucesso na França e em alguns outros países que acabou gerando em 2005 a série televisiva "Vênus & Apollo", também mantendo o foco no mundo feminino através dos olhos das funcionárias de um instituto de beleza.

Comédia Romântica - 105 min - 1999

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