terça-feira, 10 de janeiro de 2012

BRÜNO

NOTA 5,0

Personagem estereotipado
e cenas de humor pastelão
e apelativo resultam em
uma comédia discutível
Em 2006 ele surgiu para o grande público fazendo um humor ácido e crítico, mas ao mesmo tempo demente e puro besteirol. Com Borat o ator Sacha Baron Cohen conseguiu saltar em grande estilo da televisão para o cinema e em pouco tempo já colecionava milhares de fãs pelo mundo todo. Para tanto, ele não precisou de muito esforço. Simplesmente levou um personagem já conhecido por causa de seu programa chamado "Da Ali G Show", misturou situações reais criadas por ele próprio com outras planejadas pelos roteiristas envolvendo anônimos e atores desconhecidos e assim ele conquistou elogios e prêmios mundo a fora. Um tremendo golpe de sorte. Não é de se estranhar, portanto, que seu projeto seguinte fosse muito aguardado, mas com Brüno as coisas foram diferentes e a recepção de público e crítica foi bem fria, ainda que repetindo a fórmula que o consagrou e a parceria com o diretor Larry Charles. O personagem-título (Cohen) é um estilista homossexual de origem austríaca que perde seu emprego após fazer um barraco em um desfile em Milão, na Itália. Desiludido, ele resolve se mudar para os EUA acreditando no tão famoso sonho americano. Se ele deseja viver entre os flashs e ser reconhecido nas ruas, nada melhor que viver próximo a Hollywood.  Porém, quando chega a seu destino, ele percebe que as coisas não são tão simples quanto pareciam . A partir de então as situações mais bizarras e algumas até constrangedoras passam a desfilar pele tela tendo sempre como protagonista um homem de corpo esguio, olhos arregalados, sotaque esquisito e cabelos oxigenados que não tem medo de se passar por ridículo e aparecer da maneira que pode. Ele tenta emplacar na TV um programa de entrevista, faz de tudo para seduzir um candidato a presidência e até adota uma criança negra que vive em situação de miséria, afinal já que a Madonna e a Angelina Jolie podem porque ele não?

Se em Borat a crítica era ao modo de vida americano e a procura por uma, digamos, artista tratava de alinhavar as cenas, aqui o foco é justamente criticar a busca incessante pela fama, aqueles que não têm o menor talento para a coisa, mas insistem em estar na mídia a qualquer preço. Os assuntos criticados em ambos os filmes não ficam restritos aos EUA e suas compreensões e identificações se estendem pelos quatros cantos do mundo. Quando o assunto são as subcelebridades então nem se fala. Em tempos que a praga dos realitys shows se espalhou mundialmente, encontramos a essência de Brüno até no sexo feminino e nem os machões escapam. Quem é obcecado pela fama ou já sentiu seu gostinho alguma vez não mede esforços para se manter em evidência e até a mídia já tratou de lançar produtos que se sustentam pelos barracos e fofocas dessa turma. Mas se esta segunda grande produção estrelada por Cohen mantém o estilo de falso documentário e tira um sarro do cruel e descerebrado mundo dos famosos instantâneos, por que não foi bem aceita? O erro pode ser o próprio protagonista que se apresenta de forma extremamente arrogante e maltratando as pessoas logo no início, o suficiente para ganhar a repulsa do público que acaba não se envolvendo e a todo momento vê uma caricatura ligada em última voltagem em cena.  Até o público gay que poderia apoiar este trabalho deve se revoltar. Ele estereotipou e de certa forma ridicularizou a imagem do homossexual, um serviço contra aqueles que lutam por respeito e direitos. O grande problema nem é tanto os gritinhos, viradas de mão, roupas insinuantes ou o andar saltitante, mas sim explorar o apelo sexual exagerado como se quisesse dizer que essas pessoas só pensam naquilo e reforçando preconceitos. Chegamos ao ponto de ver em close um órgão genital em movimentos vexatórios e o ator até demonstra sozinho como é o sexo oral entre dois homens. Nem precisa de muita imaginação para visualizar como tudo acontece, ele é bem explícito e detalhista em sua performance. Fora isso, além dos pitis a cada cinco minutos, cenas de humor a la Zorra Total são protagonizadas por ele, por exemplo, em um programa de debates (ou barraco) no qual ele apresenta os bebês que acaba de adquirir por puro interesse. Tanta polêmica acabou trabalhando contra a imagem do longa e em alguns lugares a obra precisou sofrer cortes para exibições e teve países em que ele foi terminantemente proibido.

Além dos problemas no roteiro em si, esta produção tem sérios equívocos de estruturação do início ao fim, fruto de uma edição mal feita. Devido a curta duração da obra, cerca de 80 minutos, fica estranho ver tantas situações sendo concentradas em pouco tempo e os cortes abruptos de imagens só reforça tal sensação. É como se estivéssemos vendo um videoclipe de música pop, aliás, o estilo musical realça o estilo fashionista e fútil do personagem sempre que é tocado. As cenas malucas, ou seja, praticamente todas, causam risos de tão absurdas que são, mas dentro de um longa-metragem não funcionam plenamente. Vistas separadamente elas podem ser ótimas, mas no conjunto elas parecem mal encaixadas, como se fosse uma colagem de esquetes de programa de TV. Enfim, Brüno prova que nem sempre manter o time que está vencendo vale a pena. O trabalho anterior de Cohen foi um sucesso porque trouxe um respiro ao batido gênero da comédia, era novidade ver um trabalho americano criticando os próprios americanos, o personagem tinha uma ar de ingenuidade que agradou em cheio ao público e a mistura do estilo pegadinhas com documentário da trama certamente colaborou para a popularização das confusões do repórter Borat. A fórmula repetida para apresentar a trajetória de Brüno rumo ao estrelato não surtiu efeito porque já não traz elementos surpresas e o protagonista exagerou na dose com piadas que extrapolaram limites e algumas um tanto escatológicas. Não temos a sensação de ver um filme cujo roteiro foi escrito conforme as filmagens avançavam e tudo parece muito esquemático e pensado sob medida para chocar ou forçar gargalhadas. Para quem curte, uma produção difícil de encontrar similar, que realmente faz jus a sua classificação de comédia e que reúne cenas antológicas... De tão bizarras, fique claro.
Comédia - 81 min - 2009 - Dê sua opinião abaixo.

Um comentário:

Luís disse...

Eu realmente acho que esse filme é sofrível e é um dos piores a que eu já assisti, justamente porque recolhe informações interessantes que facilmente poderiam ser parodiadas e - na paródia - criticadas, mas acabou simplesmente caindo no gratuito. Ao terminar de vê-lo, fiquei me perguntando se eram mesmo necessários 81 minutos para expor tão pouca coisa...

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