sexta-feira, 1 de agosto de 2014

VIOLAÇÃO DE CONDUTA

NOTA 5,0

Thriller militar começa bem,
mas na obsessão de surpreender
a narrativa vai somando elementos
desnecessário para render final tolo
Houve um tempo em que qualquer suspense meia boca bombava nos cinemas e locadoras facilmente, ainda mais se nomes famosos constavam nos créditos, mas os tempos mudaram. Depois dos finais impactantes de O Sexto Sentido e Os Outros e o quebra-cabeças proposto por Amnésia e Efeito Borboleta, o público se acostumou a achar que suspenses bons são unicamente aqueles que fogem da narrativa convencional e possuem um arsenal de truques na manga. Pensando bem, desde Os Suspeitos, lançado em 1995, surpreender o espectador tornou-se uma obsessão de muitos cineastas que na preocupação de criar momentos arrebatadores esquecem-se que para sustentá-los é preciso também ter uma boa narrativa. Violação de Conduta tentou ser mais um marco do tipo no gênero, mas acabou se tornando um filme complicadíssimo que tropeça em suas próprias trucagens. Roteirizado por James Vanderbilt, a trama tem uma introdução passada na Zona do Canal do Panamá e em off temos uma rápida explanação sobre o passado do local que em nada acrescenta a trama principal, a não ser o fato de ser conhecido como uma região que tem uma forma especial de lidar com lucros e a morte. Essa é a tônica do enredo. Literalmente nas selvas, um grupo de fuzileiros está fazendo um treinamento militar onde matar torna-se uma necessidade para se viver e alguns tiram um dinheirinho extra com comércio ilegal. Mesmo sob a ameaça de uma grande tempestade, o sargento Nathan West (Samuel L. Jackson) não cancela o treino e divide sua equipe em dois grupos, mas algumas horas depois os militares perderam contato com a base. Quando as equipes de busca estavam para desistir de achar alguém com vida, dois homens são avistados correndo pela mata, no entanto, parecem estar trocando tiros entre eles. O sargento Raymond Dunbar (Brian Van Holt) e o segundo tenente Levi Kendall (Giovanni Ribisi) foram resgatados, mas não parecem dispostos a colaborar com as investigações. Ao que tudo indica ambos tinham motivos para matar o comandante da operação, um típico sujeito durão e abusivo que qualquer recruta nutriria ódio. Bastariam alguns diálogos bem construídos e conduzidos para que aos poucos a identidade do assassino fosse revelada e fosse descoberto o que aconteceu aos outros militares, mas para que simplificar o que pode ser complicado?

A capitã Julia Osborne (Connie Nielsen) é encarregada para investigar o caso, porém, Kendall foi gravemente ferido e está internado em um hospital militar sob efeito de medicamentos, assim o que disser pode ser considerado delírio. Já Dunbar está consciente, mas não quer falar com ninguém que faça parte da corporação, o que leva o comandante da base recorrer a ajuda de um velho amigo com mais experiência. Tom Hardy (John Travolta) é um ex-soldado que está afastado de suas atividades contra o narcotráfico devido a uma denúncia de corrupção, mas por ter sido um dos recrutas que sobreviveram aos excessos e humilhações de West, adepto de treinamentos que priorizavam o raciocínio rápido sob pressão e fadiga, ninguém melhor que ele para compreender o que pode ter acontecido no Panamá. A corretíssima Julia obviamente não gosta de ter que dividir os méritos da investigação, mas apesar da constante troca de farpas eles unem forças para chegar à verdade. O problema é que elucidar esse caso cada vez parece mais complicado. Os sobreviventes contam versões diferentes dos fatos, mas o que fica evidente é que há muita sujeira a ser descoberta em toda a base militar. Simplificado assim o roteiro parece bem fácil de acompanhar e realmente os primeiros minutos captam a atenção, principalmente por conta da atuação de Travolta que constrói um personagem com alto teor de persuasão e malícia, mas que não deseja se envolver em um conflito interno para não comprar briga com um general de alta patente. Kendall é filho desse militar respeitado, mas pode ter sofrido retaliação durante o treinamento por revelar-se homossexual. Aliás, só estava no treino na mata por obrigação já que seu pai queria mantê-lo afastado de um possível namorado, assim ele seria um alvo fácil para chacotas de West. Essa é apenas uma das citações que surgem para emaranhar a narrativa que em sua primeira hora constrói habilmente as personalidades dos sobreviventes, embora manipulando os fatos para que a plateia se simpatize com Dunbar e tenha argumentos para desconfiar de Kendall. Como Hardy diz logo no início das investigações, o típico físico, o jeito de olhar e falar e até os movimentos das mãos e dos pés podem dizer muito sobre uma pessoa e o espectador deve estar atento a esses detalhes para tentar descobrir quem está falando a verdade. Todavia, o investigador parece ter pressa para terminar o caso, ainda mais quando as averiguações começam a sinalizar que o tráfico de drogas corre solto entre os militares, o que poderia respingar em sua má afamada reputação.

Travolta e Nielsen conduzem seus personagens corretamente, mas nenhum deles brilha até porque seus perfis reciclam o velho clichê da dupla que não se bica, mas são obrigados a trabalharem juntos. Pelo menos o diretor John McTiernan foge da armadilha do envolvimento amoroso entre os opostos que se atraem afinal de contas seu lance é ação. Diretor de sucessos como Duro de Matar e Caçada ao Outubro Vermelho, o cineasta optou por entrar na onda de produções que ousaram apresentar a decadência do sistema militar norte-americano, filmes rotulados pelo subgênero thriller militar. Sua obra guarda semelhanças com A Filha do General e Regras do Jogo, coincidência ou não protagonizados respectivamente por Travolta e Jackson, este que, diga-se de passagem, é quem se sai melhor criando um dos militares mais repugnantes da História do cinema divertindo-se torturando física e mentalmente seus soldados. Embora West apareça apenas em flashbacks, o personagem é peça fundamental para a narrativa. Desde sua primeira cena fica claro que o episódio no Panamá não foi uma fatalidade. Um dos militares já foi ao treinamento com intenções de matá-lo e o ato consumado deu início a um confronto com os colegas que temiam que as investigações levassem a outros crimes internos. O pior é que o roteiro não vai descamando até chegarmos a seu núcleo, pelo contrário, parece cada vez mais se cercar de pistas falsas para no fim revelar um segredo sem graça. As versões vão se misturando ou desmentindo uma a outra, novas revelações surgem, o que parecia ser já não é mais, nomes se confundem e as reviravoltas vão se sucedendo em velocidade absurda até que chega um ponto que a fórmula extrapola os limites do tolerável. Se na primeira metade o roteiro consegue prender a atenção lançando mão de diálogos tensos e intrigantes e uma atmosfera claustrofóbica condiciona o espectador a ficar atento a cada detalhe narrativo ou visual, a parte final se perde em reviravoltas desnecessárias até culminar em um final que não sabe o que fazer com tantas pontas soltas. É impossível não se sentir perdido a certa altura acompanhando uma história onde literalmente tudo pode acontecer sem grandes preocupações com coesão. O mocinho pode ser bandido, o branco se passar por negro e por aí vai. A última cena de Violação de Conduta destoa tanto do restante do filme que soa como uma piada na qual os personagens se divertem imaginando a cara de idiota do espectador. Mesmo que por mais de 90 minutos o filme se sustente aos trancos e barrancos, não dá para levar o final a sério, lembrando uma finalização de episódio do desenho do “Scooby-Doo”, e dá até preguiça de reorganizar a trama para tentarmos compreender algo. Melhor deixar para lá.

Suspense - 98 min - 2003

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