terça-feira, 31 de janeiro de 2012

LOPE

NOTA 8,5

Cinebiografia de poeta
espanhol é convencional,
mas eficiente e com um
belo visual barroco
O cinema brasileiro está cada vez mais ganhando espaço em outros países, com direito a participações em festivais e não tendo sua distribuição restrita apenas ao período de premiações quando batalhamos por certa cobiçada estatueta dourada. Dessa forma, o talento de nossos atores, diretores e equipes técnicas também têm conquistado o respeito e a admiração do público, crítica e, principalmente, de quem faz cinema em todos os cantos do mundo. A prova disso é que frequentemente encontrarmos nos créditos de muitas produções internacionais os nomes de alguns brasileiros. Este é o caso de Lope, uma requintada produção de época européia dirigida por Andrucha Waddington, o homem por trás das câmeras de Eu, Tu, Eles e Casa de Areia. Mesmo não possuindo uma extensa filmografia, alguns de seus trabalhos chegaram a ser exibidos em importantes festivais internacionais e chamaram a atenção. Nesta co-produção entre Brasil e Espanha o cineasta mantém o mesmo bom nível de seus trabalhos anteriores e sem inovações, mas isso não faz esta obra ser um projeto menor em seu currículo, pelo contrário, ele se mostra maduro e confiante para contar a história de uma personalidade do mundo das artes pouco conhecida fora do território espanhol. Felix Lope de Verga (Alberto Ammann) é um jovem e galanteador poeta que deseja ter seus trabalhos reconhecidos e não mede esforços para conseguir o que quer. Em meados do século 16, o dramaturgo volta da Guerra dos Açores para Madri decidido a não lutar mais pelo seu país natal e querendo seguir seu sonho de com seus textos modificar a cara das produções teatrais unindo humor e drama em uma mesma história. Para tanto ele busca a ajuda do antipático empresário teatral Jeronimo Velázquez (Juan Diego), mas convencê-lo de seu talento não é uma tarefa fácil, porém Elena (Pilar López de Ayala) pode ser a salvação do rapaz. Filha do empresário, ela logo se sente atraída por Lope e começa um romance às escondidas, já que ela é usada pelo pai para conseguir favores de homens ricos e o próprio escritor passa a ter seu trabalho explorado. Enquanto isso, o dramaturgo também se envolve com outra mulher, Isabel (Leonor Watling), uma amiga de infância de família recatada. O Marquês de Navas (Selton Mello) se apaixona por ela e contrata o poeta para escrever versos para conquistá-la, mas não demora muito e a moça descobre o verdadeiro autor das palavras amorosas. Desafiando regras e barreiras sociais e sem pensar nas consequências, Lope acaba despertando a ira de muita gente.

Em seu primeiro filme fora do Brasil, utilizando o idioma espanhol nos diálogos, Waddington realizou um trabalhou muito bem feito aproveitando todo o espírito teatral de uma história verídica, mas bem ao estilo dos grandes romances escritos séculos atrás. A escolha de um estrangeiro para levar às telas uma homenagem para um ídolo da cultura espanhola gerou críticas da imprensa local, mas a mídia brasileira também não exaltou a obra. As poucas críticas que surgiram seguiram o viés de malhar a opção do diretor em realizar um filme convencional e com um apuro técnico invejável para se aproximar ao máximo dos requisitos necessários para que seu longa ganhasse uma estética européia, afinal o cinema do continente é muito conhecido pelos visuais arrebatadores de seus épicos. Realmente, talvez até o momento o cineasta não tinha se envolvido em um projeto tão rico em detalhes de cenografia, figurinos e maquiagem, tudo no melhor estilo barroco, o que sem dúvida rende belas imagens para a equipe de fotografia e edição trabalhar, o que valoriza muito o trabalho. Não há problema algum em se preocupar com a estética, desde que o enredo não decepcione como acontece neste caso. A narrativa acompanha o início da vida adulta de Lope, que nasceu em 1562 e faleceu em 1635, e sua busca incessante para conseguir viver da sua arte. Mesmo não esmiuçando a vida do escritor do início ao fim, o roteiro é feliz em sua apresentação sucinta do personagem da sua juventude até alguns anos de sua maturidade mostrando suas conquistas e desventuras, mas sem se estender até a sua velhice, lugar comum em que as cinebiografias caem. O espectador consegue absorver o suficiente para conhecer o essencial sobre o artista e de quebra é possível ter uma visão da Espanha da época, como funcionavam as companhias teatrais e as ligações e conchavos dos nobres que ditavam as regras da sociedade.  
O ator argentino Alberto Ammann interpreta o personagem título com muito vigor e é o grande destaque desta cinebiografia. Seu personagem mescla vários estilos de outros tipos que o cinema tratou de imortalizar suas imagens, desde a sensualidade digna de Don Juan De Marco até a inteligência e o dom com as palavras de Cyrano de Bergerac, passando ainda pelo entusiasmo de revolucionar o teatro tal qual Jean-Baptiste Moliére fez na França. Alguns reclamam do tom heróico que o intérprete imprimiu em seu protagonista, evidenciado em uma cena em que ele atrapalha uma encenação pendurado em um lustre, mas Lope com sua rebeldia talvez quisesse mesmo ser um herói, o homem que representaria a explosão da angústia e repressão do povo espanhol. Os demais atores apresentam interpretações corretas e críveis, mas é preciso puxar a orelha dos nossos representantes no elenco. Mesmo longe da terrinha, o diretor deu oportunidade para Selton Mello e Sônia Braga fazerem pequenas participações. O ator mostra que não está pronto para uma carreira internacional e atua como se estivesse em uma novela mexicana, mais robótico impossível, e a atriz, figurinha fácil em obras internacionais que pedem uma mulher com características latinas, está irreconhecível sob uma maquiagem que a transforma em idosa, mas piscou os olhos e ela já saiu de cena. Em resumo, Lope é um excelente filme que consegue envolver o espectador com o olhar romântico jogado sob a vida do personagem central que em alguns momentos é um pouco ambíguo e deixa o espectador na dúvida se ele é o mocinho ou o vilão da história. A lente da câmera de Waddington parece tão encantada pela história do protagonista quanto o próprio era apaixonado pelos seus sonhos e ideais, um convite irresistível para participarmos da narrativa. Selecionado para os Festivais de Veneza e Toronto, o título ainda concorreu a sete prêmios Goya, vencendo nas categorias Melhor Canção Original e Melhor Figurino. Futuramente, quem sabe o cineasta traga o estilo requintado deste trabalho para suas próximas produções nacionais, mas é bom ele se preparar para as críticas impiedosas de nossa imprensa que adora exaltar a miséria e as paisagens áridas que nosso cinema insiste em registrar em busca de elogios e prêmios e pouco se importando em agradar ao público. Vez ou outra, um refresco de romantismo e fantasia é bom para nossos olhos.
Alternativos - 106 min - 2010 - Dê sua opinião abaixo.

2 comentários:

renatocinema disse...

Quero muito assistir.

Celo Silva disse...

tambem assisti esse filme e gostei. fiz ate um post no meu blog, se quiser conferir:

http://umanoem365filmes.blogspot.com/2011/07/192-lope-andrucha-waddington2010.html

Muito bom seu espaço.
Grande abraço

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