terça-feira, 13 de março de 2012

TUDO ACONTECE EM ELIZABETHTOWN

NOTA 6,0

Demasiadamente longo e
com uma mistura irregular
de gêneros e referências,
esta obra divide opiniões
O tempo é o senhor da razão e para o cinema ele age da mesma forma. O que era um sucesso estrondoso quando lançado pode se tornar algo totalmente esquecível no futuro ou pode ocorrer o contrário, assim o que passou em brancas nuvens ou foi criticado negativamente pode se tornar o filme cult de amanhã. Para termos esses resultados podemos ser influenciados por inúmeros fatores como pouca experiência de vida para compreender um enredo, ser convencidos por críticas que lemos em jornais, revistas, internet ou que recebemos de amigos e parentes e até a adoração exagerada por algum artista ou diretor pode apontar qual caminho seguiremos na hora de formar uma opinião. O que é certo é que dificilmente em qualquer assunto em discussão é possível se chegar a um pensamento unânime, apenas é possível argumentar o máximo possível para defender uma idéia e deixar as outras pessoas tirarem suas próprias conclusões. Seguindo essa linha de pensamento podemos concluir que Tudo Acontece em Elizabethtown é um título excelente para suscitar discussões do tipo. Quando lançado não fez sucesso e foi malhado pela crítica, mas é comum passado alguns anos encontrar comentários na internet defensores a este trabalho do diretor Cameron Crowe, elogiado pela crítica e público por filmes como Jerry Maguire – A Grande Virada e Quase Famosos. Bem, nesta mistura de romance, drama e comédia que se desenrola em uma pequena cidade americana de caráter tradicional e interiorano é difícil entender como alguns apontam a obra como redondinha, jargão utilizado para denominar algo perfeito. Antes de qualquer coisa vamos à trama.  Drew Baylor (Orlando Bloom) está vivendo uma fase de inferno astral. Perdeu o emprego, foi abandonado pela namorada e está sem saber o que fazer da vida. Prestes a cometer suicídio ele recebe a notícia de que seu pai morreu o que o obriga a voltar à pequena Elizabethtown para o velório e assim confrontar memórias do passado de sua família e até mesmo conhecer parentes que não fazia a menor idéia que existiam. No caminho, mais especificamente dentro do avião, ele faz amizade com a aeromoça Claire (Kirsten Dunst), que pouco a pouco passa a se aproximar do jovem entre uma viagem e outra e tenta ajudá-lo a reorganizar sua vida. Resumidamente, essa é a sinopse e renderia um bom filme de uma hora e meia no máximo, mas o problema é que o desenrolar da trama ora é lento e ora é agitado, tem excesso de personagens secundários e uma duração de duas horas aproximadamente. O resultado é irregular e nem todo mundo deve se sentir satisfeito ao subir na tela os créditos finais. 

Os problemas começam por a obra ser vendida com aura de comédia romântica quando na verdade o viés mais procurado no longa é o aspecto dramático da história. Existe um casal bem simpático em cena e que cativa o espectador, mas não há um vilão em forma física entre eles, mas a vilania ficaria por conta da própria atitude deles que vira e mexe se encontram, mas deixam clara a idéia que só querem aproveitar o momento, nada de compromisso sério. Como eles dizem, são os substitutos ideais um para o outro quando a pessoa amada por cada um deles não está por perto. A relação saudável e atípica para personagens que já não estão mais na adolescência e se mostram maduros se torna crível graças as boas interpretações de Bloom e Kirsten, na época ambos tentando firmar seus nomes em Hollywood longe das séries de fantasia, respectivamente O Senhor dos Anéis e Homem-Aranha, produções em que a adrenalina e os efeitos especiais sucumbem os atores que ficam na história como coadjuvantes. Na comparação de desempenho entre os dois quem ganha é a jovem Kirsten que rouba a cena com frases e sorrisos otimistas do início ao fim, embora as vezes seu entusiasmo ou tagarelice cansem. Todavia, o encontro dos personagens principais faz jus as frases-clichê “estava escrito nas estrelas” ou “as coisas não acontecem por acaso”. Drew estava no fundo do poço e Claire surge em seu caminho com toda sua positividade como uma enviada dos céus, não por acaso eles se conhecem em um avião durante um vôo. Com ela o rapaz aprende que a vida tem que seguir em frente e nesta relação podemos encontrar o motivo de tantas pessoas apreciarem este trabalho: a mensagem positiva deixada ao espectador como se fosse um trabalho talhado nos mínimos detalhes para amenizar a dor de quem está sofrendo, seja por motivos sérios ou banais. Aprender a enxergar o lado positivo das situações, rir de bobagens do dia-a-dia e usufruir do carinho e amizade daqueles que se aproximam em um momento difícil para te ajudar são alguns dos recados que o cineasta manda.  Enfim, Crowe nada mais fez que um retrato diferenciado sobre uma história humana e que poderia ser vivenciada de diversas formas e por qualquer tipo de pessoa.  Talvez o caminho que adotou para contá-la seja o problema. Para alguns ele poderia estar falando a mesma língua que seu público alvo e para outras platéias o diretor pecou ao colocar muitas referências e estilos próprios demarcando demais a obra e não deixando espaço para algumas pessoas vivenciarem plenamente as emoções que ele desejou transmitir.
Apesar da mensagem bonita e do casalzinho simpático que conduz a trama, porém, é difícil chegar ao fim e dizer que o filme é excelente. Ficamos com a sensação de que assistimos a um caldeirão de referências proposto por um cineasta de renome que já tem seu fã clube que o defenderá de qualquer exagero, mas no fundo ele poderia contar a mesma história de forma mais enxuta e sem desperdícios. Muitas falas, ao menos na tradução para o português, parecem não ter sentido algum. Temos Alec Baldwin mais uma vez subaproveitado em um papel coadjuvante. Susan Sarandon aparece como a mãe do mocinho da fita com um personagem desinteressante e que faz um discurso embaraçoso com direito a uma dancinha no funeral do ex-marido. Aliás, as despedidas ao falecido são feitas com pompas de celebridade, afinal o homem era adorado na cidadezinha onde passou toda a sua vida, mas é aí que as coisas ficam esquisitas de vez. O excesso de parentes e amigos do defunto que aparecem para tumultuar o funeral, pedindo pelo enterro e não a cremação como desejam os filhos, ficam perdidos na trama que também peca pelos exageros de canções famosas pontuando tudo, coisa que muitos fãs do filme veneram. Próximo da conclusão, Drew faz uma longa viagem de carro ao som de uma trilha sonora pop e com direito a referências culturais e históricas a cada parada, tudo minuciosamente cronometrado e escolhido a dedo pela eficiente Claire, o ponto mais fantasioso do enredo e que desemboca em um final previsível. Bem, as músicas são marcas registradas dos trabalhos de Crowe e ajudam a dar um pouco de sentido a cenas dispensáveis em qualquer filme, mas aqui a função das baladas extrapolam um pouco. O cineasta talvez tenha se empolgado ao realizar uma obra praticamente autobiográfica. Ele próprio é de uma cidade pequena e onde todos se conhecem e pouco antes de realizar este filme também perdeu seu pai. Tentando passar para a tela todas as emoções e dúvidas que estava sentindo, acabou montando um projeto em que vários gêneros e referências se misturam, mas nem sempre de forma homogênea e agradável, chegando a haver no evento fúnebre rock ao vivo embalando um incêndio, algo um tanto surreal. É estranho, mas Tudo Acontece em Elizabethtown é um filme que nos deixa em cima do muro na hora de criticá-lo. Não é de todo ruim, mas também não é excepcional. Mexe com nosso emocional em diversas partes, mas em outras nos deixa com vontade de passar as cenas mais rapidamente tamanha a falta de conteúdo. Algumas canções podem fazer parte da trilha sonora de nossas vidas também, mas outras parecem adicionadas em momentos errados da produção. Risadas, sorrisos amarelos, alguns lampejos de dispersão e um leve lacrimejar. Romantismo, momentos melancólicos e outros bobinhos. Acontece de um tudo em Elizabethtown, literalmente.
Drama - 123 min - 2005 - Dê sua opinião abaixo.

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