segunda-feira, 19 de maio de 2014

A COR DE UM CRIME

NOTA 5,0

Suspense começa intrigante,
mas logo se torna previsível e
desperdiça um bom pano de fundo a
ser discutido: o preconceito racial
Todo mundo sabe que o racismo é um problema social universal, mas chama a atenção que em alguns países chegam a existir bairros exclusivamente habitados por negros e os papéis se invertem. Uma pessoa branca nos arredores é sinal de encrenca. É essa guerra travada entre humanos que se distinguem pela cor da pele e que são separados geograficamente por algum elemento urbano, tal qual um muro ou uma linha de trem, o grande foco de discussão do suspense A Cor de um Crime. Ou melhor, deveria ser. A trama começa em uma noite qualquer do mês de maio em 1999 e tem como palco principal o residencial Armstrong localizado em um subúrbio de Nova Jersey nos EUA. Brenda Martin (Julianne Moore) chega ao hospital com as mãos ensanguentadas e desesperada, é atendida pela equipe médica, mas ainda está em estado de choque quando recebe a visita do detetive Lorenzo Council (Samuel L. Jackson) a quem passa a relatar o que lhe aconteceu. Ela afirma que estava nos arredores do tal condomínio quando foi surpreendida por um homem negro que a arrastou violentamente para fora do carro e levou o veículo. Ela não chegou a ser estuprada e nem teve outros pertences roubados, assim o investigador fica desconfiado do porquê de tanto desespero, ainda mais por ela fazer questão de que um detetive de sua confiança seja chamado para tratar do caso. Council conhece bem os moradores e os problemas do bairro, é visto como uma espécie de autoridade a qual a maioria respeita e pede auxílio quando necessário, e sabe que um caso desses pode trazer a tona sérios problemas relacionados ao preconceito racial, mas não tem como tentar fugir da raia quando algumas horas depois da primeira conversa Brenda revela que sua preocupação pelo roubo do carro é porque seu filho Cody de apenas seis anos estava no banco traseiro. A situação fica ainda mais complicada porque a pessoa que ela deseja que leve adiante as investigações é seu próprio irmão, Danny Martin (Ron Eldard), um policial metido a valentão que vê o caso como uma afronta pessoal e consegue criar um cerco em torno de Armstrong de forma que os moradores ficam com restrições para entrar e sair do local enquanto o sobrinho não fosse encontrado. É óbvio que os habitantes se revoltam e encaram a decisão não como uma precaução, mas sim como uma atitude preconceituosa.

Apesar das informações cedidas por Brenda, Council desconfia de que ela tem muito mais a revelar sobre o episódio. Funcionária de uma instituição para crianças localizada no bairro de Dempsy, conhecido por população em sua maioria negra e por ser um ponto de venda de drogas, o detetive estranha que ela teria ido com o filho tarde da noite até o seu local de trabalho simplesmente para pegar seus óculos que havia esquecido. Logo no dia seguinte ao sumiço de Cody, os moradores do bairro isolado já estão alvoroçados e Council decide aceitar a ajuda de Karen Colutti (Edie Falco), líder de um grupo de voluntários que buscam crianças desaparecidas. Ela consegue motivar os integrantes das comunidades de Dempsy e de Gannon, onde Brenda mora, a se unirem para solucionarem o caso o mais rápido possível, mas a proposta desperta situações tensas. O bairro dos negros aliando-se ao bairro onde os brancos predominantemente residem. De um lado uma comunidade buscando a verdade para quebrar preconceitos e do outro um grupo apoiando a versão da vítima para reforçar estereótipos centenários. Essa briga é representada pelos policiais Council e Martin que tentam defender seus respectivos grupos, mas algumas cenas levam o espectador a compartilhar os mesmos pensamentos do personagem de Jackson. A visão de um garotinho seminu e de expressões tristonhas na delegacia e o modo de Brenda falar sobre o filho com convicção de ser único e especial, inclusive dizendo que gostava de levá-lo ao seu ambiente de trabalho para reforçar o quanto ele era singular em meio a tantas crianças negras, nos levam a crer inicialmente que a personagem tem sérios problemas psicológicos e imaginava a existência de Cody. No entanto, não demora a muito a sentirmos certa previsibilidade na história e acreditarmos que o menino foi morto pela própria mãe. Algumas pistas nos dão essa convicção e a grande jogada para prender o espectador é instigá-lo a descobrir o que motivou o crime. Ter esta informação não estraga o filme totalmente já que as justificativas para o ato são assustadoramente infames, mas infelizmente reforçam o pensamento de que os crimes mais chocantes são motivados pelas razões mais tolas ou cotidianas. O que enfraquece a obra é que a questão do preconceito não é tratada de forma convincente ou até mesmo compreensível. É possível sentir o clima de tensão estabelecido entre negros e brancos, entre os bairros Dempsy e Gannon, mas as situações que reforçam o conflito parecem simplesmente jogadas na tela. Falta a base de um contexto histórico para sustentar a polêmica. Vendo por esse prisma, este suspense seria para plateias mais intelectualizadas, pessoas que tem conhecimento sobre as rixas racistas existentes em solo norte-americano. Na verdade, não é preciso ser tão radical.

Embora não exista um prólogo explicando os detalhes dessa briga, qualquer um com um mínimo de cultura adquira através de filmes, livros, jornais, televisão ou o próprio cotidiano consegue compreender a situação. Bairros de periferia são conhecidos pela violência e por atrair moradores com poder aquisitivo modesto, contudo, isso não quer dizer que os habitantes desses lugares necessariamente são de má índole, porém, diariamente eles precisam provar que são pessoas de caráter. A situação do preconceito se agrava quando não se restringe a questões financeiras, mas também a cor da pele, assim é muito fácil para um branco cometer um crime e acusar um negro, as evidências histórico-sociais dão certa vantagem aos caucasianos. Por outro lado, em meio a uma situação de tensão entre as partes é tentador para um negro acusar um branco de agredir um dos membros do seu grupo como é mostrado no filme na sequência em que um morador de Armstrong escala um prédio durante uma confusão e quando cai rapidamente acusam que alguém o empurrou. O longa deixa a dúvida sobre a verdade por trás desta queda, mas a inserção de tal cena serve para mostrar o quão complexa é esta questão. A palavra de quem vale mais? Do negro pobre ou do branco com dinheiro? E se a situação fosse inversa, prevaleceria o poder da cor de pele? É isso que falta ao trabalho do diretor Joe Roth: se aprofundar no assunto. Especializado em comédias comercias, como Os Queridinhos da América e Um Natal Muito, Muito Louco, o cineasta experimentou o campo do suspense, mas não quis pender para o lado do cinema alternativo, jogando todos os holofotes em cima do jogo de dúvidas estabelecido entre Brenda e Council. Dessa forma, todo o pano de fundo do racismo se esvai sobrando espaço apenas para o suspense convencional ser razoavelmente bem desenvolvido, tanto que a cena de confissão da protagonista toma longos minutos que redimem Moore de ter uma das piores atuações de sua carreira (o chororô de boa parte do tempo da personagem não emociona, só irrita negativamente). Jackson também não está em seus melhores momentos, exagerando na dose de agressividade nas primeiras conversas entre Council e Brenda e o final dado a seu policial de certa forma reforça a preconceituosa ideia de que são poucos os negros que conseguem levar uma vida totalmente longe das atividades ilícitas. Com ritmo irregular e ganchos desperdiçados, A Cor de um Crime funciona para um passatempo quase indolor, mas é difícil digerir a sensação de que uma boa proposta foi jogada fora, ainda mais tendo a certeza que os produtores simplesmente confiaram no poder de atração dos nomes dos protagonistas.

Suspense - 113 min - 2005

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