sexta-feira, 17 de julho de 2020

JOGO PERIGOSO (2017)


Nota 6,5 Com limitações cênicas, suspense privilegia o viés psicológico e o clima de claustrofobia

O escritor Stephen King já publicou diversos best-sellers que se transformaram em filmes de sucesso como O Iluminado, e outros dispensáveis, caso de O Apanhador de Sonhos, mas de qualquer forma seu nome atrai público tanto que até pequenos contos do autor já ganharam adaptações modestas para o cinema ou telefilmes. Com dificuldades nos últimos anos para transformar suas obras em grandes produções, na era dos serviços de streaming o mestre do suspense parece ter encontrado sobrevida. Diversas de suas publicações ganharam adaptações diretas para consumo doméstico. Econômico quanto ao elenco e cenografia, Jogo Perigoso é baseado no livro homônimo lançado em 1992 e narra uma noite inesperada na vida de Jessie (Carla Gugino) e Gerald (Bruce Greenwoo), um casal que para apimentar a relação decide viajar para um local isolado onde poderão colocar em prática alguns fetiches. Na verdade, eles querem superar problemas conjugais, algo que é mostrado sutilmente logo no início quando ele coloca a mão sobre a perna da esposa enquanto dirige e ela puxa a mão em direção a seus lábios indicando para ele lhe dar um beijo. O que poderia ser interpretado como um gesto de carinho, também pode revelar o desconforto da mulher em ter seu corpo tocado. Logo também percebemos que o marido tem dificuldades para deixar o trabalho de lado e isso se reflete na forma de uma impotência sexual.

Para reverter a situação, Gerald propõe à mulher uma fantasia de dominação algemando-a à cabeceira da cama para criar uma situação de estupro simulado. O que era para ser excitante acaba gerando um grande desconforto para ela e consequentemente a frustração do marido, assim o casal inicia uma discussão que culmina com o falecimento de Gerald devido a um ataque cardíaco fulminante. Se já não fosse desesperador o bastante se sentir culpada por uma morte, Jessie ainda fica no sufoco por estar com os dois braços presos à cama e agora sozinha em uma casa isolada de tudo e de todos sem a possibilidade de se soltar. A situação vai piorando conforme o sol vai se pondo e a noite pedindo espaço, assim ela se vê cada vez mais agoniada, sentindo dores, fome e sede e tendo como única companhia um cão que haviam se deparado à caminho do local e que o invade misteriosamente já objetivando devorar lentamente o corpo do falecido. O argumento sugere um suspense enfocando o instinto de sobrevivência com a protagonista fazendo de tudo para tentar fugir. Bom, não deixa de ser também, mas as intenções do diretor Mike Flanagan não são tão rasas. Rapidamente ele muda o foco para um viés psicológico colocando Jessie a dialogar intensamente com uma visão dela mesma em versão mais segura e auxiliadora. Também surge a figura de Gerald vagando pelo quarto, sem sinal algum de mordidas do cachorro, para confrontá-la.

Após o primeiro ato, praticamente tudo que vemos são delírios da mente perturbada da protagonista, uma perspectiva bastante tensa, pois ninguém sabe melhor o que nos machuca e causa pânico do que nós mesmos. As conversas imaginárias foram as maneiras encontradas para fazer a personagem se sentir instigada a vencer o desafio de se desvencilhar das algemas e, mais que isso, resolver conflitos internos que a perseguiam desde a infância. Ela por várias vezes se recorda de Tom (Henry Thomas), seu pai que a molestava e ainda a manipulava de forma a convencê-la a acobertar os abusos. Um dos flashbacks inclusive a mostra ainda garota deitada na cama com os braços abertos, a mesma posição em que se encontra algemada, uma forma simbólica de mostrar que desde criança de certa forma ela estaria presa a algo. Ainda em suas alucinações surge uma decrepita figura que ela apelida de Homem do Luar (Carel Struycken), uma criatura que aparece em alguns rápidos momentos e estranhamente retorna nos minutos finais em uma trama paralela envolvendo necrofilia que está completamente à margem da espinha dorsal do enredo. Em cerca de quinze minutos o estranho personagem ganha sua própria história, da introdução à conclusão, mas tudo de uma forma acelerada que destoa do ritmo impresso no restante do longa. Não chega a invalidar o que acompanhamos até então, mas certamente esse desfecho tira pontos do conjunto, ainda que o surgimento do tal homem misterioso possa interpretado como a materialização dos medos e traumas de Jessie.

Com roteiro de Jeff Howard em parceria com Flanagan, não é difícil perceber o tamanho do desafio que envolvera a adaptação da obra de King. Para preencher pouco mais de uma hora e meia e ainda com um espaço físico limitado a explorar, apenas um quarto, a opção foi rapidamente apresentar o conflito central e a partir dele esmiuçar as particularidades da protagonista e consequentemente de seu cônjuge. Em paralelo são trabalhados os esforços dela para sobreviver, como evitar dormir, policiar os movimentos dos pulsos para não os ferir e seus esforços para conseguir tomar e fazer render um copo de água, a única forma que teria para manter seu corpo alimentado. Infelizmente, o diretor fez escolhas equivocadas entre o que aproveitar e o que descartar do material original. O filme seria bem mais interessante caso mantivesse todas as atenções no confronto de Jessie com seu passado, mas o diretor preferiu destacar o encontro com, digamos, sua intuição e a visão de seu marido com vida, o que em um primeiro momento podem soar como elementos sobrenaturais. Inicialmente, os diálogos com tais alucinações são o grande trunfo da produção, mas a certa altura tornam-se enfadonhos e até reforçam a impressão de que a protagonista é uma mulher fraca e submissa, mesmo na iminência da morte. Ela parece não saber como agir por conta própria diante da situação limite que vivencia e acata todos os conselhos que a visão mais segura de si mesma lhe transmite pacientemente.

Gugino carrega o filme nas costas com bastante segurança e, mesmo praticamente inerte, consegue expor as transformações da personagem conforme confronta seus medos. Trabalhando bastante suas expressões faciais, beneficiada por seus grandes e expressivos olhos claros, a atriz consegue transmitir alternadamente insegurança e determinação. Greenwood também tem seu momento para se destacar quando em alucinação faz um longo monólogo apresentando a verdadeira personalidade de Gerald e o que pode vir a ocorrer com a esposa quando sua morte for descoberta. Responsável por Hush – A Morte Ouve Ouija – A Origem do Mal,  entre outras obras de suspense, Flanagan tem intimidade com este universo e sabe criar uma atmosfera tensa sem apelar, ao menos não em excesso, as mais conhecidas convenções do gênero, como pode ser observado, por exemplo, na economia da trilha sonora e dos movimentos rápidos de câmera. Ainda que se encerre com a impressão de que durou mais tempo que o necessário, Jogo Perigoso surpreende ao fugir de sustos óbvios e cenas impactantes e focar no aprofundamento do viés psicológico de sua protagonista, mas ainda assim criando obstáculos convincentes e interessantes para preencher o enredo.

Suspense - 103 min - 2017

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