quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O VISITANTE (2007)

NOTA 7,5

Aparentemente mais um drama
a respeito da força das amizades,
longa aborda também os conflitos
quanto a imigração de forma objetiva
Você pode estar em Nova York, Paris, Londres, Madri ou até mesmo em São Paulo. Não importa onde você estiver e uma triste realidade irá se repetir: o desprezo com os estrangeiros. Não estamos nos referindo ao turista que se hospeda em hotéis e vai preparado para gastar com compras e programas culturais e sociais, ou seja, que vai de alguma forma contribuir com a economia do país visitado. O problema para os donos da casa são os imigrantes que muitas vezes partem de seus locais de origem com uma mão na frente e outra atrás e acham que basta atravessar uma fronteira para começar uma vida nova. Esse é um dos temas abordados pelo drama O Visitante, produção lançada muito discretamente não só no Brasil como até mesmo nos EUA, mas que ganhou ligeira projeção graças a surpreendente e merecida indicação ao Oscar para o veterano ator Richard Jenkins. Ele interpreta Walter Vale, um professor universitário sessentão que está sem um objetivo na vida. Solitário desde o falecimento da esposa, ele leva uma rotina pacata na universidade em que trabalha em Connecticut, mas almeja escrever um livro, só não sabe quando terá disposição e ideias para tanto. Certo dia ele é enviado para uma conferência em Nova York mesmo não tendo um pingo de vontade de comparecer ao evento. Sem escapatória, ele viaja e decide passar alguns dias em seu apartamento na cidade o qual não visitava há anos. Para seu espanto, quando abre a porta descobre que o local tem novos donos, um casal de imigrantes ilegais formado pelo simpático sírio Tarek (Haaz Sleiman) e pela senegalesa Zainab (Danai Gurira), ela bem mais esquentadinha. Eles esclarecem que alugaram o imóvel acreditando que negociaram com o proprietário em pessoa e nem desconfiavam que tinham caído em um golpe, mas felizmente Vale tem bom coração (talvez nem ele soubesse disso) e permite que o casal divida o apartamento com ele até que encontrem um novo lugar para ficarem e da convivência forçada surge uma inesperada amizade. O rapaz é músico e começa a ensinar os segredos da percussão ao professor através de um instrumento africano, este que já demonstrava interesse no assunto dedicando-se a frustradas aulas de piano como forma de preservar as lembranças da esposa que era uma pianista de mão cheia.

A música acaba aproximando estes dois homens, e tal amizade por tabela quebra o gelo com Zainab, mas para Vale também traz a certeza de que até então estava desperdiçando sua vida. Contudo, o filme do roteirista e diretor Thomas McCarthy, que estreou com pé direito com o drama O Agente da Estação, não se resume a reciclar a temática da troca de experiências que surge do relacionamento entre pessoas aparentemente diferentes, mas com algum detalhe em comum. A trama dá uma virada quando Tarik vai parar atrás das grades injustamente e corre o risco de ser deportado. É nesse momento em que a política norte-americana quanto a imigração é colocada em xeque que entra em cena a personagem Mouna (Hiam Abbass), a mãe do sírio detido que sai de sua cidade no interior dos EUA com o único objetivo de ajudar o filho e impedir que ele perca o pouco que conquistou no tempo que está na terra do tio Sam. Quando ela chega, Vale já está em pleno processo de transformação de sua personalidade graças a amizade com Tarik, o que facilita o contato com sua mãe e o leva a apoiá-la em sua guerra por justiça e direitos. É graças ao apoio do professor que ela conseguirá reunir forças para aguentar o desespero de não saber o que está acontecendo com seu filho, afinal sabemos que os ianques não costumam ser muito amigáveis com árabes e africanos historicamente, que dirá em tempos de paranoia pós-ataques terroristas. A atenção com a entrada e saída de estrangeiros foi redobrada e tornaram-se comuns casos em que a precaução ganhou contornos de preconceito, mas o longa procura fugir de situações clichês e enfia o dedo na ferida com cautela para não descambar para o melodrama barato, o que seria extremamente fácil. A obra na verdade se encaixaria na lista de produções em que o roteiro pode não ser arrebatador, mesmo tendo potencial para tanto, mas a trama tende a crescer com a força das interpretações. Apesar do semblante melancólico inicial, não é exagero dizer que Jenkins é a alma do negócio. Ele é aquele tipo de ator que você sabe que já o viu em algum filme, mas não lembra em qual e tampouco seu nome. Na mesma época deste trabalho, ele era um dos talentos que inflava o elenco da comédia Queime Depois de Ler, porém, ficou mais conhecido pelo papel do patriarca da família que protagonizava a série de TV “A Sete Palmos”. Na pele de Vale, ele consegue entregar uma interpretação que não raramente torna-se mais importante que as situações desenvolvidas pelo roteiro, o que justifica sua indicação ao Oscar, a única do filme, mas o bastante para representá-lo entre os ditos melhores do ano de 2008.

À primeira vista a atuação de Jenkins pode parecer comum por não ter nenhum grande momento explícito (ataque de fúria, de choro, enfim, aquelas cenas que o Oscar adora destacar quando anuncia os atores indicados), mas na verdade seu trabalho é de grande valor. A construção de Vale é feita de um conjunto de elementos e situações que compõem uma personalidade discreta, porém, marcante, tanto que o filme foi lançado nos EUA meses antes da temporada de premiações, mas ainda assim os críticos não esqueceram tal interpretação. Desde sua primeira aparição na tela, quando é desencorajado a continuar aprendendo piano por não ter intimidade com o instrumento, percebemos a introspecção do professor, mas ele não muda da água para o vinho. McCarthy procura respeitar ao máximo a cadência de emoções, assim até a amizade do protagonista com Tarek e Zainab transmite a sensação de algo mais reservado, afinal de contas para os “intrusos” já calejados a proximidade com um americano é sempre motivo para manter um pé atrás. No entanto, Vale se entrega a essa amizade por inteiro ao resgatar o prazer de ter uma companhia para compartilhar alegrias e angustias, o que justifica seu empenho para libertar o amigo e conseguir seu visto de permanência no país. É muito interessante o efeito que o diretor consegue nos primeiros momentos de contato entre o americano e o sírio, respectivamente o contraste da inércia de um e o positivismo do outro, mas é claro que honrando o seu estilo independente de ser O Visitante é pontuado por momentos de silêncio que evocam a reflexão. Assunto para pensar não falta. A questão da imigração ilegal, a burocracia desgastante, a paranoia quanto a presença de terroristas e mais uma vez está em pauta a degradação do duvidoso “sonho americano”, utopia que ainda faz a cabeça de muita gente. O elenco coadjuvante, no caso os estrangeiros da trama, consegue performances sinceras e emotivas que nos fazem crer no inocente pensamento que o tal sonho em terras ianques pode ser uma realidade. E não podia ser diferente. McCarthy, também ator, sabe o quanto é necessário manter os intérpretes motivados e para tanto tinha um bom roteiro em mãos, uma história sobre pessoas deslocadas tal qual fez na sua citada estreia na qual narrou a chegada de um anão a uma cidade onde automaticamente despertou atenções. Neste caso, os deslocados não são apenas Tarek e Zainab, mas o próprio Vale que tardiamente buscou reencontrar seu lugar em mundo do qual se autoexilou. Dessa forma, ele tornou-se visitante do universo de seus “inquilinos”, mesmo dividindo seu apartamento que teoricamente é uma extensão de seu estilo de vida. Um pouco de cor, ou melhor, de música, não faz mal a ninguém não é mesmo? 

Drama - 103 min - 2007

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