segunda-feira, 16 de abril de 2018

SERÁ QUE ELE É?

NOTA 8,5

Sem deixar a diversão de lado, longa
aborda o homossexualismo de forma
respeitosa através de um boato que põe
em xeque a masculinidade de um homem
A ideia para um roteiro pode surgir de onde menos se espera. Uma palavra ou imagem, algum acontecimento ou notícia, enfim, basta um olhar atento e criatividade e uma boa história pode surgir. Quando recebeu o Oscar por sua atuação em Filadélfia, Tom Hanks fez questão de agradecer em frente as câmeras à Rawley Farnsworth, um antigo professor de artes dramáticas assumidamente homossexual e que de certa forma o inspirou para sua laureada interpretação. O homenageado havia permitido a citação de seu nome, assim a declaração não causou mal estar a ninguém, contudo, assistindo a este momento o produtor Scott Rudin e o roteirista Paul Rudnick, de A Família Addams 2, logo imaginaram o contrário da situação. E se o agradecimento acabasse expondo ao ridículo a imagem de um homem idôneo e convicto heterossexual? Assim surgiu Será Que Ele É?, uma deliciosa comédia e pela primeira vez um sucesso de bilheteria que aborda o homossexualismo de maneira divertida, mas sem apelar para piadas de difamação ou retratando os gays como promíscuos condenados a morte por doenças venéreas. Cameron Drake (Matt Dillon) é um jovem ator que vence o maior prêmio do cinema interpretando um militar gay que assume o relacionamento com um colega de combate, diga-se de passagem, a brincadeira de colocar uma longa sequência destacando a sua atuação "arrebatadora" (na verdade puro pastiche) é uma alfinetada aos votantes do prêmio que adoram premiar atuações que levantam bandeiras. Ao subir ao palco para agradecer, ele menciona ao vivo que sua inspiração veio de Howard Brackett (Kevin Kline), um antigo professor que não se intimidou em sair do armário. O problema é que o próprio mestre não sabia desta sua opção sexual. Isso mesmo! Após tal declaração, sua pacata rotina muda completamente com todos, inclusive ele mesmo, questionando sua sexualidade. Prestes a se casar com Emily Montgomery (Joan Cusack), após um noivado arrastado por anos, ela prefere acreditar que tudo não passa de um mal entendido, mas como não duvidar da masculinidade de um homem que vira e mexe demonstra trejeitos afeminados, vai para o trabalho alegremente pedalando sua bicicleta usando sapatos mocassim, cultiva um visual impecável e roupas engomadinhas e, o fator principal, é um fã confesso de Barbra Streisand... Suspeito. Muito suspeito.

A declaração de Drake tem um efeito devastador e imediato na vida de Brackett. Seus alunos, que até então idolatravam o professor culto, bem-humorado, educado e atlético, passam a olhá-lo com um misto de desconfiança e medo. Os garotos, por exemplo, se apressam a trocar de roupa ou se cobrirem com toalhas quando ele entra no vestiário e o diretor do colégio Tom Halliwell (Bob Newhartt) considera a possibilidade de demiti-lo por puro preconceito. A própria noiva esperançosa pouco a pouco sente minarem as possibilidades de subir ao altar com um homem com quem nunca teve um contato, digamos, mais íntimo. Até Berniece (Debbie Reynolds) e Frank (Wilford Brimley), os pais do suposto gay, cobram explicações sobre tal revelação tão bombástica, mas ele nega enfaticamente que seja homossexual, mas quanto mais tenta abafar o boato, pior fica a situação. Se o que está ruim pode ficar pior, Brackett passa a sofrer o assédio constante da imprensa, principalmente do insistente repórter Peter Malloy (Tom Selleck - propositalmente livre de seus famoso bigodes para ficar mais charmoso), coincidência ou não um homossexual assumido e que tenta a todo custo fazer o professor cair na real: não adianta disfarçar, ele é do babado! Por maioria de votos, o professor chega a um momento que nem ele próprio tem certeza de sua masculinidade e resolve tirar a prova protagonizando uma divertidíssima e icônica sequência. Com o auxílio de uma fita K7 (alguém tem saudades de rebobinar?) com a locução de um texto por uma voz masculina um tanto efusiva, um brinde que veio com um livro a respeito de masculinidade, ele quer provar que sabe ser grosseiro e sem frescuras como todo homem deve ser. A grande sacada da cena é que o narrador parece estar presente acompanhando cada movimento do pupilo, debochando descaradamente de seus trejeitos e comportamento. Apesar de ser uma gravação, os dois começam a travar um divertidíssimo diálogo certamente inspirado por situações de cartoons (você já deve ter visto algo do tipo nos desenhos do Pica-Pau). A ideia era enfatizar que macho de verdade é aquele tipo troglodita, que segura os colhões com orgulho onde quer que esteja, mas o treinamento joga sujo ao colocar como prova principal o teste do esforço para evitar o rebolado ao som da música "I Will Survive" que se tornou um hino dos gays. Brackett tenta resistir o quanto pode, mas acaba soltando a franga e ouvindo do treinador o que não queria: machão de verdade não dança, ponto final.

Esta comédia de Frank Oz, de Os Safados e Mulheres Perfeitas, arranca gargalhadas desde o início graças a forma divertida e respeitosa que trata a temática. O protagonista inicialmente seria vivido por Steve Martin com quem o diretor já tinha certa afinidade, aliás, em algumas sequências é quase possível imaginar o ator em cena graças a uma leve sensação de dèja vu de alguns de seus trabalhos. No entanto, o comediante recusou o papel afirmando não estar preparado para algo tão expositivo e assim perdeu a chance de dar uma bela guinada em sua carreira que na época já andava empacada.Todavia, Kline dá conta do recado direitinho. As sutilezas de seu personagem são perfeitamente transmitidas em gestos comedidos e alinhados ao conteúdo e quando preciso injetar maior empenho físico, como na citada cena do treinamento para machos, ele dá um verdadeiro show de talento e desprendimento. O ator, que emprestou à Dillon sua estatueta do Oscar que conquistou como coadjuvante por Um Peixe Chamado Wanda para a filmagem da cena-estopim do enredo, tira total proveito de situações absolutamente hilariantes da trama que inteligentemente brinca com as várias possibilidades do tema. Assim, é impossível segurar o riso nos momentos em que Brackett tenta se comportar como um homem viril, mas para sua própria frustração desmunheca literalmente. O roteiro só derrapa ao se repetir em piadas quanto a predileção do professor por Streisand. Chega uma hora que perdem a graça. De qualquer forma, Kline só não chama totalmente os holofotes para si por conta da brilhante participação de Cusack que rouba a cena toda vez que aparece, tanto que passa a ter uma participação cada vez maior a medida que o enredo é desenvolvido, protagonizando uma das cenas mais impagáveis ao tentar desesperadamente arranjar um heterossexual convicto para salvá-la da humilhação de ser abandonada minutos antes do casamento. Outra sequência emblemática é quando Brackett e Malloy se beijam em meio a um diálogo que demonstra toda a complexidade que envolve o perfil do professor. Ele não se assume gay por de fato não ser ou prefere a angústia de viver no armário só para não ferir convenções da sociedade? Justamente quando troca as risadas por uma argumentação pretensiosamente séria é que Será Que Ele É? perde o rebolado culminando em um final ostentando uma previsível lição de moral e de solidariedade, mas sem dispensar uma festinha ao som de "Macho Man", mais um hit do universo arco-íris.

Comédia - 90 min - 1997

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Um comentário:

CONDE disse...

Bela síntese de um filme agradável que nunca resvala no fútil e fácil, permanecendo agradável até hoje.

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