quinta-feira, 15 de maio de 2014

MALDITA SORTE

NOTA 3,0

Abusando de cenas apelativas
e sem graça, comédia 
desperdiça
boa premissa e nem o casal
principal desperta interesse
Quando um filme é lançado em DVD, no verso existe um pequeno quadrado com um numeral e algumas palavras escritas com letras bem pequenas. Esse é o informativo quanto a classificação indicativa relacionando os motivos das inadequações do filme para determinada faixa etária. O mesmo esquema serve para orientar os cinemas que devem barrar clientes menores de idade que estejam desacompanhados para assistir filmes proibidos para sua condição. Na teoria tudo é bem esquematizado, mas na prática é uma grande bobagem que só chega a ser aplicada quando o filme é indicado a maiores de 18 anos. A classificação existe em todo o mundo, sendo que cada país adota seus parâmetros individuais para aplicá-las, mas o mesmo deveria ser feito fiscalizando os próprios bastidores dos filmes. Quer coisa mais constrangedora que uma produção com temática adulta contar com elenco mirim? É logo na introdução que Maldita Sorte mostra a que veio e faz o espectador mais consciente perder o interesse rapidamente. A trama redigida por Josh Stolberg começa em 1985 mostrando uma típica e caseira reunião de pré-adolescentes aparentemente inocentes, no entanto, o passatempo deles é uma brincadeira “educativa” com uma garrafa que é girada de forma que um dos lados aponte para um garoto e o outro seja direcionado a uma menina. Os felizardos dos “sete minutos no paraíso” devem passar esse tempo trancados em um armário onde tudo pode acontecer. Por mais que os diálogos tentem nos fazer crer que os personagens mal sabem o que estão fazendo (me engana que eu gosto!) a cena poderia ter o mesmo efeito se realizada com mais cautela. Bastava mostrar que quis o destino que um dos garotos fosse contemplado a se juntar com a esquisitinha da turma, porém, periguete. O visual gótico da menina já deixaria implícita a repulsa do contemplado que ainda enfatizaria sua reação com uma careta e em resposta ela lançaria a maldição de que toda a mulher com quem ele se relacionasse amorosamente iria logo em seguida abandoná-lo e casar com o próximo homem com quem ficasse. Simples assim, mas tiveram o mal gosto de praticamente colocar a garota implorando para ser estuprada ou fazer o mesmo com o virgenzinho. Tal sequência não coloca os atores jovens ligados diretamente com o que vem a seguir, mas qual criança que teve a chance de atuar no cinema não ia querer ver o resultado? Melhor que seus pais tenham as proibido. O restante da história tem um ou outro momento divertido e sem apelações, porém, o conjunto faz o filme de estreia do diretor Mark Helfrich parecer um pornô-soft-picante.

Anos mais tarde, o dentista Charlie “Chuck” Logan (Dane Cook), o rapazinho amaldiçoado, tem uma vida sexual extremamente ativa e não lhe faltam parceiras, assim o episódio da adolescência não o traumatizou. Elas fazem tudo que há de mais devasso para ouvirem um “eu te amo” do cafajeste, mas ele não consegue falar de sentimentos com nenhuma delas. Talvez justamente por usá-las apenas como objeto de prazer é que ele nunca se deu conta da coincidência de que suas ficantes rapidamente se casavam após o encontro. Sua ficha só cai quando vai ao casamento de uma delas e que faz questão de agradecê-lo em público, pois graças ao seu pé na bunda ela encontrou o amor verdadeiro nos braços de outro. Na festa ele conhece Cam Wexler (Jessica Alba), uma bela e cativante jovem, mas extremamente atrapalhada, tanto que em cinco minutos de conversa ela quase detona a “ferramenta de trabalho” do rapaz com bebida quente. Contudo, ela não parece assanhada como as outras convidadas solteiras, estas que a partir de então passam a frequentar assiduamente o consultório dele em busca de seus trabalhos milagrosos... na cama! Embora estranhe inicialmente, o galã do motorzinho (em duplo sentido mesmo!) passa a se divertir com a fama de amuleto do amor e transa com tudo quanto é tipo de mulher. Loiras, morenas, negras, gostosas, esqueléticas, obesas, lindas, feias, não importa. Ele traça o que aparecer, afinal o lance é curtir o momento e depois dispensar sem peso na consciência, todavia, chega um momento que ele cansa dessa vida de gigolô e decide investir na paquera à Cam que parece a única solteira que não está desesperada pelo dom do rapaz. Depois de alguns encontros românticos e atrapalhados, finalmente a moça decide ir para a cama com ele, mas eis que seu amigo de infância Stu Kaminsky (Dan Floger) lhe telefona para dizer que há evidências que realmente sua praga traz o homem ideal para as mulheres mais rápido que mandinga de cartomante. Se ele dormir com Cam ele poderá perder a única mulher que amou de verdade para sempre. Agora ele precisa tentar quebrar sua maldição para enfim viver uma vida normal e sossegar o facho. A solução óbvia seria procurar a ninfeta assanhada do passado e pedir para ela desfazer seu mal olhado, mas até o bobalhão ter essa ideia vai sofrer muito, até fazer o sacrifício de ir para a cama com uma grotesca solteirona, o que o obriga a tomar banho esfregando violentamente desinfetante bucal. Aliás, tal gancho é sem propósito afinal para que mais uma prova de seu feitiço? Somente para inserir cenas bizarras e que forçam para gargalharmos, no fundo, do preconceito. Quem é menos favorecido em termos de beleza necessariamente merece o repúdio e ser um catalisador das piores características de um ser humano?

A essência deste roteiro teoricamente não é das piores e até garantiria uma comédia romântica tradicional sendo até perdoada a citada introdução levando-se em consideração que as crianças estão amadurecendo cada vez mais precocemente, no entanto, a vulgaridade que permeia toda a narrativa é seu calcanhar de Aquiles. Para contornar as limitações do enredo, Helfrich tira leite de pedra na busca desesperada por situações engraçadas, assim Biel tem seu papel reduzido a uma aspirante a palhaça metendo os pés pelas mãos tantas vezes que até perdemos as contas de suas escorregadelas que acontecem com tempo recorde de descanso entre uma e outra. Para não desperdiça-la totalmente, a moça é inserida literalmente dentro de um aquário de pinguins. Cuidadora desses bichos bonitinhos, é nesse cenário que acontecem as piadas mais inocentes do longa, além de ser uma tentativa do roteirista aliar seu trabalho ao período do lançamento do filme. Na época os pinguins estavam na moda em animações que conquistavam também o público adulto. Já as comédias com apelo sexual encontravam-se em pleno declínio e Maldita Sorte não alterou em nada o quadro. Talvez até o piorou. Apesar de algumas piadas visuais e nada originais, como trombadas e escorregões, o filme procura mesmo se alicerçar sobre piadas sexuais e bem explícitas que não funcionam, pelo contrário, constrangem e irritam. Em determinado momento o filme apresenta uma longa sequência mostrando o quanto o protagonista foi requisitado pelas solteironas de plantão, chegando a tela ser dividida em vários pedaços para mostrar as diversas posições de atuação do rapaz com cada uma delas em closes generosos de nudez, algo totalmente desnecessário, mas certamente alguns adolescentes do sexo masculino devem guardar isso em suas mentes com riqueza de detalhes. Pior ainda, devem idolatrar Chuck e o acharem “o cara”, um modelo de homem bem sucedido. Cruzes! Bem, a adoração não chega tanto, até porque o longa não foi sucesso e isso já deveria ser esperado por seus produtores. Confundiram ousadia com devassidão. É diferente quando o sexo é utilizado em dramas de forma a retratar uma patologia ou um problema educacional do ser humano. Nesta comédia ele simplesmente é utilizado sem pudor ou rigor de qualquer espécie, atingindo seus piores momentos quando Kaminsky está em cena, um cirurgião plástico tarado e obviamente especialista em cirurgias de aumento de seios. Só mesmo piranhas para aceitarem ser operadas por esse maluco que só pensa naquilo. Em suma, é uma pena que um argumento bacana tenha sido jogado fora e manchado o currículo de Helfrich logo em seu debout como diretor. Especializado na montagem de filmes, realmente a edição parece ser a única coisa correta neste caso... Ah, não! A vexatória cena mosaico de Chuck mostrando suas habilidades na cama, no banheiro, na cozinha ou até mesmo em seu consultório faz o filme perder pontos até neste quesito.  

Comédia - 101 min - 2007 - Dê sua opinião abaixo.

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