segunda-feira, 24 de outubro de 2016

UM SUBURBANO SORTUDO

NOTA 4,0

Seguindo a fórmula de humor
rasteiro das comédias populares
nacionais, longa claramente é feito
para exaltar seu ator principal
Quem disse que dinheiro não compra a felicidade? Em tempos de crise os brasileiros (quiçá a população mundial) estão colocando em xeque tal máxima, só assim para justificar o alto número de filmes lançados que giram em torno do mesmo argumento, principalmente no campo das comédias. Bilhetes premiados, caixa dois de empresas, golpes de sorte, heranças caídas do céu.... Parece que o público gosta de ver populares se dando bem financeiramente, seja de forma merecida ou até mesmo por trambiques, mas já diz o ditado quem nunca comeu melado quando come se lambuza e o que fazer quando o doce está acabando? É mais ou menos essa a ideia principal de Um Suburbano Sortudo acrescida de mensagens edificantes do tipo seja sempre você mesmo e quem tem amigos tem um tesouro. Apesar do discurso batido, curiosamente a produção gera simpatia apoiada no carisma do protagonista Denílson (Rodrigo Sant’Anna), um jovem camelô metido a malandro (no bom sentido) que sustenta seus tios e primos que o acolheram desde seu nascimento e ainda ajuda como pode um suposto filho. Sua vida sofrida e sem graça muda completamente quando descobre ser herdeiro de Damião (Stepan Nercessian), o milionário dono de uma rede de lojas de eletrodomésticos e artigos para o lar que acabara de falecer. Na leitura do testamento, ou melhor, na apresentação de um vídeo-revelação um tanto cafona, os demais beneficiários ficam sabendo da existência do bastardo que orgulhoso como só ele renega a herança em um primeiro momento, mas não tarda a se mudar de mala e cuia para a mansão do pai que nunca conheceu. As ex-mulheres do falecido, Narcisa (Claudia Alencar), a amante declarada, e Gogóia (Guida Vianna), a esposa oficial, vão armar todas as armadilhas possíveis para passarem a perna no ingênuo suburbano com a ajuda de Luiz Otávio (Victor Leal), o primogênito de Damião que ocupa a cadeira de presidente de sua empresa. Já sua meia-irmã Sofie (Carol Castro) herdou o sangue bom do pai e se recusa a participar do conchavo, tornando-se o inerente interesse romântico do novo milionário do pedaço. Detalhe, na primeira, na segunda, na terceira vez que Denílson a vê um pagodinho safado e fora de moda começa a tocar enfatizando o caminhar sinuoso e em câmera lenta da moça combinando com suas expressões faciais de desejo sexual. Obviamente tudo delírio do rapaz.

Seguindo a fórmula da maioria das comédias nacionais em que tudo se encaixa perfeitamente e o final feliz se anuncia ainda durante a extensa exibição inicial de créditos das empresas e organizações que patrocinam produções do tipo, Sofie rapidamente se apaixona pelo irmão bastardo. Denílson não é exatamente um homem cuja estética ou comportamento ajudariam a conquistar uma mulher, todavia, talvez ele seja a única pessoa de bom coração e de caráter que a moça deve ter conhecido até então visto o ninho de cobras em que foi criada. E como fica a situação de serem filhos de um mesmo pai? Abordar o incesto seria complexo demais para um filme cujo momento mais romântico dos protagonistas é um diálogo execrável sobre o apreço que compartilham por arrotos e flatulências. É isso mesmo! Parece piada, aliás, as intenções eram que passagens do tipo realmente fossem engraçadas, mas o sorriso amarelo impera do início ao fim com raros momentos de humor genuíno. Muitos não entendem, por exemplo, o porquê de Damião gravar seu testamento vestido como o apresentador Chacrinha. Não é só porque Narcisa era uma ex-chacrete ou pelo fato do empresário adorar o velho guerreiro. Tal qual os antigos filmes dos Trapalhões e de Xuxa, as comédias nacionais continuam a pegar carona no que está na moda no momento da produção e Nercessian bombava no teatro interpretando o esfuziante animador. Porém, fica óbvio que a produção não tem outra razão de existir senão servir como um plus para a carreira de Sant’Anna, uma extensão do seu trabalho já consagrado na TV em programas como “Zorra Total”. Especialista em criar tipos populares com trejeitos para estimular o riso instantâneo e bordões para cair na boca do povão (o “JJ geral junto” vai grudar nos seus ouvidos), o ator se inspirou no americano Eddie Murphy e tal qual em O Professor Aloprado se desdobra para interpretar vários personagens. Logo no início surge como a mãe de Denílson, a empregada que não se fez de rogada quanto as investidas sexuais do patrão Damião. A cena é bem rápida, mas já deixa claro o que vem por aí. Não bastam os diálogos serem repletos de duplo sentido. O diretor Roberto Santucci (dividindo tal crédito com Marcelo Antunez por conta de algumas cenas) faz questão de explicitar e reiterar as piadas com conteúdo sexual e assim por vezes acaba quebrando o espírito família que o longa poderia carregar. Sant’Anna afirmou que o protagonista nasceu de suas próprias experiências de vida em um subúrbio carioca, mas o universo do personagem só reforça o antiquado pensamento de que quem vive na periferia tem que ser marrento, mal-educado, amante de funk e libidinoso. Querendo se aproximar dos populares, o ator ainda derrapa feio com suas falas cheias de invenções de última hora e carregadas de gírias. A voz anasalada e o ritmo apressado com que tagarela por vezes tornam seus diálogos inteligíveis.

Voltando a falar em família, a parentada de Denílson, todos interpretados por Sant’Anna, é para lá de estereotipada, garantindo o momento mais nonsense da fita. O jantar para apresentar Sofie deixa até o desbocado ex-camelô constrangido. A tia é do tipo espontânea e não tem papas na língua, ao contrário do tio idoso que grunhe e parece estar fora de órbita quando na verdade é um safado de plantão. O primo de língua levemente presa demonstra certa timidez, mas almeja o sucesso como vocalista de uma banda de pagode enquanto sua irmã é uma piriguete viciada em academia e hormônios que ao invés de lhe deixarem gostosa estão a masculinizando. A sensação é que acompanhamos a reunião de um clã similar ao do clássico seriado “A Família Monstro” no qual Sofie faz as vezes da estranha no ninho, mas a inspiração certamente veio do citado filme de Murphy. Roteirizado pelo próprio Sant’Anna em parceria com L. G. Bayão e Paulo Cursino, este último parceiro de Santucci na realização da trilogia Até que a Sorte nos Separe, não se pode negar a boa vontade de tentar ir além do humor esculachado. A história de Damião é semelhante ao histórico real de pessoas de origem humilde que construíram verdadeiros impérios comerciais focando suas atenções nas classes menos privilegiadas, porém, seus herdeiros dão pouco valor ao que recebem de mão beijada e por falta de traquejo ou pura ganância acabam destruindo o patrimônio em pouco tempo. Denílson não criou laços afetivos com seu pai, mas tem sensibilidade para compreender que herdou um sonho e o que significa dar continuidade a ele. Com Otávio no comando da empresa toda a herança fica comprometida. Preferindo manter mercadoria encalhada nos estoques a ver cartazes promocionais adornando suas lojas, o ganancioso empresário quer mesmo é abrir falência para prejudicar Denílson que acorda para a realidade a tempo de honrar a memória do pai. Na hora de falar sério Sant’Anna titubeia um pouco e os próprios roteiristas evitam se estender no gancho de apelo dramático, uma pena. Não é a toa que a simplória solução para a crise das lojas venha da boca de um travesti com uma única fala cheia de malícia. Preconceito? Sim, Um Suburbano Sortudo não se envergonha em reforçar estereótipos como a pobretona que ganha a vida como prostituta ou os ricos de fachada que mantém a pose pisoteando os outros. O ponto alto fica por conta da inserção do cineasta Olavinho Salles (Fábio Rabin), vencedor de um festival europeu com um filme sobre dois homossexuais que trabalham em um lixão e se apaixonam. Não perdem a chance de tirar um sarro do público amante de cinema alternativo e exaltar a ignorância do povão consumidor dos piratex.

Nacional - 110 min - 2015

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