sexta-feira, 16 de maio de 2014

MORTO EM 03 DIAS

NOTA 7,0

Produção austríaca investe
no terror adolescente, mas
surpreende com uma bem-vinda
reviravolta e narrativa envolvente
Os filmes de horror teen bombaram nos anos 80 com os vilões das séries Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo, ambos que surgiram na esteira do sucesso Halloween. Também começaram a surgir fitas similares e medonhas para abastecer o comércio do home vídeo e o resultado foi a saturação do subgênero. Em 1996, Pânico resgatou a fórmula do serial killer que caça jovens, geralmente bem apessoados e populares, mas mais uma vez filmes semelhantes foram surgindo aos montes e a receita desandou tornando-se cada mais previsível. E o pior: os assassinos passaram a agir por motivos idiotas e suas vítimas adolescentes mais babacas e salientes que de costume, o que acaba levando o público a vibrar com suas merecidas mortes. É uma pena que algumas boas produções cujas premissas sejam semelhantes acabam sendo desprezadas pagando pelo erro de suas antecessoras como é o caso de Morto em 03 Dias, que só pelo fato de ser uma fita de terror austríaca já merecia algum crédito por conta da curiosidade. Conhecemos a cartilha dos filmes de horror americanos de trás para frente e até da filmografia oriental do gênero, mas o estilo europeu de fazer esse tipo de cinema ainda não tem um modelo definido. Com direção de Andreas Prochaska, que também assina o roteiro com Thomas Baum, a obra começa apontando caminhos previsíveis, ou melhor, quase isso. Durante os créditos iniciais, vemos um homem se enforcando e em seguida uma jovem ferida pedindo ajuda em meio a um matagal. Desconexo? Está claro que a intenção é deixar o espectador ligado, colocá-lo para caçar pistas que possam ser vinculadas com as primeiras imagens, mas a trama começa mesmo recapitulando fatos de quatro dias antes quando um grupo de jovens está entretido com as apresentações de trabalhos de conclusão de curso da universidade. Em breves diálogos, já vamos definindo a personalidade de cada um dos personagens que nos próximos minutos serão vítimas de mortes violentas, quem sobreviverá é a incógnita. Bem, sabemos que a destemida e justa protagonista Nina (Sabrina Reiter) vai sofrer o pão que o Diabo amassou, mas sua sobrevivência está garantida, afinal sua morte seria uma ousadia muito grande. Botamos fé na renovação do subgênero dos slashers, mas...

Nina e os amigos saem para comemorar o fim das aulas e embebedados acabam atropelando um viadinho (o animal, fique claro) em uma estrada deserta. Martin (Laurence Rupp), o namorado da moça, não quer que seja pedido socorro, pois está sem documentos para a direção e não quer envolvimento da polícia, assim decide ele próprio sacrificar o bicho e jogá-lo no meio do mato. Sabendo o estilo da produção, é natural imaginarmos que a trama siga os rumos de Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado. Alguém pirado viu o que aconteceu e resolveu dar uma lição no grupo. As suspeitas ganham força quando Nina recebe uma mensagem no celular dizendo que ela morrerá dentro de três dias. O que aprecia uma brincadeira acaba ganhando contornos mais sérios na mesma noite quando eles se reencontram em uma balada e é aí que o pânico toma conta. Martin vai ao banheiro, desaparece e a namorada só encontra o celular dele com a mesma mensagem misteriosa. Logo, todos que estavam com ela no episódio do atropelamento revelam ter recebido a mesma coisa. Eles vão até a polícia, mas as evidências não são levadas em conta sendo possível um boletim de ocorrência para verificação somente após 24 horas completas do sumiço. O investigador Ebensee Kogler (Andreas Kiendl) acredita que o rapaz possa ter saído com alguém ou ter adormecido em algum canto por ter bebido demais. Contudo, enquanto isso, Martin está sofrendo nas mãos de um cruel assassino que, depois de feri-lo gravemente, o amarra a um bloco de concreto e o joga em um lago ainda com vida para que possa agonizar aos poucos, assim concretizando de forma antecipada a ameaça que o jovem recebeu. Graças a uma intuição, Nina e os amigos conseguem encontrar o corpo do garoto e as suspeitas recaem sobre Patrick (Julian Sharp), um colega de classe que está sempre de cara fechada e cujo comportamento é estranho. Martin e ele já vinham se estranhando a algum tempo e chegaram a discutir durante a festa em que aconteceu o desaparecimento. No entanto, é justamente Patrick quem salva Nina com sua própria vida quando ela estava prestes a se tornar uma nova vítima. Opa! Ponto para o filme. O principal suspeito é limado tendo ainda bastante tempo de investigação pela frente, o que injeta ânimo para quem estava desacreditado no longa.

Só quando Nina é atacada que o policial Kogler realmente se interessa pelo caso, mas isso não impede que uma nova morte ocorra, porém, existe uma bem-vinda virada do roteiro. Com algumas informações sobre o visual do assassino, o investigador quer tentar descobrir algum fato do passado que possa ter ligação com Nina, Martin e os outros integrantes do grupo que foram ameaçados, Clemens (Michael Steinocher), Mona (Julia Rosa Stockel) e Alex (Nadja Vogel). Amigos desde a infância, é justamente resgatando lembranças desse período que surgem possíveis respostas para o problema do presente e assim Prochaska consegue dar o pulo do gato envolvendo o espectador praticamente em outro roteiro, diga-se de passagem, muito interessante e coerente, um caminho que certamente ninguém imaginava guiando-se pelo que foi apresentado até pouco mais da metade. Não seria exagero dizer que o longa é capaz de enterrar muito filme hollywoodiano do gênero e nos perguntamos o porquê dele não ter passado em nossos cinemas, já que até o nível de interpretações é acima da média pela preocupação do diretor em contar uma história dignamente e não apenas um show de carnificina. Aliás, para quem curte ver sangue e vísceras esta opção não deve agradar, pois são poucas as cenas de morte sendo a mais marcante e criativa a de uma jovem tendo a cabeça decepada com a ajuda do vidro cheio de rebarbas de um aquário velho. Com visual que felizmente evita a escuridão total, mas não dispensa a exploração dos detalhes dos cenários para dar ideia de que o perigo pode estar em qualquer parte, Morto em 03 dias obviamente tem suas falhas, mas no conjunto o saldo é positivo graças às pequenas mudanças propostas para um combalido subgênero. É como se fossem dois filmes compilados, mas unidos com perfeição. Pensamos que a produção vai ser de um jeito e no meio do caminho as coisas mudam completamente a partir do momento que os jovens sobreviventes não querem mais fugir do maníaco e sim enfrentar o inimigo, ou quase isso, já que a ideia era colher provas para a polícia incriminá-lo, mas é óbvio que o vilão os pega com a boca na botija caso contrário qual seria a graça? Vale muito a pena conhecer esta obra, tanto para os fãs fervorosos de horror quanto para aqueles que estavam desacreditados que um terror adolescente ainda pudesse causar bons sustos.

Suspense - 98 min - 2006

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