sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A COISA (2011)

NOTA 1,0

Idealizado como um prólogo tardio
de uma ficção de sucesso e vendido
fazendo alusão ao título de outro filme,
fita é apenas desculpa para efeitos visuais
Apesar de sempre serem aguardados com ressalvas por parte do público e crítica, as refilmagens continuam sendo feitas de vento e popa em Hollywood, sendo o gênero de terror o que mais levanta a bandeira das releituras. A Coisa foi lançado em 1985 e rapidamente se tornou um trash movie de sucesso, assim uma segunda versão seria apenas questão de tempo até para tirarem proveito do avanço dos efeitos especiais que poderiam melhorar (ou não) a proposta original que envolvia extraterrestres, poder da mídia e os exageros consumistas dos humanos. Com o mesmo título, simplesmente A Coisa, em 2011 alguns espectadores mais dispersos devem ter tido a sensação de serem enganados. Não se trata de um remake e sim de um erro grosseiro da distribuidora no Brasil que traduziu fielmente o título original, certamente uma estratégia para fazer um filme ruim chamar ao menos a atenção de saudosistas. Não deu certo. A fita passou em brancas nuvens, apesar de ser uma espécie de prelúdio tardio do clássico oitentista O Enigma de Outro Mundo, assinado por John Carpenter, então pela primeira vez tendo um polpudo orçamento em mãos e investindo mais em efeitos especiais e maquiagens, o que lhe rendeu críticas negativas visto que era reconhecido por trucagens artesanais. Os anos passaram e trataram de revelar o valor da obra, uma assustadora e desesperançosa visão do mundo. Seu suposto prólogo tardiamente lançado também usa e abusa dos avanços tecnológicos para a construção de seres bizarros, mas fica a dever em conteúdo que o passar dos anos certamente não irá revelar. A trama se passa dias antes da história do longa de 1982, que por sua vez já era uma refilmagem de O Monstro do Ártico baseado em conto de John W. Campbell Jr. Uma equipe de cientistas liderada pelo Dr. Sander Halvorson (Ulrich Thomsen) trabalha em uma remota região da Antártica e Kate Lloyd (Mary Elizabeth Winstead) é uma paleontóloga que se junta ao grupo para investigar a possível descoberta de uma nave alienígena próxima a uma base norueguesa de pesquisas. Claro que dentro dela existe um estranho ser louquinho para ser descongelado por uma trupe de incautos com quem vai aloprar a vontade. Detalhe: tal criatura tem o poder de entrar dentro de corpos humanos e reproduzir personalidades, assim gerando muitas suspeitas e intrigas entre o pessoal da expedição sobre quem poderia estar infectado. Enquanto a paranoia toma conta de todos, as mortes acontecem em ritmo de maratona.


O argumento é um tanto batido e restrito, porém, o diretor holandês Matthijs van Heijningen Jr, estreando na função, tem a sua disposição uma infinidade de ferramentas de computação gráfica para modelar seus extraterrestres, todos com riquezas de detalhes quanto suas entranhas que são expostas sem pudor algum. Criaturas deformadas de todos os tipos surgem na tela com direito a apêndices estratégicos que facilitam a captura e invasão de corpos, fundindo-se com os seres humanos de maneiras literalmente viscerais, todavia, ainda ficam a dever quanto a criação de um alienígena crível. Pode parecer contraditório, mas ao passo que a tecnologia tem beneficiado as equipes de criação de efeitos visuais, quando o assunto é imaginar um design para seres de outros planetas a queda de qualidade ou estagnação são gritantes. Tudo é muito igual, previsível ou até mesmo equivocado e esta produção não foge à regra parecendo clamar pelo rótulo de filme B, embora certamente boa parte do orçamento deva ter sido destinado aos efeitos especiais. Se no passado Carpenter além do medo do desconhecido também conseguiu criar uma atmosfera que transmitisse a sensação de isolamento com perfeição, Heijningen parece bem mais preocupado em impactar a cada aparição de seus monstros e se esqueceu de orientar as demais equipes. Cenografia, iluminação, fotografia e efeitos sonoros parecem em desarmonia e não criam o clima de tensão necessário. Nem mesmo mantendo quase toda a ação dentro de um ambiente claustrofóbico e praticamente no breu total inspiraram o diretor a criar sequências dignas. O corre-corre e gritaria quase ininterruptos quase nos fazem acreditar que a qualquer momento o brucutu Arnold Schwarzenegger vai surgir munido de uma metralhadora tal qual em O Predador. Como boa heroína, ou melhor, como a boa heroína que gostaria de ser, Winstead se esforça para mostrar sua personagem como alguém equilibrada e capaz de tomar as melhores decisões possíveis quando é preciso desconfiar de todos e lidar com o medo do desconhecido. Todavia, sua falta de empatia com o espectador compromete sua missão, mesmo sendo alçada ao posto de protagonista, vaga que no filme de Carpenter fora ocupada por Kurt Russell no auge de sua canastrice.

Embora possa ser apreciado, se é que podemos usar tal termo neste caso, como um filme independente que não acrescenta nada de novo ao universo da ficção científica, o diretor faz questão de após os créditos finais adicionar os primeiros minutos de O Enigma de Outro Mundo, além de uma sequência conclusiva que faz a ponte entre as produções, uma justificativa desnecessária. O roteirista Eric Heisserer, que também cometeu a heresia de reescrever A Hora do Espanto a favor de uma ridícula campanha de marketing em torno dos efeitos tridimensionais que comprometeram a produção, refaz algumas sequências do clássico de Carpenter, mas tudo sem vida própria. Há uma ou outra boa sacada como, por exemplo, o momento em que todos os pesquisadores são submetidos a um teste para verificar quem poderia estar infectado pelo alien. Se no filme-inspiração a tensão estava em alta quando o sangue de cada um era submetido a uma prova de calor para ver se havia alguma reação (entenda-se ganhar alguma estranha forma física), no prequel os infectados são identificados pela presença ou não de obturações em suas arcadas dentárias, visto que as células alienígenas não poderiam replicar o metal. A ideia faz sentido, porém, como em um exame médico fajuto de escola, a cena não tem impacto algum e segue de maneira bastante mecânica como um procedimento de rotina, embora um único resultado positivo deveria deixar a todos com taquicardia. Em uma avaliação geral e se esforçando em vê-lo como um filme individual, sem pensar em refilmagem, sequência ou prólogo, este A Coisa não tem razão de existir e apenas se serve de clichês, incluindo erros, de outras produções do tipo. Nem mesmo a carnificina e a escatologia oferecida ajudam a dar algum valor à produção, afinal não basta uma ou outra sequência boa simplesmente jogada na narrativa, é necessária a construção de um clima adequado para amarrar e sustenta-las. O roteiro não se dá ao trabalho nem mesmo de guardar algum tipo de reviravolta em seu ato final que é tão frio quanto a gélida ambientação da Antártica que é pouco explorada. Uma pena. A sensação de isolamento e tensão poderiam ser intensificadas caso a ação também transcorresse do lado de fora da tal nave alienígena.... Ah sim, mas Heijningen nem estava ligando para criar um clima, tampouco extrair emoções genuínas de seu apático elenco. Seu negócio era usar e abusar dos efeitos visuais e enojar ao máximo o espectador. Vendo por esse lado ponto para o holandês. Prepare seu estômago!

Terror - 103 min - 2011

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