domingo, 13 de setembro de 2020

O CAMINHO PARA EL DORADO


Nota 5,0 Animação foge do lugar comum com tema atípico, anti-heróis e até uma mocinha sensual

Antes de  abalar as estruturas da Disney com o estrondoso sucesso de Shrek, os estúdios Dreamworks, fundado por Steven Spielberg, já vinha tentando há alguns anos brigar de igual para igual com a casa do Mickey Mouse. Formiguinhaz, seu desenho de estreia, levantou suspeitas de espionagem industrial visto que a concorrente lançou quase que simultaneamente Vida de Inseto. Cerca de dois anos mais tarde uma nova polêmica semelhante surgiu, mas desta vez o provável espião tinha identidade conhecida. Jeffrey Katzenberg ajudou na direção de O Caminho Para El Dorado, mas não fora creditado talvez justamente para evitar brigas na justiça. Após anos na Disney, ele se desligou da empresa para ajudar a fundar o estúdio rival e possivelmente trouxe em seu portfólio uma ideia alheia, ao menos inspirada em uma cultura semelhante a usada em A Nova Onda do Imperador lançado com poucos meses de diferença. Ambas as animações abordam a temática de antigas civilizações latino-americanas, o que não é muito comum para projetos destinados ao público infantil, e coincidentemente nenhuma das duas foi um grande sucesso. A aventura acerca da descoberta de El Dorado de fato tinha alguns entraves para chegar a seu público-alvo, a começar pelo pano de fundo histórico. A colonização latina pelos espanhóis é um tema que costuma passar batido até mesmo pelos livros de História. 

A trama se passa no longínquo início do século 15 e tem como protagonistas os vigaristas, porém, simpáticos e divertidos, Túlio e Miguel que literalmente entram de gaiatos no navio do conquistador espanhol Hernán Cortés após ganharem em uma jogatina um mapa que seria o sonho de muitos. Que ao final dessa viagem eles vão descobrir a cidade perdida de El Dorado todos já sabem, mas o que importa nesta animação é conhecer as aventuras e percalços pelos quais a dupla passou. Fugindo de estereótipos, o longa é desprovido de momentos melosos ou de bichinhos falantes metidos a engraçadinhos. Priorizando a ação, o desenho investe em heróis de caráter duvidoso, piadas maliciosas, uma mocinha sensual e até sugere uma cena de sexo, mas que deve passar despercebida pelas crianças. Na época do lançamento as animações tradicionais já estavam perdendo força para as produções com efeitos tridimensionais e esta aventura moldou-se em um híbrido entre as duas técnicas. Com uma paleta de cores fortes e de tons quentes, todavia, o resultado final esteticamente foi um desenho comum, longe da perfeição obtida por animações feitas com o auxílio das ferramentas de computador. A mistura de técnicas foi utilizada ainda por algum tempo pelo estúdio, assim como a Disney fazia, mas ambas as empresas acabaram abandonando o estilo e enveredando pelo caminho do emprego total de computação gráfica. Entre alguns dos pontos de descontentamento estavam os objetos de ouro, por exemplo, alvo da dupla de trambiqueiros,  que foram todos desenhados em 3D, mas não conseguem se destacar no cenário multicolorido que recria matas da América Central e a arquitetura típica de um antigo e místico povo latino. 

O enredo na verdade não é fiel a fatos históricos e toma certas liberdades como creditar à antiga civilização maia a construção de El Dorado quando na verdade o mito em torno dela faz parte da cultura da América do Sul, mais especificamente da Colômbia e dos chibchas, povo indígena pouco conhecido. Cortés, que conquistou o México, também nunca teria buscado a tal cidade do ouro, sendo Gonzalo Jiménez de Quesada, o conquistador do território colombiano, obsessivo por esta descoberta. O fato é que mesmo com as mudanças o pano de fundo histórico pouco importa às crianças. O que interessa é a diversão e nisso o enredo de Ted Elliott e Terry Rossio capricha com um ritmo acelerado que acompanha o espírito aventureiro e alto astral dos protagonistas. Miguel e Túlio estão longe de serem considerados típicos heróis. O filme todo eles demonstram características controversas que não servem como espelho aos pequenos, mesmo com o final que investe em certa redenção da dupla. Seus perfis lembram um pouco os coadjuvantes dos vilões clássicos Disney que apesar das motivações de quererem se dar bem a todo custo, contudo, conquistam o público com seus jeitos atrapalhados e divertidos. A Dreamworks então ao menos teve o mérito de subverter arquétipos alçando bandidos ao posto de heróis ao passo que Cortés assume a vilania ao ser mostrado como um exterminador de nativos.

A personagem Chel, a trapaceira que consegue ser ainda mais esperta que os vigaristas, também foge dos padrões comuns às mocinhas dos desenhos. Sensual e arrogante, ela em nada lembra as garotas indefesas e sonhadoras, pelo contrário, muito destemida ela também é movida pela ambição de se dar bem na cola de Túlio e Miguel que ao chegarem em uma terra desconhecida contam várias lorotas que fazem com que a população acredite que eles são enviados dos deuses. Assim, eles passam a viver com conforto e a usufruir de luxos, mas tem consciência que a qualquer momento a farsa pode ser descoberta, já que a todo momento são cobrados por atos que tragam benefícios ao povo ou comprovem suas origens divinas, e que ainda estão na mira de Cortés que sabe que eles conseguiram o mapa para a cidade do ouro trapaceando num jogo de dados. Para não dizer que os diretores Bibo Bergeron e Don Paul abriram mão totalmente do estereótipo do animal simpático e amigável, os vigaristas contam com o apoio do esperto cavalo Altivo, que não fala absolutamente nada, mas com suas expressões e atitudes trata de injetar humor mostrando que nem sempre está de acordo com as atitudes dos rapazes, porém, disposto a ajudá-los a não terem revelada a farsa, afinal também é tratado pelos indígenas com regalias por se tratar de um animal desconhecido para eles e um dos motivos que os fizeram acreditar que estavam recebendo a visita de criaturas divinas. 

Também não faltam canções bonitinhas e animadas intercalando a trama compostas por Tim Rice e Elton John, este que também as interpreta originalmente, mesma dupla responsável pelas célebres músicas de O Rei Leão. Misturando elementos mitológicos, fatos históricos e uma trama conduzida por anti-heróis que constroem laços de amizade e solidariedade sem precisarem ficar martelando mensagens edificantes, O Caminho Para El Dorado é uma animação atípica, talvez até mais voltada ao público adolescente e adulto que propriamente ao infantil. O final em aberto também não é bem o que uma criança espera para ter vontade de rever várias vezes, soando neste caso mais como um recado da Dreamworks à concorrente de que ousar é preciso e pelo visto a Disney, em parceria com a Pixar, compreendeu a mensagem. Nos anos seguintes, os dois estúdios acirraram a disputa por público com projetos cada vez mais criativos e desafiadores. Sorte nossa!

Animação - 89 min - 2000

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