domingo, 8 de setembro de 2019

JACK E A MECÂNICA DO CORAÇÃO

Nota 7,5 Usando uma ótima metáfora, animação fala sobre o amor usando elementos excêntricos

Não se engane. Apesar de multicolorido, Jack e a Mecânica do Coração não é uma animação de cunho infantil, mais parecendo um enredo para adultos tingido de cores fortes, principalmente por vermelho. Todavia, o assunto que permeia todo o filme é pertinente à todas as idades: o amor. De origem francesa, a produção pode ser considerada um conto de fadas moderno. Passada na cidade de Edimburgo em meados dos século 19,  a trama nos apresenta ao frágil Jack que nasceu em um dia extremamente frio e de muita nevasca e como consequência seu coração congelou logo que sua mãe lhe deu a luz. Madeleine, sua parteira considerada por muitos uma feiticeira, para salvar sua vida coloca no lugar do órgão petrificado um relógio cuco,  o que implica que durante toda a sua vida o menino terá que seguir certas regras: nunca mexer nos ponteiros, sempre se manter calmo e jamais se apaixonar. Preocupada em manter o mecanismo sempre funcionando em perfeito estado, ela própria assume a criação do garoto, com a aprovação da mãe biológica, e até ele completar dez anos de idade conseguiu mantê-lo sobre constante vigília em casa, mas assim que faz o seu primeiro passeio conhece e se encanta por Miss Acácia, uma jovem e atraente cantora de rua. Jack então por pouco não sofre um colapso graças à sua tutora que o resgata a tempo, mas o susto não o impede de sair de casa novamente, desta vez em fuga motivado pelo desejo de reencontrar a garota por quem se apaixonou. Obviamente, haverá em seu caminho um rival para dificultar as coisas, porém, seu maior desafio é consigo mesmo. Sua vida está em risco, afinal tendo seu amor correspondido ou não uma das regras para sua sobrevivência estaria sendo quebrada. De fato, dói amar e ser amado e o filme constrói uma metáfora quanto a vivência desse sentimento usando a manutenção do coração mecânico. Qualquer desavisado poderia acreditar que se trata de uma produção do diretor Tim Burton devida a estranheza e engenhosidade do argumento, aos personagens excêntricos e ao visual gótico e extravagante, características que também remetem bastante à outra animação, Festa no Céu. 

Baseado no livro "A Mecânica do Coração", de Mathias Malzieu que também assina o roteiro e dividiu a direção com Stéphane Berla,  Jack e a Mecânica do Coração tem um protagonista com uma trajetória bastante triste. Vivendo sua infância quase totalmente imerso na solidão e depois conhecendo a sociedade por suas piores facetas, a descoberta do amor o força a renegar a imagem de um menino fragilizado e a magia dos filmes também o ajudam nesta guinada. Em um encontro inesperado, o famoso Georges Méliès, a quem é creditada a invenção do cinema como uma fábrica de sonhos, entra em cena para mostrar à Jack que, assim como em seu trabalho não há limites para se criar, na vida também é necessário arriscar para ampliar horizontes. Tal gancho proporciona momentos singulares de beleza e magia homenageando à sétima arte assim como o longa exalta também elementos circenses e a literatura. Uma lendária obra do escritor espanhol Miguel de Cervantes inclusive é evocada. Jack pode ser visto como uma espécie de Dom Quixote, o sonhador que busca algo que nem sabe se é de verdade, no caso o amor de Acácia que faz as vezes de Dulcineia. Já Méliès é seu fiel escudeiro, Sancho Pança, aquele que o incentiva a seguir em frente indo de encontro a seu destino. Embora o amor entre homem e mulher seja o foco (inclusive há um ou outro diálogo com certa sexualidade implícita), o desenho aborda tal sentimento por outras vertentes também. A mãe do protagonista entregá-lo para adoção é visto numa primeira interpretação como um ato de rejeição pelo fato de ele não ser um garoto normal, mas também pode ser encarado como um gesto de amor. Ciente das limitações físicas e que não teria condições de cuidá-lo da melhor forma, ela prefere entregar o menino aos cuidados de Madeleine, esta que não poderia ter filhos e agarra a oportunidade com todas as suas forças, até mesmo exagerando na super proteção. Longe de superficial e colocando o espectador a refletir que a felicidade só chega a quem a busca com determinação, é uma pena que a produção não teve o merecido destaque em meio a outras animações que deixam qualquer lição em segundo plano preocupando-se mais em vender brinquedos e guloseimas estampados por seus personagens.

Animação - 94 min - 2015
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