sexta-feira, 30 de março de 2012

COWBOYS E ALIENS

NOTA 3,0

Idéia original desperdiçada
por roteiro confuso poderia
render uma nova franquia
de sucesso, mas decepciona
Hollywood está sempre em busca de alguma novidade para sacudir o mercado, seja um novo viés para um gênero batido ou uma história que possa se tornar uma franquia de sucesso e garantir o sustento de alguns estúdios e produtoras durante alguns anos ou quem sabe até por tempo indeterminado. Melhor ainda quando estas duas possibilidades podem ser reunidas em um único projeto e talvez foi nessa onda que o diretor Jon Fraveau embarcou quando decidiu conduzir Cowboys e Aliens, um longa que no mínimo podemos tachá-lo como criativo e que tem toda a pinta que poderia vir a se tornar uma série cinematográfica marcante. Ficamos com tal impressão até que iniciamos o filme, mas dificilmente não caímos do cavalo quando vemos a realização da idéia. Após o estrondoso sucesso de Homem de Ferro, o diretor procurou inovar e gerar ramificações para o gênero de aventura. Assim, ele teve a idéia de unir passado e futuro em um mesmo longa, uma mistura inusitada de dois gêneros ficcionais totalmente opostos. A ficção faz parte do cinema há muitos anos, mas ainda soa como algo futurista e as pessoas sonham com o dia em que poderão ver de perto naves espaciais e os enigmáticos extraterrestres. Por outro lado, o western marcou o cinema entre as décadas de 1940 e 1960 e hoje em dia é raro surgir um bom filme de homens com hábitos rudimentares, montados em seus cavalos e empunhando suas armas intimando seus inimigos para um duelo onde só um pode sobreviver. A idéia de alienígenas em meio a um cenário de bang-bang é até interessante, mas na prática não funciona. Ao menos neste caso não rolou. Baseada em uma série de quadrinhos homônima que, segundo boatos, nem havia sido lançada quando as filmagens começaram, a narrativa mantém um ritmo irregular e arrastado, ora com momentos cansativos e ora apostando em explosões e efeitos especiais manjados para acordar o espectador. A criatividade da premissa contrasta com os lugares comuns que as situações apresentadas sugerem, além de que o enredo não é lá muito cativante. 
A história é desenvolvida em Absolution, uma pequena cidade do Oeste americano, que recebe a visita de um desmemoriado que acorda ferido em meio ao deserto que nem ao menos lembra seu próprio nome. Ele é Jake Lonergan (Daniel Craig), um temido bandido que possui um estranho bracelete que tem a ver com algo que está para acontecer. Não demora muito após a chegada deste criminoso para que o vilarejo passe a ser alvo de ataques alienígenas, incluindo abduções. Lonergan então mostra sua faceta de herói e decide resgatar as pessoas que foram abduzidas e para isso conta com a ajuda de moradores da região, como a misteriosa Ella (Olivia Wilde) e Woodrow Dolarhyde (Harrison Ford), um rico fazendeiro local que leva a fama de mandão e malvado. Além destes personagens ainda existem um punhado de coadjuvantes, mas o roteiro não dá conta de apresentar cada um deles de forma adequada para se tornarem críveis. Craig talvez seja o único que tenha um papel decente, embora nada memorável. Nem mesmo o veterano Ford escapou dessa. A julgar pelo início, esperava-se um duelo dos bons entre o mocinho e o bandido do conto, digamos assim. Mas o que fazer quando o bonzinho na verdade aparenta ter um passado duvidoso e o homem com cara de poucos amigos demonstra não ser tão mal como todos pensavam?  Tentando inovar quebrando estereótipos, Favreau acabou quebrando a própria cara. Todos reclamam que é preciso inovar, mas em alguns casos seguir as linhas tradicionais e clichês é o mais indicado. Em resumo, Craig e Ford foram sabotados por um roteiro confuso que atira para tudo quanto é lado. Não poderia ser diferente, afinal quando cinco roteiristas trabalham em um mesmo texto e não estão sintonizados é preciso ter um outro autor fora desse grupo para fazer a limpeza do material, ou seja, cortar excessos, fazer reparos e adicionar elementos que julgue necessário para deixar a obra o mais redondinha possível. Parece que neste caso não houve esse cuidado, ainda mais levando em consideração que o longa deveria chegar aos cinemas ainda no verão americano, considerado o período mais rentável do ano neste campo. Correram, correram e tropeçaram feio.
Para não dizer que nada funciona nesta produção, podemos salvar a introdução, digamos os primeiros vinte minutos quando o roteiro explora as características e personagens clássicos do gênero western como forma de captar a atenção do público que pode se divertir tentando reconhecer os elementos que já viram em outros filmes e até mesmo em desenhos animados. Pena que depois o caldo entorne, o surgimento dos efeitos especiais passe a ser a única coisa a gerar certa expectativa e nem mesmo os flashbacks que tentam dar algum sustento ao personagem principal consigam ser inseridos na narrativa de forma eficiente e a agregar algo além do que alguns poucos minutos para encher linguiça.  Se o texto deixa a desejar, ao menos a produção se salva em seus aspectos técnicos. Os figurinos e cenários são perfeitos, os efeitos sonoros são caprichados e a fotografia também acerta com belíssimos takes de paisagens áridas, mas derrapa feio ao mostrar por várias vezes os personagens em angulações que privilegiam a penumbra, mais uma bola fora que contribui para evitar o envolvimento do espectador. Quanto aos efeitos especiais, bem eles não envergonham a produção a ponto dela poder se enquadrar a um típico filme B, mas também estão longe de surpreender. As imagens dos alienígenas são uma reciclagem de tantas outras que já foram mostradas no cinema. De qualquer forma, um filme não se sustenta apenas com sons e imagens de primeira ou inovadores. Cowboys e Aliens poderia ser um clássico das sessões da tarde do futuro se não se levasse a sério demais e assumisse a porção pastiche que a idéia renderia. Muitas piadas, tanto no texto quanto no visual, poderiam ser feitas para tirar um sarro e ao mesmo tempo homenagear grandes produtos do western e de ficção científica e isso sem cair na linha do escracho total. Muitos culpam Favreau pelo resultado final e hoje até dizem que seu sucesso anterior se deve muito ao ator Robert Downey Jr. interpretando um super-herói, pois o cineasta realmente não teria talento. Bem, um filme não se faz sozinho e simplesmente ligando a câmera. Se o roteiro já não é dos melhores, não há muito que fazer. A situação piora com a pressão do estúdio responsável pelo projeto e possíveis produtoras associadas. Como já dito, a corrida para pegar a fase quente nos cinemas e a preocupação com os efeitos tridimensionais, talvez o câncer do cinema atual, fizeram com que o diretor e roteiristas acelerassem os trabalhos e mandassem às favas a preocupação com detalhes da história. E com isso, ao término do filme, provavelmente o espectador deva se sentir da mesma forma que o personagem Lonergan no início: desmemoriado, sem lembrar muita coisa do que acompanhou por cerca de duas horas longas e chatas. A introdução seria uma metáfora?
Aventura - 118 min - 2011 - Dê sua opinião abaixo.

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