quarta-feira, 30 de julho de 2014

REINO DE FOGO

NOTA 6,0

Dragões voltam à vida em pleno
século 21 para destruir o mundo,
mas o filme que poderia ser uma
bomba rende um passatempo bacana
Dragões em pleno século 21? Quem se arrisca a colocar tais criaturas nas telas deve estar querendo conquistar plateias infantis adocicando o gênio destes seres ou carregando na vibe da ferocidade máxima para saciar os fãs de trash movies. Contudo, sempre há exceções. O problema é desafiar paradigmas. Mesmo com tecnologias avançadas para recriar estes monstros mitológicos e em tempos em que o gênero fantasia estava em alta, Reino de Fogo não fez o sucesso esperado. Sua bilheteria mundial praticamente só cobriu os gastos e o relativo fracasso deve estar diretamente ligado ao preconceito do espectador implícito na pergunta que abre este texto. Os dragões já foram os chamarizes de produções épicas e fantasiosas, quase sempre assumindo o papel de adversário a ser vencido pelo herói que deve provar sua coragem para conquistar o amor de alguma donzela. Contudo, o histórico de participações destes lendários seres no cinema ajuda a associar suas imagens a péssimas produções. O diretor Rob Bowman, de Arquivo X – O Filme, estava disposto a surpreender e abriu mão dos clichês em prol de uma narrativa mais original. Esqueça a Idade Média com seus opulentos castelos e cavaleiros de armadura. A trama escrita por Gregg Chabot, Kevin Peterka e Matt Greenberg começa no ano de 2002, em Londres, quando o garoto Quinn (Ben Thornton) entra em uma área de escavação para encontrar Karen (Alice Krige), sua mãe que é engenheira e atua nas obras do metrô. É ensaiado um draminha familiar, mas rapidamente o melhor da festa acontece. Uma caverna é encontrada e algo desconhecido parece habitá-la. Quando cai a ficha, todos estão observando o renascimento de um dragão que emerge dos subterrâneos da cidade, mas não há tempo para admiração. Com seus instintos hibernando a séculos, a fera imediatamente começa a acabar com tudo o que vê pela frente levando a cidade ao apocalipse. Vinte anos depois a praga se alastrou. Praticamente todos os humanos foram exterminados e os cuspidores de fogo passaram a se reproduzir com velocidade espantosa e a dominar o planeta. Então surgem as explicações científicas. Tardiamente é descoberto que os dinossauros não foram extintos por conta da colisão de um meteoro com a Terra, mas sim pelos monstros alados que os devoraram.  Sem alimento, o desaparecimento deles também era inerente, mas algo sobreviveu.

Se pegar a detalhes a respeito da sobrevida dos bichões é o de menos, pode inclusive comprometer a diversão.  Como um monstro sobreviveu por tantos anos hibernando? Como se reproduziu? Tudo é explicado de forma rasteira ou simplesmente ignorado, mas o fato é que os dragões estão de volta e reinando absolutos. Os poucos humanos que conseguiram escapar dos ataques são obrigados a viver refugiados em pequenas colônias. Podemos não ter as ostentosas construções medievais em cena, mas para não romper totalmente com a tradição a ação se concentra nos subterrâneos de um castelo em ruínas onde vive uma dessas comunidades liderada por Quinn, agora interpretado por Christian Bale. O garoto franzino tornou-se um homem robusto, mas ele não é adepto da força para resolver problemas. Usando a razão, ele acredita que dentro de alguns poucos anos os dragões viriam a ser extintos pela falta de alimento, inclusive plantas, forçando o canibalismo entre a espécie e assim os humanos sobreviventes poderiam ter a chance de reconstruir o planeta, quem sabe até evitando erros do passado afinal de contas se não fosse a obsessão pelo progresso talvez nada disso tivesse acontecido. Auxiliado pelo amigo Dave Creedy (Gerard Butler) e pelo garoto Jared Wilke (Scott Mouttier), Quinn busca diariamente formas de proteger sua comunidade de novos ataques, até mesmo rebeliões internas ocasionadas pelo desespero e a falta de perspectivas, mas para variar a possível solução vem de terras norte-americanas. Denton Van Zant (Matthew McConaughey) lidera uma tropa de choque militar fortemente armada que aparece inesperadamente. O comandante afirma ter experiência na caça a dragões e que descobriu uma maneira de exterminar toda a espécie. Que gancho original não? A ideia deste reforço é encontrar o mais rápido possível o dragão macho reprodutor. Depois de morto, o resto seria fichinha. Em meio a tanta testosterona, para dar um respiro na trama, temos Alex Jensen (Izabella Scorupco) que pilota um helicóptero militar, personagem obviamente talhada para virar interesse romântico de alguém. Quinn ou Zant? O problema é que ela não tem um mínimo de poder de sedução, diga-se de passagem, o próprio roteiro não investe em situações que inspire algum tipo de contato mais íntimo dela com algum homem, assim sua participação não cativa a plateia que deve torcer para que a qualquer momento ela vire comidinha de dragão tamanha sua importância à trama. Aliás, todos poderiam ser devorados já que parecem tipos sem personalidade que reciclam clichês e travam diálogos em estilo jogral, embora as frases curtas e sucintas combinem com o enredo enxuto e preocupado mais com a adrenalina do que com o blá-blá-blá.

Remetendo um pouco ao clima apocalíptico da cultuada trilogia Mad Max, há quem aponte que o grande problema da produção é o apreço pela misoginia. Um filme sem um quê de feminilidade fica com aquele ar cinzento, pueril e neste caso a analogia se concretiza. Os tons escuros estão presentes nos cenários e figurinos, além da fotografia e a iluminação também privilegiarem a sobriedade. A ambientação desértica com focos de incêndio lembra a um cenário de guerra, palco para os machões se exibirem literalmente. Os três nomes principais do elenco, hoje todos super consagrados, na época já não precisariam, mas além do talento também parecem ter curtido exibir os corpos musculosos. McConaughey, então o mais bem sucedido, aparece quase irreconhecível de cabeça raspada e tatuado, tudo para vender a imagem do “cara de poucos amigos” para dar um ar dúbio ao personagem. Herói ou bandido, quem é ele? Aparecendo de peito nu tanto tempo quanto o colega, Bale convence como mocinho da fita remetendo aos corajosos cavaleiros dos filmes épicos enquanto discretamente Butler tentava conquistar seu espaço no cinemão comercial, mas seu nome nem chegou a ilustrar o material publicitário. Com pontos positivos e negativos equilibrados, Reino de Fogo vale uma conferida por curiosidade, principalmente por aqueles que esperavam uma batida aventura medieval. Ambientar a trama inicialmente em 2002, ano corrente ao lançamento do filme, e depois concentrar a ação em um futuro próximo dá certo frescor ao argumento que parece pinçado dos anos 80, mas que se garante com bons recursos técnicos, inclusive efeitos especiais. Fazia tempo que dragões tão realistas não davam as caras nos cinemas. Quase um ano de trabalho foi dispensado para a concepção das criaturas que aliadas aos efeitos sonoros causam impacto, mas é uma pena que elas tenham pouco tempo de cena. É certo que apesar da embalagem de produto descartável, com direito a uma super perseguição de helicóptero para caçar os bichões usando como isca brucutus em queda livre, os roteiristas poderiam ter se esforçado para realizar uma narrativa alegórica, como aquelas antigas que exploravam invasões alienígenas como forma de criticar o comportamento humano ou momento político. É até possível identificar que os ingleses são retratados como a banda pobre que tem de pedir ajuda à soberania americana e quiçá os dragões seriam uma alusão a ameaça árabe (a obra foi realizada ainda no calor das emoções do 11 de setembro), mas isso são apenas especulações. Aparentemente Bowman queria apenas realizar um bom passatempo e quase chegou lá.

Aventura - 105 min - 2002 - Dê sua opinião abaixo.

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