terça-feira, 23 de setembro de 2014

O DESINFORMANTE

NOTA 7,0

Baseado em fatos reais, longa
mostra que para um golpista é
essencial ter malícia, tudo o que falta
a certo executivo metido a espertinho
No mundo dos negócios o que vale mais, a honestidade ou a esperteza? E não estamos falando de ser inteligente no sentido comum da palavra. De nada adianta cursos, falar vários idiomas e ter conhecimentos avançados de informática se você não tiver um pouco de malícia e é triste constatar que a frase “o mundo é dos espertos” (com duplo sentido mesmo) nunca esteve tão em voga. O Desinformante, raro caso em que o título nacional vende melhor a ideia que a alcunha original, é uma comédia dramática baseada em fatos reais ocorridos a partir de 1992 que gira em torno das mentiras inventadas por Mark Whitacre (Matt Damon), um químico e alto executivo da empresa norte-americana Archer Daniels Midland, ou simplesmente ADM, que lucra alto fabricando aqueles ingredientes com nomes difíceis que compõem os alimentos industrializados e que vêm descritos com letras minúsculas nas embalagens. Tendo como base o livro “O Informante”, escrito pelo repórter Kurt Eichenwald (não confundir com o longa homônimo de 1999, apesar de ambos envolverem denúncias ao mundo corporativo), o filme aborda mais especificamente o processamento de milho para a obtenção de lisina, um aminoácido utilizado em vários ramos da indústria alimentícia e até necessário para a composição de sacolas de plástico biodegradável. Como tal insumo está presente em diversos produtos, sua venda é lucrativa e justifica o estilo de vida de alto nível ostentado pelo protagonista que começa a trama narrando em off sua pacata rotina na companhia, mas tudo está prestes a mudar por conta de um simples telefonema. Um executivo japonês conhecido dele possui informações sobre um vírus que vem atacando a lisina produzida pela fábrica e causando grandes prejuízos financeiros mensais, porém, só revelará o nome do sabotador e uma possível vacina caso lhe paguem uma grande quantia de milhões de dólares. Rapidamente o FBI está envolvido com o problema e o inocente Whitacre começa a falar demais, inclusive informa o agente Brian Shepard (Scott Bakula) que a ADM é um dos principais grupos envolvidos em um cartel internacional criado para controlar o preço do milho em todo o mundo. Assim, além de se tornar um informante do governo, o rapaz acredita que passará a ser visto como um herói e terá seus esforços recompensados com uma promoção.

A certa altura o protagonista até se autointitula como “agente 0014”, uma alusão ao fato de neste momento ele se sentir “o cara”, simplesmente duas vezes mais esperto do que o famoso 007, o que não deixa de ser uma ironia do roteirista Scott Z. Burns que pouco antes assinou a trama de O Ultimato Bourne também estrelada por Damon. Todavia, as coisas não são tão fáceis como Whitacre poderia supor. Mesmo tratado como um colaborador de elite, o FBI exige provas a respeito de suas acusações, o que faz com que ele aceite usar um microfone e um gravador escondido em sua pasta de trabalho. Aos poucos, seus sonhos em poder um dia ser o seu próprio patrão em um estabelecimento comercial na cidade onde vive, no pequeno município de Illinois, vão cedendo espaço a uma preocupação constante que o envolve em uma bola de neve de mentiras que aparentemente nem o próprio consegue mais distinguir o que é realidade. Seus relatos são marcados por constantes contradições e acabam confundindo Shepard e seu colega de trabalho Bob Herndon (Joel McHale), obviamente perfis antagônicos como manda a cartilha dos filmes de espionagem. O filme não nega que haveria realmente um esquema montado pela ADM para roubar milhões de dólares, porém, conforme o enredo avança percebemos que o próprio protagonista tem seus segredos sórdidos. Apesar de o grande diferencial ser contar uma história sobre conspiração pelo viés da ironia, não espere humor popularesco ou físico. Sabendo que no comando está o diretor Steven Soderbergh, de Onze Homens e um Segredo e suas duas sequências, já dá para esperar uma comédia mais inteligente na qual as piadas só serão aproveitadas por quem prestar atenção no texto, contudo, neste caso ele não teve a mesma sorte com o público do que nos citados projetos em que se cercou de estrelas hollywoodianas. Apesar de a temática parecer funcionar melhor com o público ianque, na realidade ela é universal, mas o problema é que encontra dificuldades para se comunicar com o público. O texto não flui regularmente, tem solavancos climáticos e muitos momentos desinteressantes, o que não é bom para uma produção calcada em situações passadas em um ambiente corporativo que só pela sua natureza já é distante de boa parte dos espectadores. Também causa certa estranheza que as supostas fraudes acabam ficando em segundo plano já que as atenções do roteiro são voltadas ao desenvolvimento do personagem principal, o teatrinho que ele monta para enganar o FBI, colegas de trabalho e até mesmo a sua esposa Ginger (Melanie Lynskey) que descobre não conhecê-lo profundamente, mesmo estando juntos desde a adolescência.

Existe limite para a ambição do ser humano? Essa é a grande questão a ser respondida por este filme, fruto da quinta parceria (até então) de Damon e Soderbergh. O ator, que engordou quinze quilos para o papel, consegue encontrar o tom exato para compor um mentiroso deliciosamente dissimulado. Ele está sempre suando, falando pelos cotovelos, gesticulando, mas consegue se controlar a ponto de não demonstrar qualquer reação a respeito do que está articulando em sua mente. Certo de que seu plano de gravar conversas sigilosas era infalível, o executivo começa a se atrapalhar quando inventa um suposto espião rival dentro da empresa, a forma mais rápida que encontrou para encobrir o baixo rendimento da produção que está sob sua supervisão. Como mentira tem perna curta, é até possível esticá-la, porém, mais cedo ou mais tarde a verdade vem à tona. No entanto, não conseguimos enxergar o farsante como um mau caráter graças ao carisma do seu intérprete e com seus comentários em off a narrativa ganha um tom mais pessoal e até aponta um interessante aspecto psicológico. Embora respeitado no trabalho, por meio de algumas divagações parece que Whitacre queria ser notado e por isso se meteu no mundo da espionagem, mas perdeu o controle. Ao invés de ser um funcionário admirado passou a ser visto como uma ameaça à empresa. Sabemos qual o destino dos vigaristas (ou teoricamente o mais apropriado), portanto, não é surpresa alguma quando o rapaz lamenta que acreditava que sempre existiria um lugar para ele na ADM, afinal amigos não lhe faltavam por lá. Seus desequilíbrios psicológicos e emocionais não lhe permitiram perceber que seu egoísmo para chegar ao topo poderia custar o emprego de muitos outros, talvez até a falência da fábrica por conta da imagem difamada. Em uma filmografia tão eclética como a de Soderbergh, O Desinformante se destaca pela visão satírica de uma história real e com tudo para ser tensa ou dramática. Conta muito para tanto a aposta na caracterização de Damon para mostrar sua versatilidade, a chance de interpretar um lobo vestido em pele de cordeiro. E é bem isso que o ator faz. Com seu jeitinho de bom moço, o próprio Whitacre se convence de que é um herói. O diretor acalentou o projeto por quase uma década devido a conflitos de agenda, mas o atraso foi benéfico para o ator ganhar o amadurecimento necessário para dar vida a uma personagem tão multifacetada. Pena que o longa não teve a atenção merecida por parte de público e crítica. Talvez com uma duração um pouco mais enxuta a obra perderia o invólucro de produção destinada aos imersos no mundo corporativista e levasse seu humor a um público mais amplo.

Comédia - 108 min - 2009

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