segunda-feira, 22 de maio de 2017

OLIVER TWIST (2005)

NOTA 5,0

Adaptação de Roman Polanski de
clássico literário é esteticamente bela,
mas fica a dever em emoção e é estranha
à filmografia do premiado diretor
Clássico é sempre clássico e não pode ficar restrito a uma geração. Seja através da releituras literárias, adaptações para o cinema, televisão ou teatro ou tão somente ter algum trecho como fonte de inspiração para qualquer outra manifestação artística, é importante que obras de relevância do passado façam parte da cultura de épocas futuras. Pode-se inspirar nos originais para uma versão modernizada ou simplesmente seguir à risca os escritos sem permissão para ousadias, mas em ambos os casos existe o risco de errar. O clássico romance de Romeu e Julieta ou a trágica história de Hamlet são alguns exemplos de histórias que atravessam gerações, contadas e recontadas das mais variadas formas, mas certamente se algum diretor de cinema lançar a ideia de uma nova adaptação de qualquer uma destas obras será detonado nas redes sociais.  Com sua adaptação engessadinha de Oliver Twist o cultuado cineasta Roman Polanski não chegou a ser um grave alvo de chacotas, mas talvez tenha sentido o pior dos castigos para alguém que trabalha com artes: seu filme foi ignorado pelo público e crítica. Mesmo premiado no Festival de Toronto, o drama ganhou lançamento limitado nos EUA e em vários outros países. E infelizmente não podemos dizer que tenha sido uma injustiça. Visualmente belo, o grande problema deste trabalho está no roteiro que conta uma história que apesar de batida conquista inicialmente, mas perde o vínculo emocional com o espectador ao estender demais o drama do pequeno protagonista. O carismático Barney Clark defende o personagem-título, um garoto órfão que recebe em um orfanato um sobrenome um tanto sofisticado, porém, sua vida passa longe de luxos e riquezas. Pelo contrário. Sua infância é marcada por tristezas, abusos e miséria. À mercê da sociedade londrina do início do século 19, hipócrita e sem escrúpulos, o menino foge do cruel sistema de caridade governamental, no qual é submetido a trabalho escravo, e consegue ser adotado pela família do Sr. Sowerberry (Michael Heath) que vive da venda de caixões, mas sua sina de maus tratos não tem fim. Após uma desavença com Noah (Chris Overton), seu irmão de criação, o órfão é espancado e trancado em um frio e escuro porão. É quando decide fugir e se aventura a buscar melhores condições de vida.

Inocente até o último fio de cabelo, não demora para que Oliver caia em uma armadilha e entre em contato com o submundo. Sem perceber passa a praticar furtos induzido por um jovem malandro, Artful Dodger (Harry Eden), que faz parte de um grupo de trombadinhas que vive sob a batuta do velho Fagin (Ben Kingsley), um judeu que logo trata de ensinar o "ofício" ao novato. Apesar da aparência bizarra e de ganhar a vida através do trabalho de crianças, o novo tutor tem um comportamento ambíguo. Se por vezes Fagin é severo, não são raros os momentos em que demonstra certa preocupação com Oliver, mas o mínimo de carinho que recebe deste homem não é o bastante. Felizmente o garoto não desiste de melhorar de vida e o destino coloca em seu caminho um burguês de alma caridosa, O Sr. Brownolw (Edward Hardwicke), justamente sua primeira vítima de assalto que se comove com a situação do garoto e o adota informalmente dando-lhe roupas, alimentação e prometendo uma educação digna. No entanto, o bando de criminosos não irá desistir de trazê-lo de volta para o lado da bandidagem, até  por medo de que o esquema de corrupção de menores venha à tona. O malvado Bill Sikes (Jamie Foreman), parceiro de crimes de Fagin, e a prostituta Nancy (Leanne Rowe), agora se encarregam de fazer a vigilância de Oliver e acreditam que exista alguma conexão mais forte entre o menino e o rico burguês e querem tirar proveito da suspeita. E o filme então segue o calvário do protagonista acompanhando uma sucessão de encrencas em que se mete tentando conquistar uma vida digna e feliz, mas sempre comendo o pão que o diabo amassou nas mãos de pessoas ruins e gananciosas. O roteirista Ronald Harwood tentou ser o mais fiel possível à obra homônima escrita por Charles Dickens em 1838, uma história que faz parte do inconsciente literário mundial. Você pode até não conhecer a trama em seus pormenores, mas de sua essência deve ter suas lembranças de adaptações ou referências daqui ou dali. A versão assinada pela dupla de roteiro e direção do aclamado O Pianista obviamente não é uma reprodução completa do livro. Seria impossível resumir em pouco mais de duas horas todo o conteúdo, assim diversas passagens e personagens foram suprimidos ou acabaram mal inseridos na narrativa final, mas nada que interfira na apreciação do filme.

Polanski, após lidar com o pesado e delicado assunto do nazismo em seu trabalho anterior, que inclusive lhe valeu seu primeiro, merecido e porque não dizer tardio Oscar, queria fazer um filme voltado para toda a família, mas conhecendo sua filmografia obviamente não optaria por algo de degustação fácil. Se no aclamado filme homônimo lançado em 1948 e dirigido por David Lean, considerada a mais notória adaptação do livro, a trama se misturava à realidade que vivia os horrores da Segunda Guerra Mundial, anos mais tarde Polanski manteve a tônica adicionando à narrativa lembranças de sua infância que até certo ponto guarda semelhanças com o que é vivido pelo protagonista. Na Polônia ocupada por nazistas o futuro diretor de cinema também se via obrigado a viver fugindo e se escondendo. O universo degradante que retrata não separa as pessoas entre o bem e o mal. Todos tem seu lado positivo e negativo, como a certo momento revela Nancy e o próprio Oliver. Aliás, com a história praticamente toda focada nas aventuras e desventuras do protagonista, foram exigidos muitos esforços do jovem Clark, na época com apenas 11 anos de idade. Escolhido a dedo, o garoto tinha a aparência desprotegida e olhar cândido que o personagem pedia, algo que fica evidente logo no início quando o órfão é sorteado em uma brincadeira para a difícil missão de reclamar da pouca quantidade de comida oferecida aos internos do orfanato, praticamente um campo de concentração. Seu contato com os habitantes do submundo ao longo do filme lhe tiram um pouco de sua inocência, mas jamais atingem seu puro coração, uma construção de perfil bem conduzida por Polanski. Percebe-se todo um cuidado na formatação dos personagens buscando o máximo de veracidade, mostrar pessoas com suas virtudes e defeitos, alegrias e tristezas. Até o repugnante Fagin tem lá seus momentos de leve amabilidade, fruto da sensibilidade e talento de Kingsley que encarna com perfeição um vilão que na ânsia de sempre se dar bem acaba não raramente traído por seus próprios atos. A caracterização perfeita dos atores e figurantes, assim como a reconstituição cenográfica riquíssima em detalhes para expor a degradação de Londres, é fruto de uma competente equipe técnica que se baseou em gravuras da época, imagens que também inspiraram a ilustração dos créditos iniciais e finais. É uma pena que todo o apuro técnico e empenho dos atores não consigam elevar o Oliver Twist de Polanski a um mero passatempo infelizmente passível de esquecimento. Falta emoção à história e acompanhamos as situações com certo distanciamento, até mesmo pelo fato da previsibilidade imperar, o que associado a longa duração torna o programa monótono.

Drama - 130 min - 2005

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