sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O CLOSET

NOTA 9,0

A França prova que sabe fazer
boas comédias e com conteúdo, só não
leva nota máxima porque seu estilo
enxuto nos dá gostinho de quero mais
Infelizmente ainda tem gente que rotula o cinema francês como dramático demais, feito para intelectuais ou erotizado, reminiscências do estereótipo que criamos já que as produções do país costumam chegar ao Brasil graças a mostras de cinema ou salas de exibição alternativas. As coisas mudaram um pouco já faz um bom tempo, até surpreende a quantidade de filmes franceses que são lançados diretamente para consumo doméstico, mas ainda tem ótimas opções que infelizmente continuam relegadas a uma pequena faixa de espectadores. O Closet poderia ter sido um grande sucesso de público em qualquer país, mas o passar dos anos mostra que ele acabou involuntariamente ganhando uma aura de sofisticação, ainda mais por ser uma obra rara de ser encontrada a venda ou locadoras. O diretor e roteirista Francis Veber, de A Gaiola das Loucas (versão original é francesa e datada de 1978), provou que seu país tem sim condições de fazer comédias divertidas e sem abrir mão do conteúdo e da emoção. O início já mostra uma situação universal. Quem nunca viveu ou já viu alguém passando pelo constrangimento de ser esquecido em algum evento de trabalho ou até mesmo em ambiente escolar? Que atire a primeira pedra aquele que realmente se sente a vontade ou que acha divertido ficar caçando a si mesmo em meio a multidão nas ridículas fotos de publicidade empresarial. François Pignon (Daniel Auteuil) se arrumou todo para a fotografia anual de sua empresa, mas o excesso de funcionários acabou fazendo com que ele ficasse fora do quadro da câmera e até desistisse de participar da celebração. Não sair literalmente bem na foto poderia ser uma tola frustração, isso se logo em seguida ele não ficasse sabendo por acaso que em breve seria demitido no corte de despesas e tal notícia não tivesse saído da boca de Félix Santini (Gérard Depardieu), o diretor do RH que claramente não gosta dele. A grande preocupação não é tanto ficar com tempo ocioso ou ter que procurar uma nova ocupação, o que poderia levar um bom tempo, mas sim não ter como pagar a pensão para o filho adolescente Franck (Stanislas Crevillén) e à ex-mulher Christine (Alexandra Vandernoot), de quem está separado há dois anos, mas ainda apaixonado. Mãe e filho não fazem muita questão de manter contato com Pignon por considerá-lo um chato e agora que os boatos que será demitido já circulam por todos os departamentos ele também descobre que seus colegas de trabalho compartilham da mesma opinião.

Deprimido, ele acaba desabafando com seu novo vizinho, o mais vivido Jean-Pierre Belone (Michael Aumont), que lhe dá uma inusitada ideia para evitar a demissão: fingir ser gay. Ele prepara algumas fotomontagens com Pignon em atitudes suspeitas com outros homens e envia pelo correio para sua empresa. Tão logo as imagens são recebidas elas começam a ser repassadas até que chegam ao conhecimento do presidente da instituição, o Sr. Kopel (Jean Rochefort). Seguindo a cartilha do politicamente correto, a maioria das empresas evitam demissões neste caso por medo de ter a imagem manchada por preconceito à orientação sexual, mas no caso existe um agravante a mais. Pignon é contador de uma fábrica de borrachas que tem entre seus clientes potenciais os fabricantes de preservativos, o que revoltaria a comunidade homossexual que deixaria de comprar os produtos em sinal de protesto. Relutante inicialmente, Pignon acaba aceitando a ideia e sai com tudo de dentro do armário, ou melhor, do closet, e sua vida muda radicalmente. Todos passam a tratá-lo com muita cordialidade, principalmente Santini que também muda da água para o vinho. Influenciado por outro colega, Guillaume (Thierry Lhermitte), ele não percebe os conselhos brincalhões e deixa seu jeito de machão convicto de lado e permite sua porção delicada aflorar, diga-se de passagem, até demais. É hilariante a sua explicação para sua fixação pelos jogos de rúgbi tentando manter um diálogo por afinidades e mostrar ao novo gay do pedaço que ele não precisa deixar a empresa e tampouco brigar na justiça por respeito. Tentando agradá-lo, seguem-se refeições em restaurantes finos e presentinhos, o que não é bem compreendido por sua esposa Agnes (Michèle Garcia) que começa a achar doentio o comportamento do marido que para não colocar o trabalho em risco poderia até mesmo se sujeitar a ir para a cama com outro homem. O plano de Belone é uma espécie de vingança do bem. Ele próprio foi despedido por ser homossexual, mas os tempos eram outros. O que antes era a ruína de alguém profissionalmente agora foi transformado na carta na manga. Para Pignon a mentirinha também foi benéfica para sua vida pessoal. Ao ser pressionado pelo presidente à participar da parada gay para divulgar os produtos da empresa, com direito a um chapéu imitando uma camisinha, ele acabou aparecendo na TV e isso chamou a atenção do filho que se orgulhou da coragem do pai, mas sua mãe não acredita que o ex seja gay e quer desmascará-lo para ter o amor incondicional de Franck só para ela. Quem também quer fazer o mesmo é sua chefe de departamento, a Srta. Bertrand (Michèle Laroque), que está se sentindo ameaçada com a aura de ser intocável que Pignon ganhou com o alto escalão. Sua insistência em desmontar a farsa lhe rende até uma acusação de assédio sexual e enquanto muitos repentinamente passam a notar o quarentão, a fofoqueira Ariane (Armelle Duetsche) trata de difamá-lo espalhando comentários venenosos e o ridículo estereótipo de que como gay ele também seria um pedófilo em potencial.

Sem ser escrachado, mas ainda assim divertidíssimo, e priorizando a crônica sobre o comportamento humano, porém, sem testar a paciência do espectador, O Closet é uma grata surpresa, cinema da melhor qualidade. Chama a atenção que mesmo com sua curta duração a premissa é muito bem desenvolvida e o que poderia ser caricatural acaba se tornando um bem humorado retrato social dos tempos modernos. Homossexualismo, conflitos familiares, amizade, superação e um retrato do competitivo ambiente corporativo, há uma pincelada (algumas generosas) de todos esses temas e sem tornar a obra maçante. Provando que a interação entre as pessoas interfere drasticamente na vida de todos os envolvidos em um mesmo grupo, a partir do momento que Pignon assume-se gay os demais personagens mudam a forma de agir e ver a realidade e todos interferem diretamente nos rumos do protagonista que não escapa de levar uma surra por conta do preconceito e ignorância enraizado em alguns de seus colegas de trabalho. Mostrando o realismo do texto, apesar de tudo o contador tem consciência de que está sendo respeitado por interesse, no fundo a maioria que lhe dá tapinhas nas costas na verdade gostaria de lhe dar um soco no estômago. Dentro do ambiente empresarial sua homossexualidade serve como um escudo de proteção, mas fora dele a opção lhe confere um ar de marginalizado, alguém que deve mudar seu jeito de ser ou se isolar da sociedade. Claro que para manter o clima de alto astral da produção Veber só resvala pelo lado negativo da situação, mas deixa latente a preocupação de Pignon caso o filho assumisse gostar do mesmo sexo. Como qualquer pai (ou ao menos deveria ser assim) sua alegria em reatar os laços afetivos com Franck iria superar o baque de tal revelação, mas obviamente lhe preocuparia como outras pessoas reagiriam, o mesmo cuidado que agora ele quer dedicar ao fato do garoto fumar maconha, clara alusão a sua rebeldia que também poderia lhe trazer problemas futuros quanto a sua aceitação social. É uma pena que este gancho, assim como o desfecho de Santini e a relação mal resolvida com Christine fique para nós deduzirmos. A rapidez com que Verve conclui sua obra diminui as chances de lhe dar nota máxima, mesmo com a última cena que deve servir de exemplo para muita gente aprender a tomar atitudes (só não leve ao pé da letra o recado).

Comédia - 84 min - 2001

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