quinta-feira, 24 de julho de 2014

UM BEIJO ROUBADO

NOTA 7,0

Estreia de diretor chinês no
cinema americano é 
tecnicamente
perfeita, mas ritmo lento e estilo
narrativo comprometem o conjunto
Ator é ator e cantor é cantor. Embora sejam muito comuns artistas estrangeiros que acumulam as duas funções, ainda para nós brasileiros isso soa como algo estranho. A música pode ter vindo antes ou depois da interpretação, mas é difícil disfarçar a sensação de que o profissional que atua nas duas áreas só está querendo se promover. Ainda bem que há casos que nos fazem repensar este pensamento tacanho. Certamente muita gente deve ter torcido o nariz quando ouviu falar que a cantora Norah Jones ia estrelar um filme, mas quem a apedrejou precocemente provável que tenha se arrependido ao ver sua atuação no drama romântico Um Beijo Roubado. Ela dá vida à Elizabeth, ou simplesmente Lizzie, uma jovem que está transtornada quando entra no restaurante-cafeteria de Jeremy (Jude Law), um homem pacato que se lembra dos clientes pelos pratos que consumiram e que tem como hobby colecionar chaves esquecidas por eles. Para cada uma delas ele tem uma história para contar e se recusa a jogá-las fora alegando que ao fazer isso algumas portas nunca mais poderiam ser abertas. São mensagens do tipo justamente o que Elizabeth precisa neste momento em que descobre através do menu que o ex-namorado pediu que ele não só terminou o relacionamento de uma hora para a outra como também já estava circulando com uma nova companhia. Como o rapaz costumava frequentar o local, a garota acaba desabafando com o barman que pacientemente escuta as lamentações e procura aconselhá-la afinal ele a compreende totalmente. Para se manter ocupado e esquecer uma desilusão amorosa, buscou refúgio confinado atrás de um balcão, mas cada um enfrenta a tristeza de uma maneira diferente. E assim nasce uma relação de amor, amizade e cumplicidade entre eles que se estende por várias noites de sedução velada. Ao invés de amargar uma ressaca a base de destilados, a jovem simplesmente afoga suas mágoas em um bom pedaço de torta de blueberry que, diga-se de passagem, sempre sobrava no fim do dia. Fazendo uma metáfora, Jeremy diz que não há nada de errado no doce, apenas costumava ser preterido por outros sabores, mas há sempre alguém disposto a experimentá-lo e dessa forma Elizabeth também deveria encarar o momento difícil. Se o namorado a trocou por outra o jeito é dar a volta por cima e é exatamente isso que ela faz.

Elizabeth havia abandonado no café as chaves de sua casa para serem entregues ao ex, mas por várias noites voltou lá para receber sempre a mesma resposta negativa até o momento em que decidiu sair de Nova York e colocar o pé na estrada sem destino. Fazendo bicos como garçonete dia e noite, ela cruza os EUA relatando suas experiências em longas cartas destinadas ao barman com quem tantas confidências trocou, mas ele sentindo a ausência física da moça descobre estar apaixonado. Todavia, apesar de todo o carisma do personagem de Law, por um bom tempo o esquecemos. Durante a viagem repleta de autodescobertas e amadurecimento, Elizabeth entra em contato com diversos tipos de pessoas, todos também com algum tipo de perda a ser superada. Numa cidade do Texas, por exemplo, testemunha o relacionamento doentio do policial Arnie (David Strathairn) com a ex-mulher Sue Lynne (Rachel Weisz), o que o obriga a se entregar a bebida e pensar em fazer uma loucura. Já próximo de Las Vegas, a garçonete faz amizade com Leslie (Natalie Portman), uma apostadora compulsiva com problemas de relacionamento com o pai. Juntas elas compram um carro e percorrem um longo trecho até chegarem a inevitável separação quando é hora de Jeremy voltar à cena. O longo período de separação era necessário para que essas duas pessoas que trocaram apenas um beijo, mesmo com tantos encontros, pudessem maturar a ideia de que o amor mais uma vez os procurava, bastava estar pronto para abraçá-lo. Seguindo levemente os passos de um road movie, o longa marca a estreia no cinema americano do diretor chinês Wong Kar-Wai, mais conhecido por cinéfilos de carteirinha que idolatram obras como 2046 e Amor à Flor da Pele. O cineasta volta a abordar sua temática predileta, os amores impossíveis, trazendo a delicadeza e o colorido característicos de seu estilo para o universo da nação ianque consumista, não por acaso a trama tem como ponto inicial e crucial uma espécie de restaurante onde se serve praticamente de tudo para saciar a todos os paladares. É uma pena que o filme em si tenha um sabor que agrade a poucos. Se entre os conhecedores do currículo do diretor exista quem desdenhe deste trabalho, imagine a situação para aqueles atraídos pela publicidade de Norah Jones estreando como atriz. O filme está anos-luz de ser ruim, mas sua lentidão e busca incessante para que cada cena tenha algum detalhe artístico podem ser alguns dos empecilhos para envolver espectadores desavisados, mas será mesmo que o cineasta estreante em Hollywood estava querendo angariar novos fãs? Aparentemente isso era o de menos e a preocupação maior era não trair o seu estilo.

Se não pôde recorrer aos mobiliários e decorações orientais que indiscutivelmente trazem uma beleza estética sedutora, Kar-Wai encontra nas luzes de neon e nos reflexos dos vidros o material necessário para exercitar seu apuro técnico e visual. Praticamente todo o longa é desenvolvido dentro de bares, o ponto de encontro mais comum na cultura americana, ambientes perfeitos para abrigar a narrativa escrita pelo próprio cineasta em parceria com Lawrence Block. A boêmia contrasta com a melancolia nestes cenários multicoloridos, mas ainda mantendo o aspecto noturno das ações, assim a preocupação com o visual da fita não é um mero capricho de seu realizador e sim um item essencial para ajudar quem assiste a se sentir imerso na história. É interessante observar que inicialmente até mesmo Elizabeth parece alheia a tudo, colocando-se na posição de mera espectadora da vida dos outros. Quando começa a desabrochar internamente aí sim ela assume o papel de protagonista, algo assinalado pelas próprias imagens que então surgem livres de qualquer tipo de interferência. Antes disso, o diretor buscava incessantemente angulações de câmera, iluminações e efeitos que intensificassem a sensação de voyeurismo, como se alguém observasse as ações através de barreiras de vidros, trucagens que reforçam as belezas das cenas quase em tom onírico. Tecnicamente e visualmente não há o que se discutir, Um Beijo Roubado é uma perfeição e merecia muitas linhas para analisar tais predicados de forma minuciosa, mas de nada adianta uma bela embalagem se o conteúdo não faz jus. É totalmente compreensível a trama, mas as escolhas de Kar-Wai para desenvolvê-la prejudicam o resultado final, tanto que o filme não causou furor entre os críticos, fez carreira tímida nos cinemas e chegou de mansinho ao DVD. O nome do cineasta, a menção a participação no Festival de Cannes e o elenco de nomes famosos chamam a atenção, mas não podem ser encarados como garantia de um filme excepcional. A opção de expandir a trama separando o casal principal é justificável, mas abre caminho, por exemplo, para a subtrama do policial abalado emocionalmente parecer mais atraente. A sensação ao final é que separadamente teríamos três histórias que renderiam muito mais. Pelo menos a produção não pode ser rotulada como talhada para lançar Norah Jones em Hollywood. Não se sabe ao certo o porquê da escolha do chinês, mas não se pode negar que a inexperiência da moça colabora para a naturalidade da personagem. Do início ao fim, ambas traçam uma trajetória de autoconhecimento, uma em busca de sua essência e do amor, a outra tentando despertar seu potencial para a profissão. Todavia, embora não tenha recebido críticas, tampouco elogios rasgados, a cantora ao que tudo indica não foi seduzida pela carreira de atriz.

Drama - 94 min - Ano 2007 - Dê sua opinião abaixo.

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