quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A NEGOCIAÇÃO (2012)

NOTA 7,0

Milionário vê seu mundo perfeito
desmoronar quando segredos
obscuros de sua vida ameaçam vir
a tona em drama envolvente
Dinheiro não é tudo, pois mesmo milionário é impossível se comprar a plena felicidade. Pensamentos do tipo são muito bonitos, cheio de significados emocionais, mas o fato é que o dinheiro pode não comprar a felicidade diretamente, mas é com ele que conseguimos alguns bens materiais que possam nos levar a satisfação esperada. Não adiante querer viver na utopia do sobreviver apenas com o necessário. Vivemos em um mundo capitalista e egoísta que nos força a desejar sempre ter mais do que precisamos. O cinema rotineiramente explora a relação dos seres humanos com finanças e nem mesmo as classes mais abastadas escapam do foco. Sim, quem é rico também deseja ter mais, porém, a ganância pode trazer consequências. Em tempos de crise mundial, é bom se deparar com trabalhos como A Negociação que abordam a relação das pessoas que lidam diretamente com a falência econômica e que consequentemente adquirem problemas para suas vidas pessoais, afinal quem passou anos a base de champanhe nem em sonho quer sentir o sabor de cidra barata. Na trama escrita por Nicholas Jarecki, aqui também estreando como diretor, Richard Gere dá vida a Robert Miller, um charmoso e perspicaz milionário que está prestes a vender sua empresa de investimentos para um renomado banco, mas precisa fazer essa transação o mais rápido possível para evitar que uma fraude realizada por ele mesmo seja descoberta. Todavia, a justificativa formal para a venda é que ele já trabalhou muito e agora que já é um sessentão quer recuperar o tempo que perdeu no escritório e em viagens de trabalho dedicando-se mais a sua família, a desculpa de praxe dos homens de meia-idade que percebem que a vida passa rápido tardiamente. Logo no início nos deparamos com uma cena que evoca a vida perfeita do magnata em meio a seus familiares para comemorar seu aniversário, mas ele acaba abandonando a festa antes do fim por conta de problemas urgentes a serem resolvidos em seu escritório após alguns dias de viagem, a trabalho é claro. Ellen (Susan Sarandon), sua esposa e responsável pelas ações filantrópicas da empresa, mostra-se compreensiva e se despede carinhosamente deixando latente que existe amor neste relacionamento mesmo após tantos anos de união. No entanto, o executivo mentiu e está a caminho da casa da amante.

Miller mantém um relacionamento paralelo com Julie Côte (Laetitia Casta), uma artista plástica francesa que lhe cobra mais atenção. Tentando compensar sua ausência, o milionário chega ao ponto de arrematar várias de suas telas para alavancar a futura exposição da moça, mas para ela o amor vem em primeiro lugar e não o sucesso profissional. Assim, ele a convida para uma rápida viagem que acaba sendo o ponto inicial da ruína de sua vida invejável. Eles sofrem um grave acidente de carro no qual a moça vem a falecer e no desespero o empresário abandona o local do acidente. Neste caso seu lado estrategista falhou. Ele não tinha intenções de matar a amante, foi uma fatalidade na qual sua entrega e depoimento espontâneos para a polícia poderiam abrandar consideravelmente sua punição, mas e como ficaria sua imagem de chefe de família exemplar? E mais, um escândalo poderia arruinar seus planos de passar adiante sua empresa. O jeito era tentar desassociar completamente seu nome do episódio. Miller foge do local com a ajuda do filho de um antigo parceiro de negócios, Jimmy Grant (Nate Parker), a quem acaba envolvendo no caso tornando-o um suspeito em potencial.  Sem saber que estava ajudando um conhecido de longa data em uma fuga, o rapaz pode pegar dez anos de cadeia. No entanto o experiente detetive Michael Bryer (Tim Roth) não compra tal história logo de cara e decide investigar mais a fundo o episódio acreditando que há indícios que possam ligar o empresário a morte de Julie. Curiosamente, o homem da lei no caso também não tem um caráter dos mais credenciáveis, percepção reforçada pelo seu jeito desleixado de se comportar, assim não servindo como um contraponto a suposta imoralidade do protagonista. Aliás, até Ellen e Grant também não estão imunes a julgamentos. Os personagens em geral parecem colocar os seus próprios interesses na frente dos outros, mostrando o quanto a sociedade está corrompida e individualista. Nem mesmo Brooke (Brit Marling), filha do empresário, escaparia de ser prejudicada caso os segredos do pai viessem a tona. Uma das executivas da empresa, talvez ela seja a personagem mais honesta do longa e já demonstrava desconforto ao saber dos planos de venda do negócio familiar, mas ao descobrir as falcatruas se vê obrigada a confrontar o pai, o que gera uma reviravolta no final, momento para Sarandon finalmente mostrar sua competência. Miller se defende dizendo que a desonestidade é necessária para sobreviver no mercado, um conselho não muito bem vindo da boca de uma pessoa que deveria zelar pela educação da filha mesmo ela já não sendo criancinha.

A relação entre Miller e Ellen não recebe muita atenção pelo roteiro propositalmente. Como a maioria dos casais de meia-idade, infelizmente, eles acostumaram-se com a rotina de limitar-se a conversas sobre assuntos cotidianos, mas ainda assim a esposa demonstra-se dedicada e ligeiramente distante dos problemas do marido. Como depende do marido para viver, inclusive suas atividades profissionais estão diretamente ligadas a ele, Ellen acabou se tornando submissa, mas é óbvio que ela terá seu momento de virar o jogo e encurralar o marido na parede. Não estraga surpresa alguma saber isso, afinal é a intensidade das interpretações que seguram a atenção dos espectadores, principalmente quando os personagens se confrontam verbalmente tentando defender suas verdades. Gere sem dúvidas tem sua melhor atuação em anos, deixando transparecer com naturalidade os sentimentos de desespero e angústia de Miller quando se vê em um emaranhado de problemas. Cínico, amoroso, sedutor, estrategista e persuasivo. O protagonista possui uma personalidade multifacetada como se fosse um camaleão que se transforma para se adequar a cada tipo de situação. Indicado ao Globo de Ouro pelo papel, o ator constrói um personagem totalmente crível a ponto de fazer com que o espectador não se preocupe em saber qual será seu desfecho, mas sim levado a refletir sobre como agiria se estivesse vivenciando a mesma situação. Falar a verdade e destruir sua imagem? Levar a mentira adiante e fazer mal a inocentes? É uma situação difícil até para quem assiste julgar, afinal não há mocinhos e vilões, todos erram tentando fazer o bem, mesmo que esse benefício seja apenas para si mesmo. Da forma como Jarecki constrói seu protagonista percebemos que ele se preocupa apenas com a preservação de imagem e bens materiais, assim é interessante observar como o diretor passeia com sua câmera pelas fachadas de ostensivos edifícios e busca superfícies reflexivas para captar belas imagens, como aquelas geralmente vistas em propagandas de automóveis que vendem a ideia de superioridade para aqueles que têm posses. Os cenários e a fotografia estilosos e contemporâneos também realçam a beleza do mundo habitado por Miller onde o status quo é de suma importância. Com uma trama de fácil envolvimento, A Negociação consegue aproximar o público dos conflitos financeiros de forma suave e o fato de ter o carismático Gere a frente da produção colabora para que quem assista fique na dúvida se toma ou não partido. A ambiguidade de sentimentos que a produção desperta é seu grande diferencial.

Drama - 100 min - 2012 

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