sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

A MALDIÇÃO DA CHORONA


Nota 6,5 Longa desperdiça potencial lenda e apenas copia efeitos e técnicas já testados e aprovados


O sucesso de Invocação do Mal e sua continuação direta, abordando casos investigados por Lorraine e Ed Warren, os famosos especialistas em paranormalidade que após falecerem viraram personagens icônicos do cinema de horror, fez Hollywood voltar seu olhar mais uma vez para a seara de filmes de fantasmas, mas encontrar uma ideia tão boa quanto não é tarefa fácil. Compartilhando do mesmo universo, mas sem expandi-lo, A Maldição da Chorona tenta inovar reunindo os clichês comuns ao terror americano à uma antiga lenda mexicana sobre a tal mulher do título, interpretada por Marisol Ramirez, que em meados do século 17 afogou os próprios filhos como vingança ao descobrir que o marido que tanto amava a traia. Quando toma consciência do que fez, arrependida ela também se suicida. Desde então há quem diga que seu espírito vague pelo mundo dos vivos para capturar crianças como forma de substituir as que matou. O roteiro não faz questão alguma de explorar tal passagem folclórica e joga tudo na tela de uma vez em um rápido prólogo. A ação de fato se passa na década de 1970, em Los Angeles, quando Anna (Linda Cardellini), uma assistente social recém-viúva, tenta ajudar Patricia (Patricia Velasquez), uma imigrante do México, a se adaptar à nova cidade junto com seus filhos, contudo, tentando fazer o bem, a funcionária acaba involuntariamente sentenciando os garotos à morte. 

Desesperada, a estrangeira tomada pelo ódio evoca explicitamente a entidade de Chorona para se vingar, assim Chris (Roman Christou) e Samantha (Jaynee-Lynne Kinchen), os filhos da assistente, passam a ser perseguidos pela alma penada que mesmo com seus suplícios em espanhol (propositalmente não legendados ou dublados) surge como uma figura perfeitamente integrada aos costumes americanos. Cada vez mais embarcando na paranoia de estar na mira de um espírito maligno, Anna também acaba pouco a pouco negligenciando suas próprias crianças. Cardellini edifica sua personagem de forma a recusar o rótulo de heroína, sendo apenas uma mulher comum um tanto amargurada pela morte recente do marido e por conta das difíceis condições para sustentar a família. O texto permite cenas que colocam em questionamento várias atitudes da protagonista, contudo, os erros de Anna são perfeitamente justificáveis, afinal ninguém é perfeito. O roteiro de Mikki Daughtry e Tobias Iaconis, mesma dupla do dramático A Cinco Passos de Você, evita ousadias e caminha por terreno seguro permeando praticamente todo o filme com sustos ou situações que possam induzir tensão. Embora não conte com a presença dos Warren, está bem clara a tentativa de criar um elo desta produção com a franquia protagonizada pelo casal, basta o argumento de uma entidade maligna tirando o sossego de uma família. 


É perceptível também a vontade de tentar criar mais uma subfranquia tal qual a da boneca Annabelle (diga-se de passagem, um rápido take faz a ponte entre os filmes), produções com proposta semelhantes e que possam ser desenvolvidas independente da presença dos Warren no enredo. O então estreante Michael Chaves mostra competência para administrar a mesma atmosfera criada como modelo por James Wan que deu o pontapé inicial para retomar a dignidade dos filmes de assombrações. Para apresentar a lenda de Chorona, o diretor respeita a cartilha já pré-estabelecida, mas também apresenta alguns lampejos criativos para inserir o sobrenatural na tela, como na cena em que a entidade aparece refletida no plástico transparente da armação de um guarda-chuva ou quando ela ameaça os filhos de Anna presos em um carro pregando sustos mexendo nas manivelas de abertura dos vidros. Todavia, a Chorona revela-se uma antagonista de peso fraco, ou melhor, seu perfil é pouco explorado. Caso já tivesse aparecido em algum outro filme, como a figura demoníaca de A Freira, seria meio caminho andado para a personagem gerar interesse, mas no caso o fantasma da mãe arrependida precisa criar do zero raízes no imaginário popular.  Infelizmente, Chaves se contenta em simplesmente jogar a tal entidade em meio a um filme genérico e sem identidade própria. É como se fosse uma compilação de todas as técnicas já testadas e aprovadas por Wan feita por alguém com medo de ousar e errar a receita.
 
A Maldição da Chorona está longe de ser execrável, pelo contrário, mas não faz questão alguma de surpreender. As aparições da assombração, uma mulher envelhecida, com olhos amarelados e usando um vestido branco, são feitas previsivelmente em ambientes escuros e anunciadas por ventanias ou sons de portas e janelas que batem sem mais nem menos. Ainda assim, não se pode negar que este projeto se sustenta sob uma perspectiva humana e mais próxima ao realismo. A própria lenda urbana em que se baseia tem alicerces sólidos. A aparência degradante de Chorona é fruto de anos de sofrimento, mesmo desencarnada, remoendo seus atos, assim seu conflito principal é consigo mesma buscando reparar sua dor ignorando causar sofrimento aos vivos. Seu choro é real, mas soa para as criancinhas como um chamado para uma armadilha, e a figura da mãe, símbolo de cuidado e proteção, então é convertida a uma ameaça.  Em meio ao clima tenso, alguns momentos de humor involuntário são inseridos, a maioria envolvendo o perito em ocultismo Rafael (Raymond Cruz), que surge com discursos repletos de frases de efeito e com perfil bastante estereotipado. Ele traz um curioso tipo de comicidade sempre mantendo a expressão séria, mas parecendo por dentro rir da situação buscando ele próprio alguma vazão diante de uma situação tão complicada.


Até por conta do título, não é difícil imaginar a produção como algo trash, mas o roteiro consegue embutir um certo quê de estudo sociopsicológico em meio a tensão, desenhando um pertinente cenário no qual questões econômicas, étnicas e religiosas influem diretamente na construção de um ambiente realista, ainda que não sejam dispensados os clichês referentes as assombrações. A fantasma trafega livremente pelos ambientes, mas quando julga necessário Chaves barra sua entrada até algum personagem abrir uma porta ou por conta de certas sementinhas cuja crença diz que repelem espíritos. Tudo para gerar a tensão de que quando menos se espera Chorona conseguirá agarrar alguém e deixar sua marca como se fosse uma queimadura. No conjunto, o longa é uma opção razoável aos amantes do gênero, mas frustra quem gosta de ser surpreendido, principalmente por desperdiçar uma potencial e mórbida lenda que envolve mágoa, culpa e egoísmo. Chorona não volta à vida em busca de vingança, mas sim de sua própria redenção, o que já seria o bastante para sua história fugir do lugar comum.

Terror - 93 min - 2019

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