terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O TERMINAL

NOTA 7,5

Tom Hanks é o chamariz
de produção divertida até a
metade, mas que derrapa
com conclusão bobinha
Um aeroporto é um local por onde passam centenas de pessoas todos os dias, das mais diferentes culturas e países. Muitos acabam vivendo mais na ponte aérea do que em suas próprias casas e justamente pensando nisso o diretor Steven Spielberg se inspirou para fazer O Terminal, um trabalho atípico em seu currículo e, por mais incrível que pareça, baseado no caso real de um iraniano impedido de voltar ao seu país e que foi obrigado a viver por mais de quinze anos nas dependências de um aeroporto na França. O cineasta voltou a se unir a Tom Hanks, com quem já havia trabalhado em O Resgate do Soldado Ryan e Prenda-me Se For Capaz, para uma produção que deseja levar o público às lágrimas, mas escamoteia o roteiro com pitadas sutis e deliciosas de humor. Mesmo assim, é preciso advertir que o longa sofre com um ritmo inadequado e uma duração excessiva, dessa forma a primeira hora realmente entretém, é bem divertida e muito criativa, mas a segunda decepciona pela sua lentidão, excesso de drama e clichês e conclusões que deixam a desejar. O protagonista da trama é Viktor Navorski (Tom Hanks), um cidadão da Europa Oriental, mais especificamente da Krakozhia, que viaja rumo a Nova York justamente quando seu país sofre um golpe de estado, o que faz com que seu passaporte fique inválido. Ao chegar no aeroporto, ele não consegue autorização para entrar nos EUA, mas não compreende o porquê. Ele também fica impossibilitado de retornar à sua terra natal, já que as fronteiras foram fechadas após o golpe e o governo americano não reconhece a atual situação política do país em conflito. Conforme informado pelo oficial de segurança Frank Dixon (Stanley Tucci), Navorski não pode ser considerado um refugiado político e nem mesmo um turista, simplesmente ele é um homem sem pátria. Sem poder se instalar em solo americano e nem seguir viagem, ele é obrigado a ficar esperando a liberação de seu passaporte dentro das dependências do aeroporto e assim passa muitos dias e noites descobrindo o complexo mundo do terminal onde está preso. O estrangeiro aprende a ganhar dinheiro por lá, prova comidas que nunca havia experimentado, faz amizades com alguns funcionários, serve de cupido para unir dois jovens e até se apaixona por Amelia (Catherine Zeta-Jones), uma aeromoça acostumada a viver romances conturbados.

Inicialmente o filme é bem divertido mesmo repetindo situações previsíveis que já assistimos em tantos outros filmes. Todos já acompanhamos ao menos uma vez na vida o velho recurso narrativo do estrangeiro que tenta se adaptar a um novo lugar, anda para tudo quanto é lado com olhos arregalados de curiosidade e sempre sorri mesmo quando está sendo humilhado ou recebendo alguma notícia ruim pelo simples motivo de não compreender o idioma local. Mas todos esses truques manjados acabam ganhando um ar de novidade graças ao talento de Hanks vivendo o habitante de um país fictício e com linguagem bem peculiar. Ele é o grande centro das atenções quando está em cena, mas não escapou de críticas negativas que apontaram seu sotaque exagerado e sua criação um tanto caricatural. Apesar dos diálogos inteligentes e situações bem criativas e desenvolvidas, como a amizade do estrangeiro com os funcionários do aeroporto e as diversas formas que encontra para sobreviver por lá, não deixa de ser incômodo o ar ingênuo que o ator adotou para o personagem, mas nada que atrapalhe o andamento da história, pelo menos até a metade. Não é culpa do ator, ao contrário, ele está muito convincente e consegue agregar ao papel características que contribuem para que este seja mais um dos personagens marcantes de sua carreira. O segundo ato, como já dito, é insatisfatório, com muitas arestas a serem aparadas, humor praticamente nulo, furos de roteiro, explicações para alguns fatos pouco convincentes e uma narrativa arrastada. O que se salva é o romance do protagonista com uma bela aeromoça e os esforços dos coadjuvantes em fazer graça, como o simpático Diego Luna. Pelo menos a conclusão de tudo é satisfatória e atende as expectativas do público.

A reprodução de um grande saguão de aeroporto é um dos pontos altos do longa. Quase como um shopping center, o local oferece de tudo para propiciar o máximo de conforto aos seus frequentadores e o protagonista pouco a pouco vai desfrutando dos diversos serviços e conhecendo a engenharia e as bases que mantêm o lugar. O espectador acaba passeando junto com Navorski por esse mundo a parte que durante o dia é fervilhante e a noite é quase que um paraíso de calmaria. Talvez só mesmo no filme para um aeroporto americano ser tão calmo de madrugada, se fosse no Brasil então nem se fala. Com tudo que foi dito até agora pode até parecer que O Terminal é um filme ruim, mas isso não é mesmo. A premissa realmente é bem interessante, mas a forma de condução adotada para a narrativa trabalha contra o próprio produto. Além da divisão bem marcada da substituição de ritmo, a edição poderia ter sido mais econômica, assim reduzindo o tempo final e evitando que a atenção do espectador se dispersasse tantas vezes. Outro ponto que muitos criticam é que não parece um filme de Spielberg, mas todos merecem um momento de relaxamento, e o cineasta, entre um arrasa-quarteirão e outro, costuma assumir projetos menores. É uma forma de descansar sem deixar de trabalhar, mas um projeto leve do diretor é algo que o público não está acostumado. Superficialmente, o principal problema desta produção seria realmente a adaptação do espectador a um padrão novo de interpretação e direção de profissionais consagrados e com um estilo bem definido. Todavia, não sendo muito crítico, é sem dúvidas um filme agradável e que garante boas horas de diversão com um enredo leve que entretém a todas as idades. Afinal de contas, é uma obra assumidamente descompromissada e é assim que o espectador deve encarar. Puro escapismo com algumas alfinetadas ao xenofobismo americano. Falando nisso, uma questão fica sem resposta até hoje: se a tal Krakozhia estava passando por momentos complicados, por que somente um representante do tal país estava tentando entrar na terra dos ianques? Se enveredasse pelo lado dramático e explorasse a idéia da terra do tio Sam servir como refúgio a estrangeiros talvez as pessoas reconhecessem o trabalho como um legítimo Spielberg.

Comédia - 129 min - 2004 - Dê sua opinião abaixo.

3 comentários:

Rafael W. disse...

Gosto bastante deste filme. Apela um pouco para o melodrama, mas diverte e emociona.

http://cinelupinha.blogspot.com/

Rodrigo Mendes disse...

Um ótimo divertimento de Spielberg depois de outra fita igualmente divertida Prenda-me se for Capaz.
Tom Hanks soberbo aqui.

Abs.
Rodrigo
http://cinemarodrigo.blogspot.com/

Marcos Rosa disse...

òtimo filme, Boa sintonia entre Spielberg e Hanks. Como vc disse, é bom variar um pouco entre um arrasa-quarteirão e outro.


___
http://algunsfilmes.blogspot.com/

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