sábado, 10 de agosto de 2013

TRÁFICO DE ÓRGÃOS

Nota 8,0  Mercado clandestino de órgãos é revelado através de um pai tentando salvar a filha

As regiões que ficam na fronteira do México com os EUA são conhecidas pelas altas taxas de produção industrial visto o grande número de multinacionais que se instalam por lá em busca de benefícios fiscais e mão-de-obra barata, mas as mesmas áreas também carregam a fama de serem territórios perigosos e com grande concentração de atividades ilegais. Uma das cidades mais famosas da região é Juarez, local que já serviu como palco das ações de diversos filmes que procuraram denunciar os crimes que por lá ocorrem e são encobertos pela polícia e governantes. Drogas, prostituição, trabalho escravo, estupros e mutilações são alguns dos delitos comuns por lá, mas o longa Tráfico de Órgãos escancara mais uma chocante realidade. Como o próprio título deixa claro, o diretor Baltasar Kormákur explora a temática do comércio de órgãos humanos que chocantemente não se restringe a violentar cadáveres vítimas de morte natural. Para escancarar os podres deste submundo o roteiro de Christian Escario, John Clafim e Walter A. Doty III mantém o foco em um pai desesperado para salvar a vida de sua filha pequena. O promotor público Paul Stanton (Dermot Mulroney) está sofrendo com a piora do estado de saúde da garotinha que tem uma doença degenerativa pulmonar. O tempo para salvá-la está se esgotando e ele se revolta quando descobre que surgiu um pulmão compatível e que está aguardando em uma unidade hospitalar próxima a eles, mas segundo a lista de cadastrados a espera de um transplante o órgão deveria ser destinado a um garoto que se encontra em uma cidade afastada, correndo inclusive o risco de a doação perder a viabilidade. É nesse período que ele descobre que o político Jim Harrison (Sam Shepard) provavelmente furou a fila de espera e conseguiu um coração de forma ilegal, o que o faz viajar até Juarez em busca do médico que realizou esta cirurgia, mas parece que o tal Dr. Navarro é uma lenda. O que é realidade é que Stanton acaba se envolvendo com pessoas barra pesada, gente que está acostumada a tirar proveito dos visitantes e não pensa duas vezes se precisar matar alguém. Por outro lado, o promotor também encontra gente do bem como o médico Hector Martinez (Vicent Perez), um dos voluntários de um hospital dedicado a atender a população carente local. Todavia, este profissional pode não ser tão bonzinho assim e acaba fazendo uma proposta tentadora a Stanton para salvar sua filha, porém, se aceitá-la ele estará em meio a um conflito ético afinal alguns dos lemas de sua profissão é preservar ao máximo a verdade e não infringir leis. Contudo, caso pense em seu próprio bem-estar o promotor terá uma desagradável surpresa.

Bem, não convém dizer qual o desfecho, mas fica o aviso de que Kormákur dá um belo de um soco no estômago do espectador. Tráfico de Órgãos obviamente não é um título de grandes plateias e foi lançado sem alardes, o que é uma pena já que a temática é universal. Segundo o longa, só nos EUA a procura por órgãos chega a ser dez vezes maior que a oferta, um nicho e tanto a ser explorado pelo crime organizado, ainda mais porque os envolvidos ao que tudo indica agem sem medo de qualquer tipo de repreensão. O aspecto sujo e arenoso das imagens pode desagradar a muitos, mas combina muito bem com a temática ríspida que certamente deve mexer com o emocional até dos mais insensíveis. É perturbador ver que hoje em dia ética é um conceito quase em extinção, admitir que governantes e pessoas ligadas a área de saúde cometam crimes e fiquem impunes, perceber o quanto o ser humano pode ser egoísta e cruel e ainda constatar que continuam existindo lugares paupérrimos no mundo onde as pessoas vivem como animais literalmente esperando a hora de seus abates. O comércio clandestino de órgãos é praticamente um ato de canibalismo cujas principais vítimas são aquelas mais miseráveis. Se estiver sozinho no mundo ou não tiver expectativas para o futuro, quem se importaria com o sumiço de alguém nestas circunstâncias? Por outro lado é possível viver em paz sabendo que seu bem-estar provém do sofrimento de outra pessoa? Com estilo narrativo enxuto e sustentado em cima de uma série de denúncias, o longa serve como um registro de um período e um lugar peculiar onde realmente vale tudo por dinheiro. É muito bom ver que um filme aparentemente sem atrativos no final das contas se revela uma grande produção em termos de conteúdo, mas é uma pena que trabalhos do tipo acabem sumindo em meio aos blockbusters, muitos deles de qualidade duvidosa, ainda mais hoje em dia em que as salas de cinema praticamente só cedem espaço a títulos que carreguem sons e imagens de ponta (a praga do 3D). Por mais que se fale no fim das locadoras, são produções como esta que ainda alimentam a esperança de quem persiste neste ramo. Sim, tem muita coisa boa que só é lançada em DVD e se não tem aquele atendente para te dar um toque passam despercebidas. Eis aqui um belo exemplo, um filme-denúncia extremamente eficiente e que certamente fará o espectador refletir por muito tempo, se sentir no lugar do protagonista e imaginar o que faria em uma situação semelhante afinal de contas ninguém está livre de viver um problema do tipo e órgão compatível não se compra em qualquer esquina. Bem, há controvérsias. Em Juarez tal ironia pode fazer sentido.

Drama - 83 min - 2010 

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