sexta-feira, 27 de junho de 2014

MUDANÇA DE HÁBITO 2 - MAIS LOUCURAS NO CONVENTO

NOTA 6,0

Com pouco a ser explorado do
argumento original, longa tenta
manter o nível de humor, mas esbarra
em protagonista domada e emotiva
Produções de humor costumam render continuações, mas para tanto é preciso entender um pouco de matemática. Somam-se os lucros totais de bilheterias e mídia doméstica, às vezes é necessário até adicionar na conta os dividendos da venda para canais fechados e abertos, e então se subtrai o quanto a produção custou. Tendo um resultado razoavelmente positivo aí sim é possível que produtores e demais interessados se reúnam para estudar a possibilidade de um desdobramento da obra original. Muitos filmes tem potencial para tanto, mas a demora para se fazer essas estatísticas de sucesso e problemas para reunir novamente o mesmo elenco acabam jogando por água abaixo as intenções. Mudança de Hábito 2 – Mais Loucuras no Convento é um caso raríssimo. Parece que os produtores confiavam tanto no sucesso do primeiro que nem esperaram seu lançamento para trabalharem em cima de um novo filme. A sequência foi lançada em tempo recorde, cerca de um ano depois, mantendo os principais nomes do elenco mesmo com a mudança de direção. Bill Duke assumiu a vaga de Emile Ardolino que faleceu exatamente em 1993, mas o diretor já estava descartado do projeto talvez por conta dos boatos de que a estrela Whoopi Goldberg enfrentou muitos problemas de bastidores nas filmagens anteriores. Sem a neguinha, sem filme. Para vestir novamente o hábito da irmã Mary Clarence ela ganhou uma pomposa quantia de milhões de dólares, mas isso não impediu que Maggie Smith, Kathy Najimi e Wendy Makkena reasumissem seus papéis mesmo com pagamentos bem menores. Partindo de onde o primeiro filme acabou, Deloris Van Cartier (Goldberg) obviamente não poderia seguir carreira religiosa e não iria mudar completamente seu jeito de ser tocada por uma luz divina (bem, há que acredite em milagres do tipo), mas sua passagem pelo convento não foi em vão. Agora ela se dedica a shows em Las Vegas cantando músicas gospel vibrantes e até suas amigas freiras fazem questão de ir prestigiá-la, mas não vai demorar muito para ela trocar seu hábito purpurinado pelo tradicional. Ela é convidada pela Madre Superiora (Smith) para que passe a ensinar canto em uma escola religiosa para uma turma de alunos indisciplinados. A ideia é que o jeito despojado da cantora facilite a comunicação e ajude os jovens a voltarem a se interessar pelos estudos.

Sem reclamar muito, Deloris volta a encarnar a irmã Clarence e se depara com uma turma osso duro de roer, todos jovens que vivem em bairros pobres e descrentes de que a educação pode lhes oferecer um futuro melhor. Tyler (Christian Fitzharris) é o jovem bajulador e sarcástico da turma; Richard (Ron Johnson) prefere desenhar durante as aulas; Westley (Ryan Toby) é meio complexado por ser negro, mas defende a cultura black como ninguém; Frankie (Devin Kamin) é o branquelo metido a rapper da classe; e, por fim, Rita (Lauryn Hill) é a adolescente valentona e sem papas na língua. Contrariando expectativas, Clarence chega à sala de aula tentando colocar ordem na bagunça, mas para alunos que acreditam que basta responder a chamada já é o bastante para justificar sua ida à escola, todos acreditam que ela não vai aguentar muito tempo. Logo começam as previsíveis e típicas brincadeiras para enlouquecer qualquer educador e até a Madre avisa a falsa-freira que ela compreenderá caso resolva desistir de colaborar afinal ela própria tem consciência de que o mundo adornado de luzes e paetês é bem mais agradável de ver do que aquele cotidiano triste em que adolescentes se afundam dia após dia diante da falta de perspectivas melhores para suas vidas. A cantora estava prestes a desistir, mas uma notícia lhe fez pensar melhor. O Padre Maurice (Barnard Hughes) está com problemas para manter a escola, a única do tipo religiosa oferecida gratuitamente à comunidade, mas a queda no número de doações pode complicar sua manutenção. Além disso, o Sr. Crispi (James Coburn), o dono do prédio em que ela funciona, quer derrubá-lo para ceder o terreno a um estacionamento e até aconselha o padre a se aposentar. Até então o diretor desconhecia o passado pecaminoso da professora de música, mas a Madre o convence a permitir que ela continue na instituição até o seu fechamento, pelo menos assim os últimos dias seriam mais alegres. Para honrar os votos de confiança, ela e as demais professoras fazem um pacto de tentar oferecer o melhor ensino possível independente de quanto tempo teriam, mas os alunos mostram-se resistentes ao repentino regime disciplinar. As coisas começam a mudar quando Clarence começa a conversar de igual para igual, mostrando que compreende o universo dos alunos e os incentiva de que podem ser pessoas boas desde que cada um construa sua própria personalidade e busquem objetivos a cumprir. A música então se torna o principal instrumento para essas transformações.

Clarence descobre que no passado o colégio tinha tradição de vencer concursos regionais de música, mas com o tempo isso acabou sendo esquecido. Ela então convence o diretor a participarem mais uma vez. Se perdessem a instituição encerraria sua trajetória de modo digno, mas haveria a chance de com a projeção do evento os fiéis voltassem a fazer doações e a arquidiocese voltasse atrás na decisão. Procurando não desrespeitar o enredo original, os roteiristas James Orr, Jim Cruickshank e Judi Ann Mason até realizam um trabalho acima da média para uma sequência já que geralmente elas costumam decepcionar bastante. O problema é que aqui temos bem menos situações de humor e um apreço maior pelo drama. Por exemplo, a rebelde Rita surpreende e demonstra muito talento vocal e Clarence procura incentivá-la a se dedicar ao coral da escola e até lhe dá um livro para ajudar a aumentar sua autoestima. Com tanto apoio, a garota aos poucos começa a ser domada, mas o roteiro então passa a focar as razões de ela ser tão arredia. Florence Watson (Sheryl Lee Ralph), sua mãe, trata de desestimular os sonhos dela dizendo que música não traz futuro aos pobres. O próprio bairro em que vivem não estimula os jovens a sonharem, mas ainda bem que o diretor não vai muito além do necessário para compreendermos o conflito. Sabemos o quanto a realidade das periferias é dura e que a tendência é que adultos com vidas sofridas passem a mesma impressão negativa às novas gerações. É uma pena que nem sempre encontramos uma mão amiga para evitar que nos afundemos na lama. Talvez essa pegada melancólica tenha sido o grande problema de Mudança de Hábito 2 – Mais Loucuras no Convento que não corresponde as expectativas de quem esperava mais uma esfuziante interpretação de Goldberg. São poucos os momentos realmente engraçados, como a apresentação que as freiras fazem no meio da rua para arrecadar dinheiro ou uma rápida piada envolvendo a atriz Sally Field que interpretou a protagonista do seriado “A Noviça Voadora”. A produção de forma alguma é desprezível, pelo contrário, pode ser rotulada confortavelmente como um legítimo filme-família ou clássico vespertino da TV. Até os momentos piegas são toleráveis, mas a mudança de comportamento de Deloris incomoda. Seu egocentrismo e espírito crítico foram suplantados por uma benevolência assustadora. Ela sendo a alma da história, é justificado o porquê desta segunda parte não ter repetido o sucesso financeiro e de avaliações e abortado a possibilidade de um terceiro episódio.

Comédia - 98 min - 1993 - Dê sua opinião abaixo.

Um comentário:

Silvia Freitas disse...

Este filme até é legalzinho, mas o primeiro é muito melhor.

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