quarta-feira, 5 de outubro de 2022

ONDE VIVEM OS MONSTROS


Nota 7 Obra usa a fantasia para narrativa repleta de significados e belo visual, mas com ritmo lento 


Existem filmes que são difíceis de serem classificados em um gênero específico, ainda mais quando existe um improvável casamento entre o enredo e o aspecto visual da fita. Um bom exemplo é Onde Vivem os Monstros, produção dramática travestida de fantasia cujas imagens podem chamar a atenção das crianças, porém, a decepção delas é praticamente uma certeza, quiçá tal sentimento também se manifeste entre os adultos. Este filme pode ser encarado como um projeto experimental ou simplesmente como uma continuidade do estilo do cineasta Spike Jonze, um apreciador de histórias criativas e complexas e, neste caso, quis explorar o universo infantil, mas obviamente a seu modo particular. Seguindo um conceito na linha de O Labirinto do Fauno, o diretor adentra na mente de um garoto problemático que encontra refúgio em um mundo imaginário para esquecer-se de suas angústias. A trama roteirizada por Jonze em parceria com Dave Eggers tem como protagonista Max (Max Records), um garoto que parece se sentir um peixe fora d’água, principalmente após o divórcio dos pais. O início tumultuado e a câmera propositalmente trêmula fazem alusão ao seu comportamento hiperativo, possivelmente uma tática para chamar a atenção. Aproveitando a neve no quintal, ele constrói um iglu e sua euforia por tal feito reflete sua necessidade de respirar novos ares e de ser notado, pena que tal alegria dura pouco e termina por pura maldade. 

A mãe do garoto, Connie (Catherine Keener), tenta lhe dar atenção, mas também tem sua vida para tocar e quando recebe em casa um amigo, Adrian (Mark Ruffalo), não tolera a indisciplina do menino e o repreende severamente. Max, vestindo uma fantasia de lobo como parte do plano para provocar, acaba fugindo de casa e magicamente pega carona em um barco que o leva a enfrentar o vasto oceano e suas ondas traiçoeiras até chegar a uma misteriosa ilha. Explorando o local, ele encontra uma comunidade de monstros que observa a distância, mas quando descoberto ele tira proveito de sua lábia e mente fértil para convencê-los que não pode ser devorado por ser dotado de poderes mágicos, o que o faz ser confundido com o líder que eles tanto aguardavam. Sua grande tarefa é evitar que a tristeza tome conta do lugar, assim ele passa a criar uma série de brincadeiras e situações para mantê-los entretidos torcendo para que sua mentira não seja descoberta. O longa é baseado no livro "Where The Wild Things'', de Maurice Sendak, mas isso não impediu Jonze de exercitar sua criatividade. O material original é caracterizado pela economia de texto (surpreendentemente apenas 338 palavras) e riquíssimas ilustrações cheias de significados implícitos para contar a história do menino deprimido que desejava muito estar em algum lugar onde realmente alguém gostasse dele. Dessa forma, cada leitor vive uma experiência diferenciada, pois pode imaginar sua própria versão do conto, algo que também pode acontecer com sua adaptação cinematográfica, ainda que de forma mais modesta. 


Ousado, inteligente, criativo, soturno, arrastado, tolo, infantil... As opiniões variam. A única unanimidade é assumir que Jonze foi corajoso, pois não é fácil convencer um estúdio a bancar um projeto que claramente não tinha força para arrecadar milhões, mas estavam em jogo outros interesses que vão além do lado comercial. Patrocinar obras com pegada mais intelectual ou experimental ajuda em uma publicidade extra para as empresas, ainda que no caso transpareça a ideia de que esta é uma produção extremamente pessoal, quase como um capricho do diretor que quis literalmente viajar pela arte visual proposta por Sendak. Os roteiristas buscaram significados em cada ilustração do livro para traçar paralelos entre o mundo real e a terra imaginária e dotaram cada um dos monstrinhos de personalidade bem definida, que na verdade representam sentimentos humanos, a manifestação visual das confusas emoções vividas por Max em um momento de amadurecimento, mas também de medo de abandonar a infância completamente. É incrível como embarcamos facilmente nesta fantasia, talvez porque nos remeta a infância quando nosso melhor conselheiro em momentos difíceis provavelmente era algum bichinho de pelúcia que nos ouvia pacientemente e sempre tinha um sorriso sincero a nos oferecer. 

É a partir do contato de Max com os monstros que a história vai ganhando contornos mais complexos abordando temas como inveja, rejeição, consideração ao próximo, escolhas e senso de justiça. Dessa forma, os demais personagens não são meros enfeites para enaltecer o visual do longa, pelo contrário, cada um terá grande importância para o protagonista reavaliar suas emoções. Não é a toa que ele se identifica imediatamente com o impulsivo Carol (James Gandolfini) que, sentindo-se traído por KW (Laure Ambrose), tem um acesso de raiva e começa a destruir tudo o que vê pela frente, comportamento explosivo parecido com o de Max quando viu a mãe com um possível namorado. O bode carente Alexander (Paul Dano), a agressiva Judith (Catherine O’Hara), o solidário Douglas (Chris Cooper), o melancólico Touro (Michael Berry Jr.) e o criativo Ira (Forest Whitaker) completam o time de figuras alegóricas como se fossem aquelas vozes que ouvimos em nossas mentes de vez em quando nos apontando o que é certo ou errado, sendo que KW é a responsável por ensinar ao garoto a essência do sentimento materno, o que obviamente o fará regressar de seu mundo de sonhos com aquela imensa vontade de abraçar sua mãe e finalmente demonstrar que a ama. 


Utilizando o mínimo possível de computação gráfica e apenas alguns bonecos animados, o estilo retrô dos monstrinhos, além de fiel as ilustrações do livro,  traz um charme todo especial à obra, uma identidade única em tempos de tantos produtos similares em termos visuais. Apesar da impressão dos seres fantásticos terem sido talhados com base em técnicas ultrapassadas, foram necessárias quase três décadas para que o livro fosse dignamente adaptado para as telas. Jonze foi escolhido para o projeto levando em consideração seu talento para trabalhar com situações anormais, além das modernas tecnologias disponíveis terem ajudado a despertar novamente interesse dos produtores. Apesar de todo apuro técnico e narrativa com conteúdo relevante e universal, é fato que Onde Vivem os Monstros não é para todos os gostos, sendo facilmente taxado como esquisito ou chato. O diretor foi obrigado a fazer ajustes para equilibrar sua visão autoral com as necessidades de mercado. Corta aqui, adiciona ali, mas infelizmente o resultado não atingiu o grande público e até os críticos analisaram a obra com ressalvas. Todavia, as mensagens subliminares foram mantidas e Jonze faz seu passeio pelo universo infantil com olhar maduro. Não questiona que é um momento de alegrias e de experimentações, mas faz isso de forma a ressaltar que é o tempo de mostrar o que é certo ou errado, que as frustrações existem, que o respeito é necessário, que nossas ações e decisões podem interferir também na vida do outro, em suma, de forma lúdica mostra o quanto é difícil amadurecer ainda mais em tempos em que o próprio curso da vida exige tal crescimento cada vez mais cedo.

Drama - 100 min - 2009 

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