sábado, 28 de novembro de 2020

A NOITE DOS MORTOS-VIVOS (1990)


Nota 8,5 Refilmagem preserva o tom crítico de obra original com bem-vindas atualizações na trama


Em 1968, o então estreante George A. Romero revolucionou o cinema de horror com um clássico envolvendo zumbis, um projeto de baixo orçamento e filmado em preto e branco. Elevado a clássico, o longa inspirou e ainda inspira toda uma safra de produções do estilo, sejam de pura diversão ou de inteligentes metáforas envolvendo a relação de humanos com corpos decrépitos relacionando o conflito com questões sociais. O subgênero ganhou força nos anos seguintes, o que certamente impulsionou a refilmagem de A Noite dos Mortos-Vivos pouco mais de duas décadas depois e contando com o próprio pai da criatura envolvido na produção.  Romero já havia dirigido antes pelo menos dois outros filmes voltando à temática, mas ainda surgiram outras obras semelhantes, inclusive muitas sátiras colocando os zumbis comedores de carne humana como figuras atrapalhadas e facilmente derrotadas. Para o remake, a ideia era investir em algum elemento então contemporâneo para justificar sua realização e torná-lo mais ousado e interessante. O enredo é basicamente o mesmo do original escrito por John A. Russo e o próprio Romero se encarregou em apenas fazer alguns ajustes. Os irmãos Barbara (Patricia Tallman) e Johnnie (Bill Morley) viajam para uma cidade no interior dos EUA para visitar o túmulo da mãe e no caminho o rapaz a atormenta com histórias e piadas envolvendo mortos que voltam à vida. Eis que ao chegar no cemitério a dupla é surpreendida por um homem de aparência beirando o grotesco, mas não entendem de imediato a visão até que o jovem é atacado violentamente e acaba morto. 

Barbara consegue escapar e segue até uma residência próxima, porém, lá dentro enfrenta um outro ataque violento por parte de Tio Rege (Pat Logan), o dono do imóvel também já transformado em zumbi. Logo não demora a chegar à propriedade Ben (Tonny Todd), um homem que também busca refúgio e ajuda a moça a se defender dos mortos-vivos espertos o bastante para serem atraídos até o local farejando o cheiro de carne humana. No porão eles descobrem escondidos o intransigente Harry (Tom Towles), sua esposa Helen (McKee Anderson) e a filha Sarah (Heather Mazur), esta ferida com uma mordida no braço, e também o jovem casal Judy Rose (Katie Finneran) e Tom (William Butler), este sobrinho do dono da casa. O grupo então se une para tentar barrar a invasão dos zumbis, porém, isolados no meio do nada e sem possibilidade de fuga, instaura-se um perturbador clima de claustrofobia entre eles que ainda precisam lidar com os inerentes problemas de relacionamento que surgem entre um grupo de personalidades diversas e a maioria sem qualquer vínculo um com o outro, fatores negativos que podem empurrá-los para a morte. Conservando a espinha dorsal da trama, o diretor Tom Savini, estreando no cargo após ganhar fama como maquiador em fitas de horror, fez algumas poucas alterações no tratamento dado a alguns personagens, como colocar um negro na posição de herói e transformar a mocinha indefesa em uma mulher que assume a linha de frente de batalha tomando decisões e assumindo riscos. 

Um ponto que incomodava muito Romero em sua obra-prima era o fato de ter buscado uma explicação lógica para a ressurreição dos mortos. A justificativa era de que a radiação trazida por uma sonda espacial acabou reativando os cadáveres que voltam à vida com o único objetivo de saciarem a fome e exterminarem os vivos. Na readaptação isso foi abolido, resumindo o assunto a uma notícia de telejornal avisando sobre a invasão inexplicável de mortos-vivos e orientando as pessoas a se isolarem e trancarem portas e janelas. Esse trabalho de reinterpretação de alguns ponto-chaves do argumento ajudaram o remake ter vida própria, ter fama por si só independente do conhecimento sobre o longa que o originou. Se na versão antiga o tom crítico vinha dos males que a guerra no Vietnã e outros conflitos trouxeram às sociedades, a atualização também não dispensa colocar o dedo em feridas, ainda que em tom de deboche invertendo papeis na conclusão. Em alusão a conflitos raciais, razão pela qual tal desfecho foi descartado na produção anterior, o clímax é marcado pelos zumbis nos papeis de vítimas e os humanos livres de qualquer tipo de amarras para cometeram atos de vilania e sadismo contra aqueles que antes os caçavam. Não se trata do Bem vencendo o Mal, mas sim mostrar que os mais fortes não hesitam em impor sua soberania. O grande mérito da produção, contudo, foi fugir das gratuidades do horror explícito para se concentrar na relação conflituosa entre humanos e zumbis expostos a uma situação limite e suas consequências.

Esqueça vísceras, pus e sangue em profusão. Responsável por algumas das caracterizações mais horrendas do cinema, como as de Despertar dos Mortos e Sexta-Feira 13, Savini acumulava também experiência como fotógrafo de guerra, assim trazendo aos seus trabalhos um pouco das visões horrendas que presenciou. No entanto, aqui foi econômico na violência gráfica e para mostrar corpos em decomposição, apontando mudanças consideráveis para o gênero, mas na verdade não seria um movimento natural. A censura da época impôs essa limpeza de imagem, digamos assim. Muitas cenas perturbadoras tiveram que ser excluídas ou alteradas na edição final para o filme poder ser lançado sem criar tanto repúdio e alcançar um público maior. Nem por isso o que é apresentado frustra aos amantes de bizarrices e putrefações. Usando maquiagem e trucagens mais sofisticadas, a questão visual justifica o porquê da realização de um remake de um clássico considerado absoluto. No entanto, a sedutora ideia de contar a mesma história agora em cores não desvaloriza o original e o remake A Noite dos Mortos-Vivos honra sua memória e preparou terreno para novas gerações aderirem ao subgênero do terror de zumbis atualizando a trama e adequando o ritmo à frenética década que se iniciava. Savini surpreende com uma direção madura que valoriza a interpretação do elenco e aposta em sequências longas de diálogos e cortes rápidos nas cenas de embate para aumentar a tensão. 

Em luta constante pela sobrevivência, os personagens ainda enfrentam a intolerância que paira no ar dentro da própria casa que serve como refúgio. Inicialmente, os personagens não entendem o que está acontecendo e ficam especulando sobre as possíveis razões de cadáveres saírem de seus túmulos, atribuindo o fenômeno à bizarra ideia de uma suposta fuga de prisioneiros ou a mais aceitável possibilidade de alguma contaminação química do solo. Os mortos-vivos de certa forma funcionam como uma metáfora a um poderoso vírus. O problema não é somente eles voltarem à vida desprovidos de razão e tomados de instinto de sobrevivência, mas principalmente o fato de que cada vítima que fazem é mais um zumbi para a entrar nas estatísticas. Atemporal, perturbador e divertido, é uma obra que merece ser vista e revista, podendo ainda encontrar conexões com conflitos da atualidade, afinal parece que cada vez mais as sociedades assimilam comportamentos de zumbis, agindo unicamente em prol da sobrevivência individual e não segurando impulsos.

Terror - 92 min - 1990

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