terça-feira, 13 de novembro de 2012

TERROR EM AMITYVILLE

NOTA 6,0

Apesar de contar com argumento
impactante terror pouco causa
sustos, preferindo sugestionar o
medo, mas narrativa é bem frágil
Filmes sobre casas assombradas existem aos montes, mas poucos resistem a ação do tempo. Terror em Amityville é um dos poucos títulos do tipo que ainda permeiam a memória de alguns fãs de terror. Nos tempos do VHS conhecido como Amityville – A Cidade do Horror, o longa dos anos 70 ainda exerce certo fascínio devido ao relativo sucesso da refilmagem lançada em 2005, Horror em Amityville, e também pelo fato de ser inspirado em uma impactante tragédia real envolvendo ocultismo. Localizada em Long Island nos EUA, a história desta casa ficou mundialmente famosa na época e foi perpetuada com o passar dos anos. O roteiro é baseado no best seller homônimo de Jay Arson, que contava relatos supostamente reais de experiências assustadoras vividas por uma família que ousou morar na mesma residência onde um ano antes, em 13 de novembro de 1974, Ronald Defeo Jr. matou a sangue frio os pais e os irmãos alegando ter agido guiado por vozes misteriosas. O livro frequentou as listas dos mais vendidos e aterrorizou vários leitores durante muito tempo, assim obviamente chamou a atenção de produtores de cinema que buscavam um candidato para duelar com o sucesso de O Exorcista que continuava imbatível. O roteiro de Sandor Stern capta a essência da obra literária, no entanto, adiciona diversas modificações ou invenções para torná-lo mais aterrorizante. Os créditos iniciais ilustrados pela fachada da casa com duas grandes janelas no alto refletindo luzes vermelhas já enfatizam que o local possui forças demoníacas, algo comprovado logo em seguida mostrando os assassinatos dos Defeo rotulados como um fatídico episódio. Alguns meses depois, embalados pela felicidade da recente união, Kathy (Margot Kidder) e George Lutz (James Brolin) se entusiasmam em comprar a tal residência oferecida por uma pechincha, mesmo sabendo das mortes que ocorreram por lá. Com três enteados pequenos para criar, o marido acredita que outro casarão tão espaçoso como esse e a um preço tão baixo não conseguiriam encontrar e, acima de tudo, construções não tem memória, o que passou entre aquelas paredes em nada iria interferir a rotina feliz dos novos moradores. Ledo engano. A própria corretora mostra-se incomodada com a atmosfera do lugar que parecia já acumular má fama, tanto que o Padre Malone (Rod Steiger) surge para abençoar o recinto. Sem querer atrapalhar um momento de diversão dos Lutz, o religioso, que já era aguardado, entra de mansinho na casa, prepara seu material de benção, mas rapidamente passa a ser afrontado por vozes sinistras que pedem sua saída e é atacado por insetos que o fazem adoecer gravemente.

A família nem percebe a visita do padre, mas aos poucos acreditam que a reza fez falta. Enxames de moscas, vultos e ruídos de janelas e portas que se fecham sozinhas começam a perturbar a vida dos moradores, além da irritante ideia de que a caçula mantém contato com uma amiga imaginária possessiva. No entanto, o patriarca é o mais afetado pelos eventos inexplicáveis. Sua disposição para o trabalho braçal para transformar a nova moradia em um aconchegante lar pouco a pouco vai sucumbindo à preguiça e a irritação. Mesmo assustados, o casal ainda busca explicações racionais para tudo o que está acontecendo, mas tudo leva a crer que forças ocultas estão agindo no local e talvez até tenham atraído George já que alguns moradores da região se espantam com a semelhança física dele com o assassino dos Defeo. E é assim, entre um susto aqui e outro acolá, que o diretor Stuart Rosenberg tentou guiar sua narrativa por quase duas desnecessárias horas. Talvez tentando manter o realismo, fazendo jus a sua publicidade, o cineasta acabou criando uma obra limitada que prefere sugerir o horror ao invés de apresentá-lo graficamente e quando o faz derrapa feio. Os poucos efeitos especiais, já pouco críveis para a época, quebram o clima e acabam provocando risos. Por outro lado, a atmosfera soturna alcançada pela cenografia, iluminação e fotografia compensa qualquer escorregão visual, mas não narrativo. O roteiro apresenta algumas situações isoladas que em nada acrescentam à trama, como a visita de uma freira, tia de Kathy, que vem para visitá-los, mas não consegue ficar nem cinco minutos dentro da casa, fugindo apressadamente e parando no meio da estrada para vomitar. Depois disso simplesmente ela some. Outra cena mostra o casal se preparando para ir a uma festa de um afilhado que percebe na última hora que está sem dinheiro, porém, jurava que guardou algumas notas no bolso. As assombrações teriam escondido a grana? O fato é irrelevante, assim como gastar alguns minutos mostrando a insossa festa, tudo para haver um motivo para os filhos dos Lutz ficarem sozinhos em casa com uma babá que também é vítima de uma trucagem do além, diga-se passagem, cena bem melhor realizada em sua refilmagem. Costumamos rotular remakes como caça-níqueis, mas neste caso se ele não é excepcional ao menos oferece o que seu original nega: bons sustos, mesmo que oriundos de situações previsíveis e pré-anunciados pela trilha sonora estridente. Apesar de toda aura de mistério a seu dispor, Rosenberg parece não saber o que fazer. Uma janela que abre sozinha aqui, uma cruz invertida ali, a bonequinha que parece mudar de lugar por conta própria e assim ele vai conduzindo o espectador até um final anticlimático. Aquela expectativa de um grande susto jamais chega, nem mesmo para arrematar a história.

Ainda bem que pelo menos a loucura de George trata de ainda prender a atenção. O gancho lembra muito ao argumento principal do clássico O Iluminado, de Stanley Kubrick lançado um ano depois, mas não é tão bem desenvolvido. O cultuado cineasta era conhecido pelo perfeccionismo, assim suas obras demoravam anos para serem finalizadas e a coincidência do tema de um pai enlouquecido tentando matar a própria família em um casarão isolado poderia caracterizar um episódio de espionagem de bastidores, mas aí seria encher demais a bola de Terror em Amityville que já leva crédito pela nostalgia que oferece, ser o carro-chefe de uma das mais marcantes franquias de terror do cinema e ainda cativar novos fãs curiosos já que a tal casa continua de pé e há anos desabitada. Os Lutz teriam a ocupado por apenas 28 dias, a abandonaram às pressas e seus pertences jamais foram reivindicados, embora boa parte da mobília fosse exatamente a mesma que os Defeo usaram, o que reforça teorias de que os bens materiais captam energias. Anos mais tarde, outra família viveu no local por mais de uma década e aparentemente sem qualquer tipo de problemas. Seja a casa amaldiçoada ou apenas uma triste coincidências entre os seus primeiros habitantes, mas é uma pena que uma proposta tão boa não tenha se tornado um grande filme. Sem a visão de almas penadas ou violência explícita, toda a carga de suspense deveria ser carregada pelos personagens, mas fica um pouco difícil acreditar que pessoas em sã consciência ignorariam tantos eventos misteriosos. Apesar de todos os boatos, a insônia do marido com hora marcada (às 03h15min da manhã, mesmo horário em que a chacina dos Defeo começou) e a própria Kathy que corriqueiramente tinha pesadelos com as tais mortes, a matriarca só vai em busca de informações a respeito dos eventos macabros quando o longa já está na reta final. A correria então entra em cena para envolver o espectador e fazê-lo esquecer de se questionar o porquê da possessão do protagonista. O roteiro apresenta uma desculpa esfarrapada para as energias negativas que impregnam naqueles que ousam colocar os pés lá dentro, mas não explica a razão de outras pessoas ficarem imunes. A construção dos personagens também é falha. Sabemos o mínimo da família, mas parece que todos, até mesmo o Padre Malone, só estão na história em função dos sustos, não havendo bases sólidas sobre suas personalidades ou objetivos. Aproveitando uma trilha sonora desprezada pelo diretor William Friedkin para o citado O Exorcista e também buscando reforçar o lado religioso da questão, este terror pode não ser tão impactante hoje em dia, mas ainda consegue causar alguns calafrios, principalmente para quem conseguir transportar sua mente para os anos setentistas e tentar compreender o impacto de tudo o que envolve o famoso casarão de Amityville.

Terror - 118 min - 1979 - Dê sua opinião abaixo.

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