segunda-feira, 26 de julho de 2021

TITUS


Nota 6 Adaptação de obra pouco conhecida de Shakespeare é proporcionalmente criativa e chocante


Willian Shakespeare ganhou fama com histórias que retratavam conflitos comuns a sua época, todavia, temáticas atemporais que até hoje inspiram adaptações de suas obras. Carregadas de poesias, suas tramas eram marcadas por diálogos propícios para serem declamados com altivez e a linguagem retórica escamoteava inteligentes metáforas e conceitos. "Hamlet", "Sonho de Uma Noite de Verão" e "Romeu e Julieta" são algumas de suas maiores obras e que renderam lucros à indústria de bens culturais com suas diversas versões para o cinema, teatro e televisão. E sobre a experiência do autor desbravando o antigo Império Romano, o que dizer? Poucos sabem dessa particularidade da carreira do escritor, mas o filme Titus pode servir como justificativa para o romance sofrer com o ostracismo. Shakespeare declaradamente era chegado a uma tragédia, mas neste trabalho superou-se e criou uma alucinante e angustiante trama que aborda questões psicológicas e comportamentos, sem dúvidas uma das mais sangrentas e cruéis que escreveu, sem esquecer o fator sexual que motiva boa parte dos personagens. Baseado em "Titus Andronacius", o longa marca a estreia na direção de longas-metragens de Julie Taymor, também roteirista e que já havia dirigido em 1994 a adaptação teatral do texto. Foram cinco anos dedicando-se ao material para levá-lo às telonas, mas sem perder o clima de encenação. 

Anthony Hopkins dá vida ao personagem-título, um general romano que volta à sua terra natal após derrotar inimigos do Império. Tamora (Jessica Lange), a rainha de um povo inimigo, os godos (bárbaros que dariam origem ao povo germânico), o acompanha neste retorno. Ela é sua prisioneira, assim como seus três filhos, e para vingar a morte de seus herdeiros e soldados Titus decide assassinar o primogênito dela e faz questão de queimar suas vísceras em público. Com o imperador morto e como prova de gratidão por seus esforços há mais de quatro décadas, o irmão do general, o presidente do senado Marcus (Colm Feore), o indica para assumir o cargo de governante de Roma, mas o valente prontamente recusa a honra e a cede para Saturninus (Alan Cumming), o filho mais velho do antigo monarca. O novo governante romano deseja se casar com a filha de Titus, a bela Lavinia (Laura Fraser), mas a moça já se relaciona com o irmão dele, Bassianus (James Frain). Sentindo-se ameaçados, o casal acaba fugindo e o afetado monarca, agora frustrado e com inveja da popularidade do ex-futuro sogro, decide se casar com Tamora apenas por pirraça, mas um plano que vem a calhar para ela que amargava a morte de seu filho. Unidos eles se sentem mais fortes para travarem uma intensa guerra contra Titus e sua família, situação que ganha reforço com Aaron (Harry Lennix), o amante da rainha. 


Muitas reviravoltas e personagens secundários ajudam a rechear a produção de quase três horas marcada por mortes, carnificina e sanguinolência proporcionais a de um filme de terror pesado. Entre uma violência e outra, versos filosóficos são declamados com entusiasmo a fim de propor reflexões a respeito de família, poder, amor, honra, enfim, o ser humano como um todo e sua insignificância diante de uma sociedade literalmente canibalista. Fica o aviso aos que são fracos para bizarrices: é quase impossível não sentir nojo de comer alguma coisa que leve carne de imediato após desta experiência. Além de uma pesada e bem recheada torta feita de uma iguaria única, os vários corpos mutilados ou quebrados devem causar repúdio. A maioria das mortes é explícita, cada uma ocorre de forma mais original que a outra, além de existirem muitas cenas de orgia e não poderia faltar incesto. Jonathan Rhys Meyers e Matthew Rhys (sem qualquer tipo de parentesco apesar do sobrenome) fazem a alegria dos fetichistas de plantão interpretando respectivamente Chiron e Demetrius, filhos de Tamora, e protagonizam cenas quentes e bizarras. O ápice da trama ocorre em um jantar secretamente antropofágico e que culmina em puro masoquismo e loucura, mas a essa altura quem sobreviveu a tudo que veio antes certamente já estará acostumado. Taymor mostra ousadia e nenhuma preocupação de agradar as massas. Seu objetivo simplesmente é servir à arte e se o material original permite explorar tabus e escatologias à vontade por que não se arriscar? O resultado realmente surpreende, tanto negativa quanto positivamente.

Quem espera ver uma aventura épica tradicional pode demorar um pouco a entender a proposta de mesclar o antigo e o novo, além de em alguns momentos parecer estarmos vendo um teatro filmado. Logo no início, na época contemporânea (1999, ano das filmagens), um garoto (Osheen Jones) aparece tranquilamente brincando com seus bonecos em cima de uma mesa, mas do lado de fora da casa uma bomba explode e ele é resgatado por um homem que o carrega até o porão. O menino então vai parar no centro de um gigantesco anfiteatro como os da Roma antiga e logo passa a ser cercado por centenas de soldados trajando pesadas armaduras e marchando de forma opulenta. Em seguida, motos e tanques de guerra invadem o cenário que rapidamente os agrega com perfeição, assim oferecendo uma plasticidade chamativa. A criança então se transforma em um personagem observador da história, Lucius (na vida adulta interpretado por Angus Macfadyen), o neto de Titus, este que passa a narrar parte do histórico de vida de sua família. Buscando ser original, Taymor tenta fundir o passado a alguns elementos do presente como, por exemplo, jovens com linguajar rebuscado jogando videogames, mas o resultado final não é lá muito satisfatório e facilmente o espectador pode perder o fio da meada ou se irritar com tantas liberdades artísticas. A ideia seria mostrar que apesar de separados por séculos, nos dias de hoje os seres humanos continuam repetindo erros e com a mentalidade tão tacanha quanto seus ancestrais. 


Como era um projeto bastante pessoal, a diretora teve o cuidado de preparar os atores e equipes técnicas para submergirem neste universo tão particular a fim de evitar que o trabalho ficasse caricatural. Workshops foram feitos para explicar a fusão do conteúdo histórico a elementos atuais e o elenco ensaiou por semanas para perderem sotaques e se familiarizarem com comportamentos e linguajar arcaicos. O resultado em termos de interpretações é bastante satisfatório, mesmo com diálogos rebuscados que deixam os personagens pesados. Estão todos tão a vontade que detalhes como a rainha que fuma cigarros ou o monarca que veste roupas de grife podem passar despercebidos. Aliás, os figurinos originalíssimos foram merecidamente indicados ao Oscar, criações que se tornam um atrativo a parte, mas em alguns momentos salvam a fita do marasmo. Titus sofre com sua duração excessiva, sendo que alguns cortes poderiam ter sido feitos nas sequências que apresentam os planos do protagonista em barrar a vingança de sua desafeta. De qualquer forma, é uma produção que vale uma conferida pela criatividade, mas é certo que até entre os adeptos de obras alternativas um mínimo de estranhamento é inerente.

Drama - 168 min - 1999 

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