quarta-feira, 11 de novembro de 2020

FANTASMAS DO PASSADO (2017)


Nota 4,5 Ritmo lento prejudica horror sobrenatural islandês que foge dos clichês de Hollywood 


De alguns países só tomamos conhecimento que existe produção cinematográfica quando por ventura algum título chega a ser indicado ao Oscar ou algum outro prêmio,  geralmente dramas, mas ainda assim por vezes tais produções não chegam a estrear no Brasil. Se já é difícil recebermos algum filme oriundo da Islândia, que dirá quando ele é um suspense. Só pelo fator do ineditismo já vale uma espiada ao menos por curiosidade em Fantasmas do Passado, que apesar do título genérico se esquiva dos clichês hollywoodianos do gênero. Inspirado em um romance de Yrsa Siguròardóttir, o filme se inicia com a descoberta do corpo de uma senhora septuagenária enforcada em uma capela desativada, fato que intriga o ex-legista Freyr (Jóhannes Haukur Jóhannesson) que acompanha a remoção do cadáver. Agora ele exerce a profissão de psiquiatra, mas com poucos habitantes na região ele seria o único capacitado a realizar a autópsia. 

A tal igreja foi destruída possivelmente por um ataque de fúria da própria suicida que teria profanado o local momentos antes. O médico tenta confortar o marido da falecida, mas ele mesmo tem dificuldades para lidar com uma tragédia pessoal cujas memórias vem à tona com tal situação. Seu filho Benni (Gudni Geir Jóhannesson) desapareceu três anos antes, fato que culminou no término de seu casamento e também em sua autodestruição. Em outra parte da ilha, Katrin (Anna Gunndís Guòmundsdóttir) e Garòar (Thor Kristjansson) juntamente com Lif (Ágústa Eva Erlendsdóttir), uma amiga do casal também abalado pela perda do primeiro filho, decidem comprar e reformar uma casa abandonada há décadas com o intuito de transformar numa hospedaria para turistas. No entanto, a residência fica em um lugar inóspito, sem grandes atrativos e até desprovido de sinal de celular. Não demora muito para Katrin começar a ter estranhas visões como se o ambiente tivesse uma presença maligna querendo expulsá-los. Isso começa a acontecer depois que ela encontra uma cruz jogada no riacho. 


São justamente cruzes os estranhos sinais que Freyr identifica marcados nas costas da senhora suicida. Com a ajuda de sua amiga Dagni (Sara Dögg Ásgeirsdóttir), ele descobre que tais indicações podem ter alguma relação com o sumiço de um garoto na mesma região há mais de meio século. Bernódus (Arnar Páll Haròarson) aparece numa antiga fotografia ao lado de colegas de escola que o perseguiam e humilhavam e coincidentemente todos acabaram como vítimas de acidentes fatais. Freyr então também começa a ser atordoado pelas visões de uma criança misteriosa que acredita ser seu filho desaparecido, assim como também poderia ser o menino da foto tentando se comunicar. Qual seria o significado das cruzes no sentido de unir estas duas tramas paralelas? Quem tem a resposta é o diretor Óskar Thór Axelsson que também assina o roteiro em parceria com Ottó Geir Borg. Seu filme funde diversos temas a uma narrativa que começa em dois pólos diferentes, mas termina convergida em um só. O interessante é que a solução dos enigmas está presente ao longo de toda a narrativa através de sutis sinais que passam despercebidos. 

O modo como a história do casal da pousada se conecta à da morte da idosa e do drama de seu investigador é o grande ponto de interrogação de Fantasmas do Passado tendo como elo um fator sobrenatural. Todavia, a conclusão pode não ser satisfatória gerando confusões, até porque o ritmo lento pode fazer a atenção do espectador se dispersar por diversas vezes. Não é um filme preocupado com rompantes de tensão e pavor, preferindo construir um clima claustrofóbico respeitando as características do próprio país. A Islândia é pequena, sóbria e parece um local parado no tempo, assim o diretor prioriza cenas do cotidiano para ilustrar o ritmo de vida de seus habitantes até para reforçar como a população local não reage bruscamente aos fatos violentos e estranhos que assolam a região há algumas décadas. A parte técnica ajuda bastante a narrativa ao priorizar nos cenários, figurinos e fotografia os tons frios que ajudam a passar uma sensação de insegurança, como se algo de ruim pairasse constantemente sobre o território islandês.


Apesar do esmero técnico para o aspecto visual estar em sintonia com a mórbida narrativa, a forma como a Islândia é apresentada pode prejudicar a real concepção do espectador. O país acaba reduzido a um microcosmo pouco chamativo em termos turísticos mostrando locais de difícil acesso e praticamente desabitados, o que também enfraquece o gancho a respeito de pessoas dispostas a investir em um negócio para atrair visitantes, mas um detalhe que não interfere no tema principal. Quem está acostumado e aprecia o estilo de horror feito em Hollywood certamente terá dificuldade para se entreter, mas para quem é disposto a experimentar conceitos diferenciados vale uma conferida sem grandes pretensões.

Suspense - 105 min - 2017

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