quarta-feira, 16 de setembro de 2020

A MALDIÇÃO DOS MORTOS-VIVOS


Nota 8,0 Longe de um tradicional filme de zumbis, enredo aborda crítica social, cultural e política 


Quem levar ao pé da letra o genérico título nacional pode se decepcionar bastante. A Maldição dos Mortos-Vivos não se trata de mais uma entre tantas produções dos anos 1980 a abordar cadáveres em estado de decomposição que se levantam de suas tumbas em busca de carne humana. As figuras dos zumbis estão presentes, mas de forma bem diferente. O diretor Wes Craven foi buscar inspiração em lendas haitianas que envolvem a magia negra e o vodu como rituais capazes de reavivar os mortos. Baseada em fatos reais, a trama se passa em 1985 e nos apresenta ao antropólogo americano Dennis Alan (Bill Pullman) que recebe uma tentadora proposta do empresário Andrew Cassedy (Paul Guilfoyle), dono de um laboratório farmacêutico, para investigar um mórbido caso no Haiti. Sete anos antes Christophe Duran (Conrad Roberts) foi dado como morto pelos médicos e até foi sepultado, mas agora haviam relatos de que este homem  estaria novamente caminhando entre os vivos, mas com aspecto estranho como se estivesse dopado. Alan segue de imediato para as terras pobres e misteriosas do Haiti e com a ajuda da psiquiatra Marielle Duchamp (Cathy Tyson), que trabalha num asilo para doentes mentais interessado nas verbas da empresa de remédios, o pesquisador inicia sua investigação e consegue se encontrar com o próprio Duran, assim entrando em contato com seitas religiosas que praticam rituais de vodu. 

Quando conhece Lucien Celine (Paul Winfield), um sacerdote que também dirige uma casa de diversões para turistas, Alan passa a ter estranhos pesadelos e também toma conhecimento de um poderoso composto químico utilizado como analgésico, mas capaz de simular a morte de uma pessoa paralisando seus movimentos corporais por algum tempo, mas mantendo sua consciência. Imagine o intenso sofrimento de alguém ter a noção de estar preso em um caixão e enterrado a sete palmos do chão, mas incapacitado de poder pedir ajuda. Quando o efeito da fórmula passa, a pessoa já está vivendo um lento processo de morte e  caso tenha a sorte de escapar da situação claustrofóbica e desesperadora é natural que não volte a ser como antes, assim justificando o estado de transe que evidencia. Fabricado por Louis Mozart (Brent Jennings), o tal pó químico é uma mistura de vários componentes exóticos aliados à rituais de feitiçaria e demora três dias e três noites para ser concluído. O problema é que essa mistura capaz de matar por algumas horas e ressuscitar as pessoas sem que jamais voltem a ter o vigor de antes é a peça principal do poder de intimidação da polícia secreta e sanguinária  atrelada ao governo haitiano comandado pelo violento Dargent Peytraud (Zakes Mokae), que também utiliza o vodu como arma a seu favor. 


O Haiti vivia então uma intensa turbulência política com o povo oprimido sob um regime de ditadura e o trabalho de Alan inevitavelmente acaba incomodando os poderosos locais, assim ele passa a ser perseguido por conta de suas descobertas e sentindo na pele a força da tirania, com direito a sessão de tortura e até a ser enterrado vivo ao ser forçado a usar a tal droga zumbeificante. Lutando por sua vida, o americano precisará discernir o que é realidade e o que é ciência, o que é superstição ou elemento sobrenatural, enquanto enfrenta os mistérios e o clima tenso de um país com um conflito político prestes a eclodir. Como se baseia em fatos verídicos narrados pelo antropólogo Wade Davis no livro "A Serpente e o Arco-Íris", também o título original do filme, colocando os zumbis na zona inquietante entre o cientificamente comprovável e o puramente fantástico, o filme convence como poucos que abordam a temática. Os elementos citados no nome da obra tem significados nas lendas vodus. A serpente é o símbolo da terra enquanto o arco-íris representa o céu. Entre um e o outro todos os seres devem cumprir uma passagem, viver e morrer, mas por ser dotado de alma o homem pode ser aprisionado em um lugar onde desencarnar é apenas o começo da vida. Todo esse sentido supersticioso e aura misteriosa são perdidos com a infeliz escolha do título nacional. As palavras maldição e mortos-vivos eram muito comuns em produções da época, tanto que chegavam a confundir por conta de seus argumentos e até mesmo desenvolvimentos semelhantes, mas o filme de Craven foge completamente do convencional.

A produção ganha pontos por buscar realismo realizando as filmagens no próprio Haiti, contando inclusive com a participação da população local para figuração, e várias cenas foram reescritas durante o avançar da produção aproveitando um contato maior com a cultura a ser explorada. O terror é imposto pelos exóticos cenários e reprodução de rituais em seus mínimos detalhes, assim esqueça os sustos gratuitos e manjados. Craven conduz o filme com tom extremamente sério mesmo tendo diversos elementos fantasiosos no roteiro de Adam Rodman e Richard Maxwell. Há de se relevar certos pontos frágeis do texto, como a construção pouco aprofundada dos personagens e o romance entre Allan e Marielle, além da visão limitada sobre um país de cultura pouco difundida, assim o filme explora estereótipos como se toda a população haitiana fosse obrigatoriamente praticante ou ao menos conhecedora de rituais de feitiçaria. Essas imperfeições, contudo, não chegam a atrapalhar graças a atmosfera tensa impressa em cada frame do longa, algo acentuado pela fotografia que dá certo tom melancólico evitando ambientes muito iluminados ou a luz do sol em cenas ao ar livre. A sensação é que a história transcorre em um período de dias nublados e chuvosos, como se algo de ruim pairasse no ar e só fosse se dissipar quando os problemas do país fossem cessados mesmo que de forma parcial. 


Craven na época colhia os frutos do sucesso de A Hora do Pesadelo que também apresentava um universo onírico, porém, sem qualquer compromisso com a realidade. Em A Maldição dos Mortos-Vivos, entre sonhos com cobras e caveiras com vida própria, o diretor realizou um trabalho que, ainda que superficialmente, o aproxima à tônica da obra do lendário George A. Romero que buscava sempre inserir um subtexto crítico em suas produções. A aproximação com o titulo do clássico A Noite dos Mortos-Vivos poderia ser justificada pelo viés político que Craven adotou, porpem, como já dito, a escolha foi puramente estratégia de marketing. O resultado é um filme catalogado como terror, mas que oferece um temor ao qual não estamos acostumados. A ameaça não é de um elemento físico, mas sim de cunho psicológico e emocional, o pânico de uma pressão ostentada por poderosos. Vendo por este lado, o longa continua bastante atual. Regimes políticos autoritários ainda existem na maioria dos países, de forma velada ou explícita, e não seria exagero enxergar a tal fórmula da dormência aliada a rituais de vodu como alusão a métodos de lavagem cerebral.

Terror - 94 min - 1987

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