sábado, 18 de julho de 2020

MEDO EM CHERRY FALLS


Nota 2,5 Terror teen não entrega o que promete, pegando leve no conteúdo sexual e carnificina

A notícia que rapidamente corre pela cidade é de que um assassino está matando adolescentes virgens com requintes de crueldade, sejam eles homens ou mulheres, não importa, pois o que ele quer mesmo é ter o prazer de extirpar corpinhos ainda em desenvolvimento. Uma notícia dessas é alarmante, mas repense nela da forma que foi trabalhada no terror teen Medo em Cherry Falls. Na pequena cidade do título, um psicótico assassino passa a atacar jovens que ainda não perderam a virgindade de uma renomada escola local e sempre deixando uma marca registrada no corpo de cada vítima. As investigações dos crimes estão nas mãos do xerife Brent Marken (Michael Biehn), não lá muito eficiente como homem da lei, mas sua filha Jody (Brittany Murphy), que continua pura, resolve iniciar seu próprio inquérito e capturar o criminoso. Enquanto isso, Kenny (Gabriel Mann), seu namorado, se entusiasma com a ideia que outros estudantes tiveram de planejar uma grande festa onde todos terão a chance de transar pela primeira vez sem serem julgados e ainda com total apoio dos pais, afinal estarão se "sacrificando" para preservarem suas próprias vidas.  Se a moda de perder a virgindade para escapar da morte pegasse...

Pode parecer o enredo de uma comédia adolescente, o que de fato cairia como uma luva para uma produção que parodiasse as fitas de seriais killers, mas o australiano Geoffrey Wright, que conseguiu certa repercussão com Skinheads - A Força Branca, preferiu levar o argumento a sério. O diretor tinha a pretensão de fazer um slasher movie nos moldes de Pânico Lenda Urbana brincando com os clichês do estilo, mas com conteúdo bem mais forte e ousado. Contudo, o resultado acabou sendo um filme tão rasteiro quanto tantos outros que investem na linha do assassino mascarado que sente prazer em dilacerar corpos de jovenzinhos com hormônios em ebulição. Como dita a lei do mercado, se há demanda para determinado tipo de produto consequentemente há oferta e vice-versa, assim os executivos de cinema, principalmente os de Hollywood, continuam bancando as reciclagens ou os remakes de fórmulas consagradas, mas neste caso o tiro saiu pela culatra. Tentando inovar adicionando uma dose extra de sexualidade ao manjado estilo de trama, Wright não conseguiu atrair atenções e sim afugentar o público. Impressionantemente não houve exibidores interessados em adquirir os direitos da produção para lançá-lo em solo americano, sendo sua exibição realizada como um telefilme qualquer. Muitos outros países também rejeitaram a fita que acabou, digamos assim, perdendo sua virgindade nas telonas justamente no Brasil, ainda que com uma passagem relâmpago.

Além da má fama de ser mais do mesmo, o longa foi prejudicado por ter recebido uma classificação indicativa bastante alta, embora não exista nada de tão chocante na fita para justificar essa medida tão rígida, mas por outro lado também é compreensível. Apesar dos adolescentes e até mesmo algumas crianças assistirem a torto e a direito produções de horror que, diga-se de passagem, muitas exibidas sem controle algum por canais fechados e de fácil acesso em sites de pirataria, é preciso ter um mínimo de cuidado e alertar os pais sobre o conteúdo, se é que ainda existam alguns interessados na educação dos filhos. Censura à parte, como já dito, é bem verdade que o longa poderia ser bem mais interessante se o diretor não tivesse levado a proposta tão a sério e assumido o lado cômico do argumento. Da tal festa da primeira vez, batizada de Holocausto do Hímen, passando pela tentativa frustrada de reverter as regras do gênero até culminar nas atuações robóticas, tudo soa como uma grande piada. E o argumento até tinha seu valor. Se desde os tempos de Halloween - A Noite do Terror os promíscuos mereciam morrer, na trama escrita por Ken Selden eles estavam a salvo, mas talvez não tenha gerado o impacto esperado por o sexo então já não ser um dos maiores tabus da juventude.

Pode-se até dizer que há uma conexão da ideia desenvolvida com a realidade. Se no filme os pais incentivam os filhos a transarem para sobreviverem, na vida real eles também preferem saber que seus rebentos estão ao quarto ao lado dividindo a cama com alguém a estarem soltos pelas ruas expostos a perigos maiores, como se dentro da própria casa os jovens não pudessem beber, usar drogas, roubar e até mesmo matar. Como se diz, entre quatro paredes vale tudo. Apesar dos tropeços, previsibilidade e falta de originalidade do filme como um todo, Wright merece um crédito por não ter transformado sua fita de terror em um pornô soft. Dosou bem a sensualidade que a campanha publicitária tanto vendia, mas pecou pelo excesso de zelo nas filmagens das mortes. O medo que assola a cidade do enredo não é apresentado como algo muito assustador e fica latente a falta de habilidade do diretor com o gênero, assim não conseguindo criar um clima adequado para anteceder os crimes. Quem deseja ver sangue em profusão deve se decepcionar. O longa contabiliza poucas mortes, sendo que por mais de meia hora corrida não ocorre um assassinato sequer com a trama focando mais nas investigações, o que não é necessariamente a preferência do público-alvo que pouco vê o vilão em cena. 

A maioria dos crimes é mostrada quase que de forma velada através de efeitos de luz e sombra ou por cortes rápidos de cenas. O massacre na tal festa de orgia, que deveria ser o clímax, decepciona com as mortes sendo denunciadas pelo alvoroço dos jovens tentando fugir e apenas o som fake de golpes de facadas. Tudo muito asséptico para uma produção representante de um gênero que em sua raiz tem o gore como sustentação. Por outro lado, a edição falha ao exagerar nos flashbacks para justificar o que causou tal problema à cidade, mas ao menos a explicação de quem é e quais as motivações do assassino são bastante críveis. Medo em Cherry Falls não chega a agradar aos fãs do gênero, mas funciona como um tapa buraco quando já se assistiu a maioria dos filmes de seriais killers, aliás, este foi um dos últimos suspiros da seara. Coincidência ou não, após seu fracasso mundial, produções protagonizadas por criminosos mascarados ou com indumentárias características foram abolidas das salas de cinema, mas continuaram a ser feitas para abastecer o mercado de consumo doméstico, embora não tenha gerado nenhum sucesso marcante.


Terror - 92 min - 2000

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