sexta-feira, 15 de julho de 2016

A MULHER DE PRETO 2 - ANJO DA MORTE

NOTA 2,5

Com a assombração e o cenário do
primeiro filme amarrados em uma trama
independente da original, longa parece não
ter identidade própria ou razão de existir 
Entre as décadas de 1930 e 1940 o estúdio Universal era o santuário dos filmes de terror, produções no sentido mais clássico do gênero e protagonizadas por lendárias criaturas como Drácula, Múmia e Frankenstein. Fundada quase que simultaneamente, a produtora inglesa Hammer cerca de três décadas depois tomou tal posto para si também investindo em adaptações e improváveis continuações para as histórias dos famosos monstros, mas em tempos em que fitas abordando exorcismos e psicopatas bombavam não havia mais espaço para o horror fantasioso. O ápice da companhia não durou muito e ela entrou em declínio rapidamente, porém, retomou suas atividades em 2007 com relativos sucessos como Deixe-me Entrar, remake de um cult sueco, e A Mulher de Preto, que ganhou projeção por ser a primeira grande produção do ator Daniel Radcliffe após anos dedicados a interpretar Harry Potter. Não foi um estrondoso sucesso, até porque o protagonista não convenceu muito em um papel tão complexo, mas o longa tem o mérito de resgatar um estilo de horror gótico há muito esquecido, salvo por produções assinadas pelo diretor Tim Burton. A ambientação sombria e o climão de filme antigo também deveriam ser os pontos fortes de A Mulher de Preto 2 – Anjo da Morte, previsível (literalmente!) continuação, porém, um projeto que desde o início já se mostrava problemático. Do longa anterior nem o astro principal e tampouco o diretor James Watkins aceitaram participar de um segundo capítulo, mas a vontade de dar o pontapé para uma possível franquia acabou levando produtores a bancar a fita que traz como único ponto em comum com seu predecessor o fato do argumento principal se basear no fantasma de uma mulher amargurada que atrai crianças para um destino cruel. Novamente inspirado no livro “Woman in Black” de Susan Hill lançado em 1983, a trama tem agora como protagonista Eve (Phoebe Fox), uma jovem professora que é contratada por uma escola do interior da Inglaterra para ajudar a cuidar da demanda de novos alunos. A Segunda Guerra está chegando ao seu clímax e a cidade de Londres é parcialmente destruída, forçando seus moradores a buscarem refúgio em regiões mais afastadas, assim muitas crianças foram obrigadas a se separar de suas famílias e os órfãos não tiveram outra escolha. Esse é o caso do pequeno Edward (Oaklee Pendergast), que não pronuncia uma palavra sequer.  Após perder seus pais ele foi levado para o colégio da severa Sra. Jean Hogg (Helen McCrory) que funciona justamente no casarão cercado por um pântano palco principal do filme anterior.

Cerca de quatro décadas separam as ações dos longas e os novos habitantes da isolada mansão desconhecem os macabros incidentes que lá aconteceram ou em seus arredores. O carma coletivo que dava mais credibilidade ao argumento original (a população parecia estagnada e depressiva por conta de eventos ligados a tal casa) faz falta aqui. Quando a entidade do título passa a manter contato com o traumatizado Edward muitos fatos estranhos e até mortes passam a assombrar o colégio interno e Eve corre contra o tempo para barrar as ações sobrenaturais contando com a ajuda de Harry Burnstown (Jeremy Irvine), um oficial da aeronáutica de passagem pela região que conhece na viagem rumo à escola. O rapaz é perturbado pelas lembranças das coisas horríveis que viveu na guerra, assim como a professora que também vive um drama particular escondendo um amargurado segredo. Abalados pelo sentimento de culpa, eles se tornam vítimas em potencial para a tal Mulher de Preto que usa Edward como instrumento de suas ações aproveitando-se de suas fragilidades. Inicialmente privilegiando o aspecto psicológico e emocional dos personagens, infelizmente o roteiro de Jon Croker e Tom Harper, este também diretor, não consegue escapar dos clichês. O cenário principal é um imenso casarão no meio do nada, a névoa se faz presente a todo instante, assoalhos e portas fazem barulhos estranhos e até a boa e velha cadeira de balanço que se move sozinha tem espaço garantido. Temos também a protagonista de bom coração, um galã com pinta de herói como seu inerente interesse amoroso, uma personagem com um quê de carrasco para servir de contraponto e a criança problemática com dons paranormais. Ainda que estereotipados, a trama até tenta delinear tais perfis com profundidade, mas esbarra na necessidade de assustar a todo custo. A ideia de colocar em cena novos personagens em meio ao cenário do primeiro filme em tese seria excelente, mas para quem já conhece os truques e motivos que regem as aparições da Mulher de Preto as expectativas de se surpreender são mínimas. Sem amarras explícitas com os eventos apresentados no original, no entanto, tudo bem elucidativo para quem desconhece a lenda, os roteiristas poderiam ter mais liberdade para criar. Todavia, sem um grande mistério a ser descoberto, não há muito o que fazer a não ser caprichar no climão de suspense ou na violência gráfica para escamotear a escassez de ideias, mas infelizmente Harper não consegue trilhar nenhum destes caminhos.

Pior que a previsibilidade é o fato de que as cenas de tensão são prejudicadas por um simples detalhe: a escuridão. As sequências que deveriam causar impacto e medo na verdade não despertam reação alguma no espectador, pois o que vemos é apenas a tela totalmente negra boa parte do tempo. Poderia ser considerado um exercício de estilo do diretor, mas neste caso o efeito da falta de luz não é artístico como no caso de A Casa Silenciosa, por exemplo, soando mais como um erro grave de direção. A atmosfera intrigante do primeiro longa também não é mantida. Ainda que nos primeiros minutos Harper nos presenteie com uma belíssima reconstituição de época e uma fotografia sóbria, sua câmera deixa a desejar quanto a exploração da casa amaldiçoada. Como os cômodos já são conhecidos, um detalhamento das áreas seria essencial para afastar o fantasma da previsibilidade, mas o cineasta oferece apenas o básico, sendo que no filme anterior a assombração e a construção praticamente se fundiam em termos de importância para o enredo. O diretor também desperdiça o pano de fundo histórico. Os ingleses viviam em constante tensão com as ameaças nazistas e a morte poderia alcança-los por terra ou até mesmo pelo ar através de ataques com bombas. Poderia ser estabelecida uma interessante metáfora entre o medo da realidade e os horrores sobrenaturais, mas o diretor preferiu não arriscar e caminhar sobre terreno seguro, ou seja, investir em uma história mastigadinha e em manjados sustos, obviamente todos pré-anunciados por estridentes efeitos ou trilha sonora. Sem a curiosidade em torno do eterno Harry Potter experimentando novos horizontes e tampouco um roteiro consistente em mãos para justificar uma continuação, ainda que não dependente do original, fica difícil entender o porquê da existência de A Mulher de Preto 2 – Anjo da Morte. Seu subtítulo poderia ser compreendido como uma alusão ao fantasma da guerra, mas a trama não o justifica, além do mais a entidade maligna quase se torna uma figurante de luxo. O roteiro não dosa de forma uniforme o drama e o horror pretendidos, assim jamais toca emocionalmente o espectador e tampouco o faz roer as unhas. Acompanhamos a trama com um prejudicial distanciamento muito também por conta das fracas atuações, principalmente do pequeno Oaklee Pendergast engessado por um semblante catatônico que não nos deixa referencial sobre seu perfil antes da perda dos pais e da influência sobrenatural. Fica difícil se comover com sua situação e muito menos nos convencer da forte ligação que se estabelece com Eve. Com o plot dramático resolvido aos trancos, ao final mais uma vez temos uma deixa para outra sequência. Tomara que fique só na intenção.

Terror - 99 min - 2014 

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