segunda-feira, 26 de outubro de 2020

LONGE DO PARAÍSO


Nota 9,0 Embora de época, drama aborda temas polêmicos ainda enraizados nas sociedades


O marido ostenta ares de protetor e bem sucedido profissionalmente enquanto a esposa está diariamente vestida e maquiada impecavelmente para passar seu tempo livre em casa ou ajudar em ações beneficentes. Os filhos são inteligentes e muito educados e a empregada está sempre disponível e com um largo sorriso no rosto para atender aos pedidos dos patrões. Eles vivem em uma grande e aconchegante residência com quintal de onde podem saudar seus vizinhos igualmente felizes e simpáticos. No período pós-Segunda Guerra, a sociedade norte-americana contemplava sua própria exuberância e prosperidade. Contudo, dentro de alguns lares de famílias aparentemente perfeitas, problemas internos ameaçavam ruir a bela imagem que sustentavam as custas de jogos de aparência. Contradições, desesperos e tristezas passam a contaminar o dia-a-dia do casal protagonista de Longe do Paraíso, mas o trabalho do diretor Todd Haynes deixa subentendido que os acontecimentos no lar dos Whitaker era uma tendência da sociedade americana ou até mesmo apontava mudanças de comportamentos universais. 

Após situar o espectador na utópica ambientação descrita no início do texto, a trama começa mesmo quando Carhy (Julianne Moore) vai de surpresa ao encontro do marido Frank (Dennis Quaid), que estaria fazendo hora extra no trabalho, mas sofre um baque emocional ao encontrá-lo aos beijos com outro homem. Sem saber a quem recorrer, ela encontra apoio e compreensão na companhia de seu jardineiro Raymond (Dennis Haysbert), um homem inteligente e muito educado, porém, negro, uma característica na falsa moralista década de 1950 que o desqualificava e o deixava à margem da sociedade. Estes dois pontos polêmicos, os problemas conjugais desta mulher bem como sua relação próxima a um homem de cor, acabam por atiçar os ânimos e a curiosidade da vizinhança e de seu círculo de amizades. Não demora muito para que todos passem a discriminá-la e o seu mundo perfeito vira de cabeça para baixo da noite para o dia, o que a faz repensar a vida artificial que levava até então. Haynes soube trabalhar com muita delicadeza temas pesados como preconceito, racismo, homossexualidade, infidelidade, entre outros que até hoje geram polêmicas. No entanto, não parece ter o objetivo de suscitar grandes discussões e tampouco julgar as ações de seus personagens. Seu olhar está mais preocupado em registrar a alma de seres humanos imperfeitos, com suas contradições, manias e desejos, mas reprimidos por uma sociedade hipócrita. 


O medo de ser excluído ou ridicularizado, por exemplo, afeta o emocional e o psicológico de Frank a ponto de ele mesmo aceitar a ideia que sua atração por homens é uma doença. Ainda assim, Haynes, também autor do roteiro, não busca soluções convencionais ou esquemáticas para os conflitos que expõe. Uma passagem muito marcante é quando Frank volta para casa e encontra a esposa aos prantos após o flagra que deu. Um cineasta de estilo mais convencional certamente estaria tentado a filmar uma cena de briga com muita gritaria e até mesmo agressões, contudo, o que temos é uma cena passiva, um diálogo respeitoso no qual Cathy evita o confronto trazendo a tona bobagens cotidianas. Além de não saber como lidar com a situação, a personagem está se comportando dentro dos padrões da época, a dona-de-casa que por mais que esteja sofrendo deve estar arrumada e a postos para recepcionar o homem que provém seu sustento e o de seus filhos. É interessante observar as posições que os Whitaker assumem na narrativa. Se já não bastasse Frank trair a esposa ainda foi com alguém do mesmo sexo, escândalo suficiente para arruinar sua boa reputação. No entanto, o homem nesta situação era visto com pena, alguém com uma doença que merecia a chance de se reabilitar. Já Cathy, apenas por demonstrar intimidade ao manter diálogos abertos com um serviçal e ainda por cima negro, tem motivos de sobra para ser apedrejada, inclusive pelo próprio marido que não tem a mesma boa vontade da esposa para compreender uma situação adversa. 

Moore dá um show de interpretação transmitindo o turbilhão de emoções de Cathy através de gestos e olhares contidos. Curiosamente, ela viveu no mesmo ano personagem similar em As Horas no qual também deu vida a uma dona-de-casa que mascarava seus sentimentos para não enfrentar uma sociedade preconceituosa e cheia de regras. Ainda assim, conseguiu de um mesmo perfil extrair duas interpretações intensas e diferentes uma da outra, tanto que no Oscar e em tantas outras premiações concorreu em dose dupla. Os Dennis, tanto Quaid quanto Haysbert, também estão ótimos, sendo que o primeiro merecia um pouco mais de reconhecimento visto que trabalhos como este não são muito comuns em seu currículo mais calcado em projetos comerciais e de interpretações rasas. As cenas em que Frank se desespera na tentativa de resgatar sua masculinidade que julga perdida são de arrepiar tamanha a entrega de Quaid. Além das interpretações inspiradas, Longe do Paraíso não só oferece uma belíssima reconstituição de época como também presenteia o espectador com uma viagem no tempo com destino à chamada Era de Ouro do cinema hollywoodiano, a começar pelos créditos iniciais que já remetem ao estilo de antigas produções. Obviamente a maquiagem, vestuários e cenários estão de acordo com o que se espera de uma produção caprichada, mas também é perceptível o esmero da trilha sonora e fotografia para fazer o espectador imergir em uma época saudosa para os mais velhos e estranha, porém, não menos sedutora e curiosa, aos mais jovens. 


Todo esse cuidado visual e sensorial permite o distanciamento necessário para o espectador compreender as dificuldades de Cathy, Raymond e Frank em tempos repletos de tabus e preconceitos, embora tais problemas continuem enraizados no mundo contemporâneo mesmo com diversas conquistas das minorias.  As roupas mudaram, a paisagem modificou-se, mas ainda é muito comum encontrar pessoas infelizes por não poderem viver como desejam, sufocadas dentro de suas próprias casas com seus familiares ainda cultuando a ideia do lar perfeito e modelo. Toda produção que aborda quebras de paradigmas merece atenção e deveria ser obrigatória aos que ainda resistem em aceitar o diferente, ainda que o trabalho de Haynes possa ser considerado contraditório pelo modo até relativamente leve que desmembra os problemas dos Whitaker. Seria medo de chocar o público conservador que neste início do século 21 tenta reaver seu espaço e autoridade?

Drama - 107 min - 2002

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