Glenn Close reencontra o prestígio no mundo do cinema ao despir-se da vaidade, mas não do talento
Glenn Close nos anos 80 era uma figurinha tão onipresente
nas premiações de cinema quanto Meryl Streep. A diferença para sua
contemporânea é que a atriz que estrelou Ligações Perigosas, Atração
Fatal entre tantos outros marcos do passado recebeu bem menos prêmios,
inclusive nenhuma das suas cinco indicações ao Oscar lhe renderam a tão
cobiçada estatueta. Sua chance de finalmente ganhar o prêmio máximo do cinema
era comAlbert Nobbs, mas quis o destino que Miss Streep mais uma vez
estivesse no páreo defendendo uma personagem irretocável em A Dama de
Ferro. De qualquer forma, é um grande prazer ver Glenn em cena após anos de
hiato na carreira cinematográfica, período em que se dedicou ao teatro, a
produções de TV e a filmes de pequeno porte que mal chegavam ao conhecimento do
público, com exceção da versão live-action de 101 Dálmatas e sua continuação.
Todavia, seu retorno de verdade às telas grandes não poderia ser mais marcante.
A atriz vive o personagem-título, simplesmente um homem. Na realidade, Glenn
interpreta uma mulher que precisou abdicar de uma vida normal para sobreviver
na sociedade extremamente machista do século 19 na qual as mulheres
praticamente só têm obrigações e os direitos são quase nulos. A atriz dá vida a
Albert Nobbs, a imagem do mordomo perfeito. Prestativo, educado e praticamente
calado a maior parte do tempo, ele é empregado de um luxuoso hotel na Irlanda e
é visto como uma pessoa estranha ou tímida, assim vivendo solitariamente, mas
esse é o preço a pagar por optar em viver uma vida de mentira, porém, já faz
tanto tempo que essa corajosa mulher incorporou tal personagem que nem sente
mais os predicados negativos da farsa. Durante três décadas esta mulher se
omitiu para poder juntar dinheiro e abrir seu próprio negócio, uma tabacaria,
mais um ponto contra a realização de seu sonho, afinal tal estabelecimento não
seria um lugar adequado para mulheres frequentarem, quanto mais ser
proprietária. Os únicos momentos em que Nobbs se permitia assumir seu
papel feminino é quando se trancava no quarto solitariamente para contar suas
economias e apreciar o retrato da mãe. Porém, até essa privacidade passa a ser
ameaçada. Hubert Page (Janet Mcteer) é um pintor contratado para realizar uma
manutenção do hotel e é colocado para dormir no mesmo quarto do mordomo.
Todavia, esta nova companhia também vive o mesmo drama que seu colega de quarto,
é uma dama travestida de homem, e assim começa uma intensa amizade entre estas
duas mulheres, a chance para Nobbs finalmente imaginar novos rumos para sua
vida. De qualquer forma, o medo de seu segredo ser revelado continua sendo um
obstáculo para esta mulher omissa que ainda será visada por causa do dinheiro
que juntou por anos para conseguir realizar ao menos um único sonho: ter sua
independência financeira. O longa é baseado no conto “The Singular Life of
Albert Nobbs”, de George Moore, que foi adaptado por John Banville em parceria
com a própria protagonista. A atriz realmente estava disposta a reencontrar a
fama no cinema, porém, não abriu mão da qualidade, tanto que esta produção tem
um quê de filme europeu, assim como a maioria dos poucos títulos em que Glenn
trabalhou nos últimos anos, como Coisas Que Você Pode Dizer Só de Olhar
Para Ela e Questão de Vida. Todos estes trabalhos, incluindo o
destaque deste texto, têm em comum não só o fato de contarem com a participação
de Glenn, mas também por lidarem com temas acerca do feminismo e serem
dirigidos pelo colombiano Rodrigo García cuja filmografia é marcada por obras
de tom mais intimista e sempre com histórias envolvendo corajosas ou sofredoras
mulheres.No caso desta crítica sutil às
sociedades conservadoras de épocas passadas, ainda que as mulheres atualmente
ainda sofram repressão em muitas culturas, o ritmo lento da narrativa pode ser
um empecilho para alguns espectadores. A falta de movimentação não se deve
apenas ao estilo do cineasta, mas também pelo fato do enredo se concentrar na
relação de Nobss e Page. Os demais personagens não têm força dramática, salvo o
da camareira Helen Dawes (Mia Wasikowska) e do inescrupuloso Joe (Aaron
Johnson) que vivem um romance em uma trama paralela que tem importância na
conclusão da história da protagonista envolvendo dinheiro.
Não há como negar realmente que este longa sobrevive à custa
do trabalho excepcional de Glenn, ainda que sua parceira de cena Janet Mcteer
também se saia muito bem mostrando seu lado masculino de forma imponente e
seguro fazendo um contraponto ao modo de agir de Nobbs. Aliás, por curiosidade,
Glenn já havia interpretado o mesmo papel nos palcos teatrais no início da
década de 1980 e passou anos tentando conseguir recursos para levar o texto
para o cinema. Por conhecer bem a personagem, a veterana atriz consegue revelar
através de olhares e sutis expressões faciais todo medo, repressão e
fragilidade que uma mulher sofre escondida embaixo de roupas pesadas e
fechadas. Já é rotineiro que atrizes que aceitam trabalhos desprovidos de
vaidade ganhem automaticamente um reconhecimento positivo e neste caso não é
diferente. Com a pele nitidamente envelhecida e sem suas madeixas louras, não
vemos sinal da exuberante atriz que anos atrás seduziu plateias com personagens
fortes e maquiavélicos. Albert Nobbs é um belo filme que toca em temas
relevantes até hoje como o fascínio exercido pela ganância, discriminação,
feminismo e até mesmo questões referentes à homossexualidade, porém, não é uma
opção que agrada a todos os gostos, a começar pelo ritmo arrastado da
narrativa. Todavia, em pleno século 21 ainda esbarramos em questões
preconceituosas. Certamente muitos não devem se sentir confortáveis assistindo
a um filme onde as mulheres assumem seriamente os papéis masculinos e os homens
são retratados como pessoas desinteressantes dotados de poder e influência, mas
desprovidos de humanidade. De qualquer forma, esta é uma produção que vale a
pena ao menos para se conferir um belo duelo de interpretações, mas que no
fundo tem muito a nos ensinar apresentando um passado cujos resquícios ainda
exercem influência no presente e infelizmente ainda devem deixar raízes para o
futuro. Preconceito e ambição, dois males que atravessam os séculos.
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