sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O TERCEIRO OLHO

NOTA 4,5

Enredo intricado segura a
atenção até certo ponto,
mas a certa altura testa a
paciência do espectador
A maioria dos filmes que estréiam nos cinemas ou chegam às locadoras sem causar barulho automaticamente são rotulados como produtos ruins, embora alguns sejam bem melhores que aqueles que tiveram uma superexposição na mídia quando lançados. Todavia, o mundo cinematográfico está cheio de boas intenções, mas boa parte delas resulta realmente em trabalhos duvidosos que não resistem a ação do tempo. Este é o caso de O Terceiro Olho, um suspense que pegou carona no sucesso de crítica de produtos como Amnésia e Efeito Borboleta para ganhar certo status na época de seu lançamento, mas sem efeito algum em sua campanha, e que hoje certamente deve estar juntando poeira nas prateleiras de locadoras, isso se alguma loja o manteve no acervo. Reviravolta é a palavra chave do roteiro e produções do tipo costumam exigir muita atenção do espectador e precisam ser vistas mais de uma vez para se conseguir montar totalmente o quebra-cabeça proposto. Porém, este trabalho do diretor alemão Roland Suso Ritcher pode ser visto duas, três, dez vezes, mas jamais nos convencemos que este é um suspense excepcional, pelo contrário, a sensação de frustração deve ser constante. O início é intrigante e a narrativa consegue prender a atenção até certo ponto, mas chega uma hora que o vai e vem do tempo cansa e ficamos fatigados torcendo para que o filme acabe logo. O longa começa nos apresentando à Simon Cable (Ryan Philippe), um rapaz que ao acordar se encontra em uma cama de hospital sofrendo de amnésia. Os dois últimos anos de sua vida sumiram completamente da memória. Ele não lembra que é casado, da morte do irmão Peter (Robert Sean Leonard) e nem mesmo do terrível acidente de carro que sofreu e o levou a esta situação. Seu médico, o Dr. Newman (Stephen Rea), começa a ajudá-lo a reunir os fragmentos de sua memória para que ele possa compreender sua vida novamente, mas para o rapaz nada parece fazer muito sentido, principalmente quando ele percebe que Anna (Piper Perabo), sua suposta esposa, o odeia e acredita que o marido foi o responsável pela morte do próprio irmão. Em meio às viagens pelo tempo que sua mente realiza, Simon conhece Travitt (Stephen Lang), um paciente do hospital que pode ser o elo entre os períodos desconexos de sua vida.

Cable passou por uma experiência de quase morte, mas foi ressuscitado. Ele tem certeza de que está no ano 2000, porém, é informado pelo médico que o ano corrente é 2002. Lembrar destes dois fatos é fundamental para compreendermos um pouco desta intricada narrativa que inicialmente chama a atenção justamente pela falta de informações. O espectador vai descobrindo o que houve e os detalhes da vida do protagonista pouco a pouco junto com ele próprio, uma opção bastante interessante e arriscada essa de não entregar tudo mastigadinho para o público. Baseado na peça teatral “Point of Death” de Michael Cooney, que assina também o roteiro do filme em parceria com Timothy Scott Bogart, este trabalho pode ser interpretado de formas variadas. Pode ser visto com olhar místico, religioso ou psicológico, mas esta pluralidade funciona tanto como o trunfo quanto o pecado da produção e a originalidade aos poucos vai cedendo espaço à desconfiança. A certa altura já estamos cientes de que o filme vai acabar num verdadeiro pastiche, que será encerrado sem respostas críveis ou ainda oferecendo ao espectador a sensação de ter passado uma hora e meia na frente da TV para no final se sentir um trouxa. Ritcher peca ao optar por uma conclusão gelada e nada empolgante, mas ainda assim pode instigar quem assistiu uma vez a repetir a dose para tentar compreender as pontas que ficaram soltas em sua cabeça na primeira tentativa, uma experiência que nos divide entre a empolgação e a frustração. O enredo complexo ganha ainda mais impulso pela edição que leva o espectador a se sentir angustiado, a querer desesperadamente ajudar o protagonista, mas se dividirmos este suspense em três etapas, digamos que a última quebra totalmente a curva de ascensão que o longa construía até então em termos de tensão. O final não condiz com o restante da produção.

Este trabalho acaba sendo prejudicado principalmente pela insistência de algumas pessoas em querer realizar filmes que procuram ser mais inteligentes que o espectador, uma moda que ressurgiu com O Sexto Sentido que poderia não passar de uma simples fita de suspense ou de terror, mas que por causa de seu final inesperado teve seu status elevado. Porém, esse foi um golpe de sorte. O cineasta M. Night Shyamalan jamais voltou a causar o mesmo frisson e a maioria dos diretores que tentaram utilizar fórmulas similares nos anos seguintes deram com os burros n’água. Fazer produções do tipo exige muita criatividade e um planejamento antecipado para que não existam falhas, mas as vezes é melhor apostar no estilo de suspense convencional e distribuir pistas, algumas falsas e outras verdadeiras, para chegarmos a um final que pode até não ser arrebatador, mas ao menos satisfatório. No caso de O Terceiro Olho ocorrem tantas reviravoltas e um monte de coisas que parecem ser, mas não são, que fica a impressão de que o roteiro foi reescrito conforme as filmagens ocorriam. Quanto mais a narrativa avança e insiste em repetições de cenas e negações de eventos, naturalmente o interesse pela fita cai. Outra coisa que acaba não funcionando é a ambientação. Praticamente com todas as cenas inseridas em um ambiente hospitalar, tendo apenas algumas externas, a claustrofobia podia ser usada a favor da história, mas este recurso acaba não causando o efeito desejado, o que por um lado é até positivo, pois assim prestamos mais atenção nas ações e diálogos dos personagens. Aparentemente são poucas as pessoas que estão do lado de Simon, a maioria está contra, tanto que o desmemoriado entra numa paranóia que alguém quer matá-lo. Simon está mesmo sem memória ou tem algo de espiritual em sua história? Ele matou realmente seu irmão? Quem seria o tal Travitt? Haveria alguma relação amorosa entre sua esposa Anna e Peter? São muitas perguntas a serem respondidas em meio a tantas sequências que somente somam dúvidas à narrativa. Ritcher tem até habilidade com sua câmera, constrói cenas intrigantes e a edição acentua a tensão, mas tudo é anulado na reta final. O filme não é longo, mas são tantas informações desconexas para processarmos que quando a conclusão chega ela passa em brancas nuvens. Não duvide se ao subirem os créditos finais você fizer alguns questionamentos. E aí acabou? Mas voltamos a mesma cena do início? Se tiver paciência aperte o play novamente, mas esteja certo que assista quantas vezes for necessário jamais a satisfação será plena. Faltaram parafusos nesta engrenagem. 

Suspense - 91 min - 2004 

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