segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

VALENTE (2012)

NOTA 9,0

Pixar se rende ao estilo
tradicional Disney e lança
sua primeira animação
protagonizada por princesa
 

O mundo dá voltas. Se um dia o império Disney foi estremecido e virou “refém” dos moderninhos desenhos da Pixar agora chegou a vez dos papéis se inverterem. O antigo e longo acordo das duas empresas previa que a casa do Mickey Mouse seria apenas responsável pela divulgação e distribuição dos longas animados através de computação gráfica, mas desde 2008 elas se uniram em um mesmo conglomerado, assim o reino das princesas e animais fofinhos foi invadido por brinquedos e carros animados, monstros bonzinhos, super-heróis entre outros tantos personagens criados através de tecnologia de ponta. Mas como diz o ditado, tudo que é bom dura pouco. No caso da Pixar não. Foram quase duas décadas praticamente dominando o mercado de animações, mas Carros 2 balançou os alicerces da produtora. Após o baque das críticas negativas, surpreendeu o fato de que para tentar dar a volta por cima os executivos do estúdio escolheram aliar modernidade e antiguidade. Valente definitivamente é um produto diferenciado no catálogo da empresa que fez história com Toy Story, Monstros S.A., Procurando Nemo, entre tantos outros sucessos, mas deixa a desejar no quesito criatividade. A animação continua mantendo o visual arrebatador característico da Pixar, desta vez com o uso de efeitos 3D, diga-se de passagem, totalmente desnecessários, mas o enredo é bem diferente do que ela nos apresentou ao longo dos últimos anos. Bebendo na fonte da era medieval, o longa é protagonizado por uma princesa. Será que o estúdio estava passando por uma crise brava, perdeu sua identidade e sucumbiu aos apelos da Disney que claramente nunca quis abandonar os contos de fadas? A resposta é sim e não. Algumas pessoas dizem que pelo fato do enredo enfocar questões familiares e ter como protagonista uma princesa o desenho acabou ficando tradicional demais, mas se pararmos para analisar existe sim novidades e ganchos muito interessantes. Não temos aqui uma princesinha indefesa e sonhadora que tem como único objetivo casar-se e ser feliz para sempre. Embora criada com todos os cuidados por Elinor, sua mãe, para ser sua sucessora como rainha da Escócia, a jovem Merida sente que não tem a menor vocação para cuidar do reino apenas dando ordens. Ela quer é ação. Seus lazeres prediletos são cavalgar e praticar o tiro ao alvo com seu arco e flecha. 

Quando a contragosto é organizada uma competição para escolher o futuro marido de Merida entre os herdeiros dos reinos aliados, a garota aceita a ajuda de uma senhora que tem o dom da feitiçaria. Ela gostaria de uma solução para que sua mãe passasse a compreendê-la melhor e a deixasse seguir sua vida como bem entendesse. Porém, as coisas não caminham como esperado e agora a jovem rebelde de cabelos avermelhados e desgrenhados tem que resolver um problema literalmente gigante. Bem, pela descrição dos cabelos de Merida, já dá para perceber que ela está longe de se parecer com qualquer uma das princesas Disney criadas até então, fugindo até mesmo do padrão criado para as corajosas Pocahontas ou Mulan. Desprovida de sensualidade e com trejeitos femininos atenuados, a jovem herdou as características de seu pai, o Rei Fergus, bonachão, teimoso e destemido. Contrastando com a harmonia que parece onipresente entre pai e filha, na ausência do sonho de conquistar um príncipe encantado, o grande conflito deste enredo é a relação estremecida de Merida e sua mãe. O atrito começa pelas diferenças visuais existentes entre elas, como a forma de se vestir ou arrumar o cabelo, e se estende ao campo afetivo e emocional. Cada uma deseja algo diferente, mas seguindo os bons costumes Merida devia obediência à Elinor, uma tradição que ela quer a todo custo quebrar. Enfim, a princesinha da vez é uma típica adolescente como tantas de hoje em dia. Tem dúvidas, espírito desafiador, quer se destacar, é rebelde e mete os pés pelas mãos. É de um erro cometido em um momento de fúria que Merida tira uma grande lição e consequentemente o filme ganha sua mensagem a ser transmitida não só para crianças, mas também para os adultos que precisam aprender a ouvir mais e respeitar as vontades de seus filhos. É preciso haver um equilíbrio entre o querer e o dever de ambas as partes. É provável que boa parte das críticas negativas ou ressalvas que esta animação recebe se deva ao fato de que é previsível que a originalidade de termos em cena uma princesa rebelde não vai muito longe, mas algo diferente disso seria impossível em um produto cujo público-alvo são as crianças.  Assim é inevitável que a primeira parte do longa seja bem mais interessante que a segunda e última. Todavia, a essa altura já estamos tão ambientados ao cenário medieval escocês, mais uma inovação da produção quanto ao local em que a história se desenrola, e com o clima mágico que envolve os personagens que fica impossível desvencilhar  a atenção.

No final das contas, a protagonista na realidade não tem um conflito próprio, não há nem mesmo um vilão perverso a combater, mas lida com um problema que pode destruir sua família. Não é só o fato do feitiço que encomendou ter dado errado que a aflige, mas também que por conta do seu egoísmo ela pode colocar todo o reino em perigo. Curioso para saber o que acontece com a Rainha Elinor? Ok, nesse ponto todos sabem que ela é transformada em um urso, algo que já podemos prever com a introdução que mostra o Rei Fergus demonstrando o seu repúdio a esse tipo de animal. A quem incomodar as qualidades narrativas entre a primeira e a segunda parte é importante esclarecer que dois diretores dividem o crédito. O início pode causar certo estranhamento pelos cenários propositalmente mal iluminados, além da presença de vikings e a escolha de um país pouco explorado pelo cinema para sediar o conto. Baseando-se em lendas escocesas e excluindo desde o início a opção de um felizes para sempre, a idéia original deste trabalho é da cineasta Brenda Chapman, que já havia trabalhado com o realismo em animação no elogiado O Príncipe do Egito. Juntou-se a ela o diretor Mark Andrews, mas a parceria não chegou até a conclusão do filme devido a diferenças criativas, o que explica a mudança de ritmo da metade para o final. Se tivesse seguido a linha narrativa adotava no início, provavelmente poderíamos dizer que Valente é um produto legitimamente “pixariano” por seguir o caminho da ousadia, mas o resultado final está muito mais próximo aos clássicos Disney. Assim, o primeiro longa da Pixar protagonizado por uma mulher e também sua estreia na seara de filmes de época acabou não sendo tão marcante quanto o esperado. O fator inovação tão presente nas obras da empresa não foi desenvolvido plenamente, mas de qualquer forma este é um desenho que vale a pena, agrada adultos e crianças e não mancha totalmente a imagem da Pixar. Se bem que depois de Carros 2 não sabemos mais o que esperar desta empresa. O sucesso subiu à cabeça e enrijeceu os neurônios de seus criadores? Só tempo e as novas produções podem ou não comprovar isso.

Vencedor do Oscar de filme de animação

Animação - 93 min - 2012 - Dê sua opinião abaixo.

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