sábado, 28 de outubro de 2017

DE CASO COM O ACASO

Nota 7,0 Longa aborda como pequenos detalhes cotidianos podem ou não interferir no futuro

Nem a publicidade da atriz Gwyneth Paltrow ter ganho o Oscar no início de 1999 por Shakespeare Apaixonado ajudou. De Caso Com o Acaso teve um lançamento um tanto modesto, algo como vamos estrear nos cinemas para algumas pessoas saberem que o filme existe e depois procurarem nas locadoras. Bem, de fato, este romance se adapta melhor ao aconchego do lar, visto que é desprovido de qualquer atrativo visual ou técnico parecendo muito mais um telefilme. Contudo, a trama é simpática e bem construída. Com direção e roteiro de Peter Howitt, a história tem um ponto de partida reflexivo: pequenos acontecimentos do cotidiano podem alterar drasticamente nossos destinos? Paltrow vive Helen, uma jovem que certo dia levanta da cama com o pé esquerdo. Ela era relações públicas de uma conceituada empresa, mas da noite para o dia perdeu o emprego graças aos seus excessos na vida pessoal que começaram a atrapalhar em sua rotina de trabalho. Voltando mais cedo para casa, ela perde o metrô ao trombar por acaso com uma garotinha. O que poderia acontecer na vida da moça caso tivesse conseguido embarcar naquele vagão? E pegando o próximo? O enredo então passa a se alternar nestes dois distintos caminhos. A deixa é um efeito visual como se rebobinasse alguns poucos segundos do dia da protagonista, mais especificamente quando descia uma escadaria. A partir de então, em uma possibilidade, Helen pegaria o primeiro metrô, onde conheceria o carismático James (John Hannah), e chegaria em casa mais cedo surpreendendo o namorado Gerry (John Lynch) a traindo com Lydia (Jeanne Tripplehorn), sua ex. A outra hipótese é que ela poderia perder a condução e ser assaltada, indo parar no pronto-socorro e assim dando tempo de chegar em casa sem flagrar o companheiro com outra, embora existam algumas evidências que ele deverá esconder para ela não desconfiar que alguém esteve no apartamento.

As duas versões da rotina de Helen são desenvolvidas paralelamente. Na primeira ela abandona Gerry e inicia um romance com James que a incentiva a ter um negócio próprio. Na outra ela trabalha como garçonete para sustentar também o namorado que supostamente está concentrado em escrever um livro, mas na realidade aproveita o tempo que fica sozinho para continuar o relacionamento com Lydia. A estreia de Howitt tanto como diretor quanto como roteirista vai bem até a apresentação dos conflitos, mas o desenrolar deixa a desejar pelo ritmo morno e sem novidades. O seu principal pecado é ser tendencioso e direcionar o espectador de imediato a escolher qual deve ser o final feliz da protagonista. O personagem de Lynch nas duas interpretações dos fatos é retratado como alguém repugnante, acentuadas características como egoísmo, fraqueza e embromador, e suas conversas com Clive (Paul Brightwell), nas quais confidencia seus sentimentos e ideias, são improdutivas visto que o amigo as escuta com sarcasmo. Dessa forma, automaticamente nos vemos torcendo para que o romance de Helen e James, que também participa da outra unidade, dê certo, embora ele também tenha um segredinho que pode decepcionar a moça. Contudo, o carisma de Hannah compensa a falta de sensibilidade de Lynch que não consegue definir um perfil ao seu personagem. Ora desperta raiva com seu cinismo e ora nos faz ter até pena de tão patético que é. E Paltrow, cujo Oscar conquistado gerou discussões principalmente entre nós brasileiros (Fernanda Montenegro concorria com Central do Brasil), compõe duas personagens com sutis nuances para diferenciá-las, embora para facilitar o diretor tenha preferido inicialmente demarcar as diferenças através do uso de um esparadrapo na testa em uma das versões de Helen e depois com um corte de cabelo curtinho servindo como referência, o que infelizmente depõe contra a atriz que repete a expressão blasé trabalho após trabalho. De Caso Com o Acaso acaba ficando em cima do muro em seu propósito inicial. Aceita a teoria de que pequenos detalhes do cotidiano podem sim influenciar o curso de uma vida, mas também não descarta a ideia de que nossos destinos já estão traçados e que o que chamamos de acaso já seriam fatos previstos. Um romance água-com-açúcar, mas que tinha potencial para uma obra reflexiva.

Romance - 94 min - 1998

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