quinta-feira, 2 de julho de 2015

CONFIA EM MIM

NOTA 3,0

Apesar da parte técnica correta
até demais, longa derrapa na
narrativa clichê e sem novidades
que engessa seus protagonistas
Para cumprir a cota de exibição de filmes nacionais os cinemas passaram a aceitar produções amadoras? Em uma primeira apreciação é essa sensação que nos deixa Confia em Mim, longa que na época de seu lançamento foi amparado por uma propaganda maciça na televisão, local que, diga-se de passagem, o projeto se enquadra bem melhor simplesmente porque parece um compacto de uma novela. Bem, a estreia do diretor Michel Tikhomiroff não é necessariamente de qualidade duvidosa, pelo contrário, técnica e esteticamente cumpre suas funções além do necessário, mas seus problemas vão desde as atuações estereotipadas, passando pelo roteiro atropelado até chegar na direção inconsistente, ou seja, a produção é falha em seus pilares de sustentação. Não há tempo suficiente para amadurecer situações e personagens e tudo é muito previsível desde a introdução que tenta vender ao espectador a ideia de uma açucarada comédia romântica. A jovem Mari (Fernanda Machado) é subchefe de um restaurante de médio porte, mas parece frustrada profissionalmente, sempre tendo suas ideias rejeitadas pelo patrão Edgar (Fábio Herford), e também não mantém um bom relacionamento com Beatriz (Clarissa Abujanra), sua mãe que ao que tudo indica é milionária. Todavia, seus problemas aparentemente são solucionados em um passe de mágica ao conhecer o simpático Caio (Mateus Solano) durante uma degustação de vinhos. O rapaz demonstra ter se apaixonado por ela à primeira vista e seus sentimentos são correspondidos logo no primeiro encontro. O romance caminha a passos largos, com direito a planos de dividirem o mesmo teto, mas o caldo entorna quando a garota é incentivada pelo namorado a abrir seu próprio restaurante e ele, com toda pose de empresário de sucesso, iria ajuda-la com a parte burocrática e administrativa. Caio deveria acertar os detalhes da aquisição de um imóvel, mas acaba sumindo com as economias da companheira, ou melhor, com o dinheiro que ela conseguiu de empréstimo da mãe. Sempre muito pacata e ingênua, Mari agora não tem apenas uma dívida financeira a honrar, mas também um acerto de contas consigo mesma, algo que só irá conseguir colocando seu grande amor atrás das grades. Em quantas madrugadas de insônia você já encontrou um filmeco do tipo tapando buraco na TV para lhe fazer companhia?

Produzir cinema no Brasil não é uma tarefa fácil, que dirá investir em um gênero sem tradição em uma filmografia dominada por comédias rasteiras, mas que parecem satisfazer plenamente o público nacional? A coragem de Tikhomiroff em procurar caminhos diferenciados merece admiração, mas isso não é o suficiente para encobrir os problemas de seu filme. Vamos por partes, a começar pela trama que é desenvolvida sem muita cadência. Ela demora a pegar ritmo, as ações acontecem a passos ligeiros e sem tempo para aprofundamentos e os clichês batem ponto por minuto. A trama sem o menor pudor apenas recicla ideias de outras produções com argumento semelhante, mas como obras do tipo raramente são feitas no país o roteirista Fábio Danesi parece acreditar que descobriu uma nova fórmula para o cinema nacional, mas os espectadores já escaldados de suspenses meia-boca ianques sabem prever antecipadamente o que vai acontecer e não há reviravolta que surpreenda quando há pontas soltas por todos os lados. Os coadjuvantes só entram em cena para encher linguiça, seus possíveis conflitos ou relação com os protagonistas não acrescentam nada à trama, nem mesmo a entrada de Paula (Patricia Pichamone), uma das novas vítimas do golpista, agitam as coisas a ponto de injetar adrenalina, neste caso muito mais pela atuação robótica da moça. Suas participações poderiam ter sido limadas na sala de edição e assim pouparia o espectador do constrangimento diante de diálogos um tanto artificias. Por que Mari e a mãe não se dão bem? A qualquer momento Teresa (Fernanda D’Umbra), a melhor amiga da cozinheira, pode mostrar não ser tão confiável?  Edgar, que demonstra certa inveja do talento de sua funcionária, estaria atrelado ao plano de Caio? Estas são algumas situações que poderiam ter sido exploradas e dado sustentação ao filme, mas o diretor preferiu jogar todas as responsabilidades nas costas de Solano e Fernanda, obviamente aproveitando-se da popularidade e carisma de ambos, que se esforçam para dar credibilidade ao conjunto. A atriz tenta manter o foco e construir um perfil crível para Mari, mas a ingenuidade que imprime ao longo da narrativa não casa com o estilo independente apresentado na introdução. Já o ator, apesar da falta de pulso na direção, convence como o sedutor canastrão, mas em alguns momentos é impossível não se lembrar do Félix, seu célebre personagem na novela “Amor à Vida”. Pode não repetir os trejeitos da bicha-má, mas o instinto perverso e a genialidade para golpes marcam mais uma vez a atuação do galã.

Falando nisso, a produção como um todo se assemelha bastante ao de um folhetim de TV, ou melhor, até produções da telinha têm buscado mais veracidade. A fotografia, a iluminação e a direção de arte são perfeitos demais e criam uma estética falsa de beleza e harmonia que evidenciam as intenções do diretor em acertar logo em seu debut no cinema. Cenas passadas no ambiente de trabalho de Mari, por exemplo, poderiam ter sido mais bem trabalhadas tanto na parte visual quanto pela narrativa. Cozinha organizada demais à parte, seja dividindo seus problemas com os colegas de trabalho ou os deglutindo de forma intimista, Tikhomiroff poderia ter buscado o contraponto entre a inquietação sentimental da cozinheira e a busca pela perfeição na confecção de seus pratos, mas os diálogos travados no restaurante são tão rasos quanto um pires. Ao contrário de muitas produções nacionais que buscam um diferencial seja para trazer algo novo ao espectador ou simplesmente satisfazer o ego de seus realizadores, Confia em Mim não carrega nenhum traço autoral, alguma característica que marque o filme individualmente ou que possa sinalizar algum estilo de seu diretor. O problema não é só a estética limpinha demais ou os coadjuvantes insossos, incluindo Vicente (Bruno Giordano), um detetive de polícia astuto como uma tartaruga. A concentração no casal principal também tem seus altos e baixos. O romance a jato ensaiado no primeiro ato não convence, talvez porque os próprios atores estivessem na expectativa da virada da trama para o suspense policial. Tikhomiroff consegue criar algumas situações interessantes, como o aparecimento de uma suposta filha de Caio para amolecer ainda mais o coração de Mari ou a sequência em que a garota forja um encontro com o ex para instalar um programa de rastreio em seu celular, mas é pouco para fazer o longa sair do patamar do entretenimento ligeiro. Sim, apesar da sensação incômoda do próprio espectador perceber erros ou imaginar soluções para aspectos que o diretor não se atentou, a obra entretém e tem seu valor por abordar uma problemática que, embora pareça incompreensível em tempos em que o acesso a informações está super democratizado, ainda acontece com muita frequência. Muitas mulheres ainda sonham com o par perfeito e ficam cegas quando caem na lábia de malandros, episódios que corriqueiramente acabam não só em perdas materiais, mas até mesmo em mortes. O final, ainda que forçado demais, também levanta uma outra discussão: vale a pena se corromper e combater maldades na mesma moeda? E assim, cheio de boas intenções, mas receio de ousar, Tikhomiroff parece deixar transparecer a ciência do ostracismo inevitável de seu primeiro trabalho. 

Suspense - 85 min - 2012

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