terça-feira, 29 de julho de 2014

CORRENDO COM TESOURAS

NOTA 6,5

Apostando em personagens
problemáticos, comédia cede
espaço ao drama conforme as
bizarrices tornam-se crônicas
Explorar os dramas e bizarrices de famílias problemáticas tornou-se uma coqueluche em Hollywood, principalmente depois que produções independentes passaram a ter passe livre nas grandes premiações. Estúdios consagrados entraram nessa onda e atores livraram-se de vaidades ou preconceitos para encarnar tipos pouco convencionais. Entre um filme de ação e uma comédia romântica é sempre bom um título alternativo para dar aquele upgrade em seus currículos. Correndo com Tesouras parece uma mescla da crítica explícita contida em Beleza Americana, a melancolia de Magnólia e generosas doses de elementos pinçados do estilo do diretor Wes Anderson, de Os Excêntricos Tenembauns, ou seja, um filme que promete diversão com conteúdo reflexivo. Roteirizado e dirigido por Ryan Murphy, criador da série de TV “Nip/Tuck” e estreando nos cinemas, o filme é inspirado na vida do escritor Augusten Burroughs. Quem? Pois é, a falta de informações sobre este ilustre desconhecido pode ser umas das razões para o fracasso do longa, mas antes de mais nada vamos ao enredo baseado no livro de memórias homônimo de sua própria autoria. O jovem ator Joseph Cross vive o protagonista na adolescência. Estamos nos anos 70, tempos de muitos tabus, e o rapaz precisou enfrentar diversas situações escandalosas. Deirdre (Annette Bening), sua mãe, nutria o desejo de se tornar uma famosa poetiza, mas só recebia constantes negativas quanto a publicação de seus textos. Suas mudanças bruscas de humor e comportamento pouco convencional atrapalharam seus sonhos e principalmente sua vida particular. Seu marido, Norman (Alec Baldwin), é alcoólatra e displicente com a família, assim Augusten se sentia inseguro dentro da própria casa. Para tentar enfrentar a separação, a aspirante a escritora decide procurar ajuda do Dr. Finch (Brian Cox), um sujeito também um tanto excêntrico e amante inveterado das teorias de Freud. A loucura de Deirdre é tamanha que ela simplesmente decide deixar o filho sob os cuidados do psicólogo e sua estranha família composta pela submissa esposa Agnes (Jill Clayburgh), a sádica e solteirona filha mais velha Hope (Gwyneth Paltrow) e a caçula e descolada Natalie (Evan Rachel Wood).

A adaptação de Augusten à família do médico não é muito fácil. Sujeito a visitas irregulares de sua mãe aos fins de semana, diga-se de passagem, cada vez mais descompensada, e com a ausência do pai, o jovem acaba se identificando com Natalie que se torna sua confidente, a quem ele assume sua homossexualidade. Depois da confissão, ele acaba se aproximando de Neil Bookman (Joseph Fiennes), um trintão filho adotivo de Finch e, para variar, também cheio de neuras. Os dois começam a viver um relacionamento sexual com encontros esporádicos no qual o mais velho tenta aconselhar o adolescente em troca de sua satisfação na cama, mas o “iniciado” tem dificuldades em lidar com a diferença de idade. Contudo, Bookman está longe do estilo do gay bem resolvido e totalmente independente e agora está desesperado para resolver as pendências que tem com o Dr. Finch que julga tê-lo mantido afastado por anos propositalmente, mesmo que para tanto tenha que recorrer a medidas extremas. Para completar o universo bizarro do protagonista, ele ainda descobre que a mãe também é homossexual e parece disposta a assumir a relação com a amiga Fern (Kristin Chenoweth). Embora repleto de tipos estranhos e rotulado como comédia, é bom ficar claro que se trata de um humor dramático, sendo que a atmosfera depressiva permeia toda a narrativa, mesmo que lá pelas tantas o médico tenha um momento de euforia ao analisar suas fezes e ironicamente se por a prever o futuro naquilo que se esvai pelo esgoto e rapidamente se torna passado. No fundo, o filme tenta explorar a mente de personagens fora do comum, mas exagera nas características degradantes de cada um, o que acaba comprometendo o envolvimento do espectador com a trama. Inicialmente, é instigante descobrir quais os problemas deles, mas depois que nos tornamos íntimos a tendência é que o interesse na narrativa disperse. A presença de um personagem mais responsável ou não diretamente ligado aos dramas de cada um poderia dar aquela arredondada no enredo, apontar os erros e defeitos deles e quem sabe até propor soluções, mas a certa altura pouco nos importamos com os destinos destes tipos. Parece que chafurdar cada vez mais na lama é a sina de todos e nenhum tenta escapar do infortúnio, pelo contrário, buscam problemas. A sensação de incômodo ao espectador surge dessa impotência de não poder ajudá-los. 

Vendo por esse prisma, o filme merece elogios, pois mesmo que de forma negativa não deixa o espectador insensível à obra. Apesar dos exageros, no fundo a narrativa é construída em cima de situações bastante comuns. Separação, homossexualismo, anulação de personalidade, dilemas juvenis e o abismo existente entre muitos pais e filhos. O problema é que o diretor optou por evidenciar o lado mais excêntrico dos personagens e abriu mão de explorá-los humanamente, assim eles parecem unidimensionais e todos estão condicionados aos seus próprios conflitos pouco importando o sofrimento do outro. Essa é uma grande armadilha em que a maioria das produções sobre famílias disfuncionais caem. Estereotipados, muitas vezes não ficam claros os motivos de seus conflitos, mas dicas como o alcoolismo, a depravação ou um repentino apego por algum tipo de religião ou culto nos dão a entender que existe algo de errado em suas vidas. O difícil é trabalhar esses elementos sem ser maçante. Se as feridas emocionais são explicadas em detalhes a obra é rotulada de manipuladora de emoções, mas também se são simplesmente jogadas na tela a reação pode ser negativa. No livro certamente estes tipos são mais bem desenvolvidos, até porque o autor realmente conviveu com essas pessoas e criou algum tipo de vínculo emocional, diferentemente de Murphy que os enxerga apenas como peças necessárias para atingir um objetivo, assim trabalha o material de forma mais direcionada. O humor inicial pouco a pouco vai se esvaindo até culminar em um final melancólico, mas que não chega a ser depressivo visto que o Augusten real surge bem humorado em um rápido take ao lado de seu intérprete na juventude, comprovando que apesar de tudo ele sobreviveu às loucuras de sua família de sangue e adotiva. Aliás, sua preocupação com a apagadinha Agnes ironicamente é a trama paralela melhor desenvolvida, quase uma relação de mãe e filho às avessas na qual o jovem com menos experiência de vida ajuda a resgatar a autoestima de uma mulher que se acostumou a ser praticamente invisível. A ideia da adaptação de Correndo com Tesouras precisou de vários anos para ser amadurecida, mas mesmo depois de pronta ficou em quarentena. Apesar da indicação de Bening para o Globo de Ouro, o longa fracassou nos EUA e teve seu lançamento remarcado diversas vezes em outros países. No Brasil chegou a ter estreia marcada, mas no final das contas saiu direto em DVD um ano depois. De qualquer forma, a quem aprecia a temática, uma pedida razoável.

Comédia - 121 min - 2006

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