terça-feira, 15 de julho de 2014

VÍCIO FRENÉTICO (2009)

NOTA 7,0

Protagonista cai em desgraça
em obra que aborda como o
meio em que vivemos interfere
drasticamente em quem nós somos
Dizer que Nicolas Cage já não é mais sinônimo de bons filmes é chover no molhado, contudo, não se pode resumir sua trajetória a nada. O ator já teve seus bons momentos, vez ou outra ainda dá uma bola dentro hoje em dia e ainda há muitos diretores consagrados querendo ao menos uma vez ter a chance de trabalhar com ele. Como herói ou homem apaixonado ele pode não convencer mais como antigamente, mas é certo que papeis ambíguos ou bizarros lhe caem muito bem, talvez por isso ele tenha sido escalado pelo famoso diretor alemão Werner Herzog para o drama policial Vício Frenético. O longa é inspirado no filme homônimo do diretor Abel Ferrara lançado em 1992, mas apesar de manter o mesmo título e definição de protagonista a produção alterou muitas coisas em relação ao original, assim o rótulo de refilmagem não condiz. As diferenças já começam no contexto em que a trama é desenvolvida, eventos acontecidos logo após o fatídico e histórico episódio do Furacão Katrina nos EUA. Como boa parte dos filmes do diretor mostra, o longa se apoia na teoria de como o meio influi na personalidade do homem. Após a tragédia de 2005, a região de Nova Orleans se transformou em um verdadeiro caos, isso se refletiu no cotidiano das pessoas e uma grande onda de violência se abateu por lá. É nesse ambiente que vive Terence McDonagh (Cage), um dos poucos policiais que decidiram permanecer na cidade e cumprir o dever de proteger a população já um tanto fragilizada. A introdução mostra que a região ficou totalmente alagada, inclusive as dependências de uma prisão onde apenas um criminoso sobreviveu, porém, mais cedo ou mais tarde poderia morrer afogado ou devorado pelas cobras que vieram com a enxurrada. Depois de provocar bastante o prisioneiro com a ajuda de seu colega de trabalho Stevie Pruit (Val Kilmer), McDonagh acaba percebendo a crueldade da situação e impulsivamente pula na água para salvá-lo. O ato heroico acaba sendo positivo e negativo para o policial. Embora promovido a tenente, ganhou dores nas costas crônicas que o levaram a se tornar dependente de um analgésico muito forte. Alguns meses depois e a necessidade tornou-se um prazer. Com a desculpa de aplacar suas dores, ele já está viciado em vários tipos de drogas e isso se reflete em seu aspecto físico e estilo de vida, algo influenciado também pela namorada Frankie (Eva Mendes), uma prostituta de luxo.

Para os defensores da moral e bons costumes, não deixa de ser chocante a conduta de McDonagh para conseguir drogas. Ele se aproveita de sua profissão para abordar livremente suspeitos nas ruas para confiscar o “barato” e fazer uso próprio das substâncias. De quebra, ainda há a insinuação que ele se aproveita sexualmente das garotas devassas que encosta na parede e como elas também são da pá virada acham excitante corromper um homem da lei mesmo diante do namorado afinal de contas são todos farinha do mesmo saco. Fora isso, o tenente ainda tem passe livre para o departamento onde ficam guardadas as substâncias ilegais apreendidas por outros policiais, assim a diversão está garantida para ele e sua garota. Todavia, para ter essas regalias ele também tem que mostrar serviço de vez em quando. Uma família de imigrantes do Senegal foi assassinada e há a suspeita do envolvimento dos traficantes de droga da vizinhança chefiados pelo bandido conhecido como Big Fate (Xzibit, mais um rapper que por opção parece fadado a viver papeis oriundos do submundo). Como o criminoso poderia alimentar seu vício, ao invés de colocá-lo atrás das grades McDonagh decide tentar fazer uma espécie de sociedade com ele na qual ainda poderia ter algum lucro financeiro visto que também tem uma considerável dívida de apostas. Conforme a narrativa avança percebemos que o tenente não é uma vítima. O roteiro de William Finkelstein não deixa explícito, mas condutas amorais já deveriam fazer parte de seu passado e as drogas somente o estragaram ainda mais, mas para todos os efeitos somos levados a crer que seu problema físico crônico é que impulsionou seus desvios atrelados ao caótico cenário que o rodeia. Não é errado fazer esta analogia. Após um ato heroico, o policial se viu combalido assim como a cidade de Nova Orleans que então tentava se reerguer por meios torpes. Registros da época dizem que a criminalidade aumentou devido ao frouxo sistema de segurança e possivelmente até existiram conchavos entre facções criminosas, empresários e políticos para vender uma falsa imagem de prosperidade enquanto a violência corria solta. Vendo por esse prisma, é possível lembrar que a trama de Edison – Poder e Corrupção, mesmo produzido antes do Furacão Katrina, se passava em uma cidade fictícia e de sucesso que cresceu apoiada em bases amorais. McDonagh segue a mesma ideia. Embora metido direta ou indiretamente a tudo quanto é sujeira, consegue se manter na profissão que teoricamente lhe exigiria ética.

Os companheiros de trabalho do tenente estão longe de serem heróis, como o já citado Pruit que se mostra um ser humano cruel logo na introdução, e a namorada também é chegada em vícios e um tanto devassa. Além disso, McDonagh enfrenta problemas com o pai Pat (Tom Bower), um ex-policial alcoólatra tentando se regenerar, mas que encontra dificuldades para se ver livre destas amarras por conta da namorada Genevieve (Jennifer Coolidge), uma bêbada em negação. Assim não é de se estranhar que o protagonista esteja imerso até os cabelos no submundo. Com total desenvoltura negocia com traficantes, ameaça velhinhas com armas de fogo e não pensa duas vezes antes de chantagear jogadores para conseguir vencer apostas e garantir o dinheiro que salvará Frankie das mãos de bandidos. Isso sem falar nas alucinações que constantemente tem com répteis. Pode parecer estereotipado, mas sabemos que um ato errado leva a outro facilmente, assim é compreensível o universo amoral e complexo do policial e tudo parece reforçar que ele jamais foi flor que se cheire. Se o personagem se afunda em uma espiral de eventos degradantes, para Cage a oportunidade caiu dos céus e o retirou do limbo. Embora não tenha sido um sucesso de bilheteria, Vício Frenético pode ser lembrado como o longa em que o ator ofereceu sua melhor interpretação em anos. Completamente entregue ao papel, ele adotou uma postura física diferenciada, sempre curvada evidenciando o problema de coluna que parece se agravar a cada novo mau passo, criou uma forma peculiar de falar e ainda conseguiu manter o olhar entorpecido do início ao fim denunciando que apesar da vida louca no fundo ele é uma figura triste. Poderíamos detestá-lo como um vilão ou sentir pena como um coitado vítima das circunstâncias, mas o personagem é conduzido de forma que até o final não conseguimos rotulá-lo. Cada cena é essencial para descobrirmos mais sobre sua personalidade, tanto que em determinado momento parece que ele próprio se questiona como chegou a tal ponto ou onde começou sua decadência. E é com tom de humor negro, causando risos nervosos ao espectador diante de situações limites do protagonista, que Herzog consegue envolver o espectador mesmo com temas tão difíceis de digerir. Ainda que siga os passos de uma trama policial, a obra se enquadra melhor como um drama por falar sobre as dificuldades de se lidar com instintos e compulsões que vão na contramão dos princípios morais que todos teoricamente aprendemos. Não é todo mundo que consegue suportar um universo tão podre, mas o cineasta faz o que pode para lançar o espectador dentro dele, inclusive usando sua câmera em alguns momentos com angulações diferenciadas para dar a mesma sensação de alucinação do protagonista, o que ajuda a engolir o destaque dado a um iguana ou a um jacaré a certa altura por exemplo. É tudo uma grande viagem. A quem quiser embarcar nessa...

Drama - 121 min - 2009 - Dê sua opinião abaixo.

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