sexta-feira, 24 de julho de 2020

LOBO


Nota 6,0 Evitando clichês, longa falha ao abordar a licantropia por viés dramático e psicológico


Jack Nicholson, mesmo quando está de bom humor, costuma ter expressões faciais estranhamente assustadoras. Talvez essa peculiar característica o tenha credenciado a estrelar o clássico suspense O Iluminado, em que vive um homem mentalmente perturbado, e a comédia As Bruxas de Eastwick, na qual interpreta o capeta em pessoa. Personagens esquisitos são comuns na filmografia do ator, mas talvez nunca ninguém o imaginasse uivando e andando de quatro. Isso mesmo! Poucos anos antes de conquistar seu terceiro Oscar, ele foi uma escolha certeira do diretor Mike Nichols para ser o protagonista de Lobo. Passando bem longe de sanguinolência e carnificina explícita, o filme pende mais para um suspense com toques de sátira social, principalmente quanto ao comportamento masculino, tentando explicitar a ideia propagada de ser um cavalheiro durante o dia para conquistar uma mulher e uma fera a noite para alcançar seus reais objetivos, entenda-se como saciar suas vontades e extravasar instintos. 

Nicholson interpreta Will Randall, um editor de livros bastante conservador e amarrado à sua própria rotina. Subitamente ele se vê acuado pelos planos de Raymond Alden (Christopher Plummer), o seu novo chefe que deseja substituir o maduro e experiente funcionário por Stewart Swinton (James Spader), seu assistente, alguém bem mais jovem e ambicioso. Contudo, a morosidade de Randall é subvertida quando certa noite de inverno ele se atrapalha com a nevasca e atropela um lobo e ao tentar socorrê-lo acaba sendo mordido. Desse momento em diante sua vida jamais será a mesma. Aos poucos ele começa a perceber seus sentidos mais aguçados, seu apetite mais voraz e algumas mudanças físicas, além de despertar um incontrolável instinto sexual e assassino, o que o leva a crer que o animal que o atacou seria um lobisomem que lhe transferiu a maldição. Sua gradativa transformação em lobo, que inclui aparecimento de pelos em excesso pelo corpo e o hábito de vagar pelas ruas a noite em busca de algo para caçar, irá interferir diretamente em sua vida particular e profissional. Além de não esconder seu descontentamento em ser rebaixado de cargo, ele descobre que a esposa Charlotte (Kate Nelligan) o está traindo com ninguém menos que Swinton e acaba se envolvendo com a misteriosa Laura (Michelle Pffeifer), a filha do homem que o prejudicou na editora.


Subestimado em seu lançamento e infelizmente ainda visto como um filme qualquer, o que temos aqui é uma obra refinada e que trata uma crendice popular e universal de forma adulta e séria e que caminha na linha tênue entre o drama e o horror. O roteiro de Jim Harrison e Wesley Strick tenta fugir ao máximo do que se espera de um filme com tal temática e nem mesmo a palavra lobisomem é mencionada sequer uma vez, além do fato que praticamente até a metade a questão da licantropia fica à margem da trama principal que se concentra nos infortúnios do protagonista traído no casamento e no trabalho. Quem espera ver a transformação completa de Nicholson em um lobisomem com requintados efeitos especiais certamente se decepcionará. Mesmo contando com o mesmo responsável pela elogiada maquiagem de Um Lobisomem Americano em Londres, as mudanças no corpo do protagonista são bastante sutis, basicamente alguma penugem a mais espalhada por seu corpo e o uso de lentes de contato para seus olhos parecerem amarelados, cabendo ao próprio ator com seu talento convencer o espectador de sua nova condição. 

O mesmo vale para um outro personagem (é até previsível imaginar quem será) que no último ato revela-se também acometido pela maldição do lobisomem para bater de frente com Randall então supostamente conformado e entregue à sua condição de vida dúbia. Sem cenas impactantes de metamorfoses, praticamente atuando de cara limpa e certamente com todo gestual minuciosamente estudado, infelizmente a interpretação de Nicholson é considerada uma das mais caricatas de sua carreira, ainda que as cenas em que seu personagem explora as vantagens da licantropia sejam as melhores da seara e, convenhamos, o mínimo que se espera de uma produção intitulada Lobo. Na realidade, Nicholson incorpora o lado vingativo e cínico do personagem, além de seu instinto animal, com sucesso, mas falha ao tentar humanizá-lo quando em seu estado normal procura convencer de que realmente se importa com as pessoas que acaba colocando em risco. 


O ponto mais negativo da produção é que o restante do elenco é desperdiçado, inclusive Pffeifer que tem apenas sua beleza, diga-se de passagem, no auge, explorada. Como uma coadjuvante de luxo, sua função é desfilar pela tela e seduzir com seus brilhantes olhos azuis. Nem mesmo Plummer e Spader, fazendo as vezes de vilões por atrapalharem a vida do protagonista direta ou indiretamente, tem seus potenciais explorados ao máximo. A parte mais dramática, a aceitação de Randall em ser agora metade humano, insistindo em sobrepor-se ao horror e a violência, inerente da guerra entre egos com Swinton, provavelmente é culpa da direção de Nichols, vencedor do Oscar por A Primeira Noite de Um Homem, que não soube equilibrar a trama. Apesar de criar uma soturna atmosfera, sua falta de intimidade com o universo obscuro é latente e, apesar do bom primeiro ato, o cineasta chega a um ponto que parece não saber o que fazer com o material tentando em vão transmitir medo e aflição e abandonando o viés dramático e psicológico que adotara até então.

Suspense - 125 min - 1994

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Um comentário:

Anônimo disse...

Tenho muita vontade de assistir esse filme, mas ainda não vi na locadora.
Gosto demais do trabalho de Pfeiffer. Vou conferir! =)

Bjs ;)

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