terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O AMOR ACONTECE

NOTA 5,5

Vendendo a ideia de comédia
romântica pelo título, longa na
verdade pende mais para o drama
e se prejudica com mocinha insossa
Existem várias maneiras de escolhermos a melhor opção de filme para nos entreter dependendo da ocasião ou de nosso estado de espírito. Podemos nos influenciar pelo material publicitário, elenco famoso, pela sinopse ou simplesmente o gênero que mais nos agrada. Todavia, como é possível optar por um longa que a primeira vista parece ter todos os fatores possíveis para afastar o público? O Amor Acontece está longe de ser maravilhoso ou inovador, bem longe disso, porém, também não é o torrão de açúcar que seu título vende. Quem espera uma comédia romântica engraçadinha poderá se decepcionar. Na realidade o enredo pende muito mais para o lado do drama já que os protagonistas têm histórias de vida envolvendo bloqueios emocionais e quis o destino que seus caminhos se cruzassem. O autor de livros de auto-ajuda, O Dr. Burke Ryan (Aaron Eckhart), trabalha com uma filosofia que direciona seus pacientes a confrontarem as dores e fobias de forma aberta e sem receios, principalmente a dor da perda de um ente querido. Essa seria a única forma das pessoas conseguirem superar traumas ou insatisfações que as impedem de serem felizes. Contudo, o próprio escritor não utiliza tais técnicas e após três anos ainda não superou a morte da esposa em um acidente de carro que ele provocara. Já Eloise Chandler (Jennifer Aniston) jurou nunca mais se envolver amorosamente com nenhum homem após sofrer inúmeras desilusões e decidiu focar suas atenções no seu trabalho como florista. Eles se conhecem por acaso quando o rapaz está na cidade de Seatle para um ciclo de palestras e alguma força os aproxima e os fazem repensar os rumos de suas vidas. O final já sabemos qual será desde o primeiro minuto, mas o desenrolar da trama guarda sutis diferenças que, como já dito, desqualificam o longa para a categoria de comédia romântica. O lado mais dramático do argumento é valorizado, porém, ele não é dividido de forma equilibrada entre os protagonistas.

O personagem de Eckhart acaba sobrecarregado. É ele quem praticamente leva o filme nas costas por ter um conflito mais intenso a resolver. Somos envolvidos facilmente pelo drama vivido pelo escritor e palestrante graças ao enredo, que nos permite sentir seu sofrimento com veracidade, e obviamente ao trabalho de seu intérprete, que imprime um semblante melancólico sem nunca exagerar na dose. Já a mocinha da fita é uma das mais desinteressantes de todos os tempos. Quem nunca jurou fechar as portas do coração após uma decepção amorosa? Além do viés dramático empobrecido, pesa o fato de Aniston assumir o papel. Não que ela esteja ruim, mas o perfil de Eloise é muito parecido com o de tantas outras de suas personagens. Sempre com o mesmo visual e revivendo conflitos, aqui a única diferença é que ela não se entrega a cenas de humor grotesco e nem se mete em troca-troca de casais. Talvez a escolha por uma atriz menos tarimbada faria o perfil da florista, desculpe o trocadilho, de fato florescer. Ainda quanto ao elenco, vale destacar a participação de John Carroll Lynch que interpreta Walter, um dos inscritos em um workshop do Dr. Ryan e aparentemente o único que se mostra resistente aos seus métodos de superação de desafios, um bom personagem que merecia um espaço maior. Mesma atenção merecia o veterano Martin Sheen como o sogro ressentido do protagonista. O personagem é tão limitado que nem mesmo fora batizado. Surge rapidamente no início para reforçar o sentimento de culpa do viúvo quanto ao tal acidente de carro e volta no ato final para lhe trazer uma mensagem de redenção. O roteiro de Mike Thompson e Brandon Camp é cheio de boas intenções, mas acabamos acompanhando a história de forma passiva, com certo grau de distância. A indefinição de gênero, como já dito, atrapalha o envolvimento do espectador, dificuldade que a dupla também enfrentou em O Mistério da Libélula que ficou em cima do muro entre o drama e o suspense.

Camp, estreando na direção, entrega um trabalho rápido, leve e previsível, mas ainda assim uma opção razoável para passar o tempo. Ele não tem pressa para colocar o casal unido em cena e desenvolve seus perfis com cautela, um de cada vez, mostrando detalhes despretensiosos de seus cotidianos até pautar o primeiro e banal encontro deles. Ryan mostra-se bastante interessado na moça à primeira vista, mas ela faz jogo duro e até finge ser muda para se livrar da paquera. Contudo, a trama peca ao rapidamente Eloise se livrar das armaduras e querer estreitar os lanços com o doutor. Como de costume, as coisas só começam a engrenar quando surge o romance na história, mas não deixam de ser interessantes as cenas em que a superação é discutida, como na sequência em que algumas pessoas pisam em brasas como forma de vencerem seus medos e levarem tal ensinamento para suas vidas. O próprio Ryan se esforça para ocultar a dor de ter as solas dos pés queimadas, tudo para encorajar um dos participantes do workshop. Realmente, o gancho de abordar como é possível seguir a vida em frente depois de uma perda considerável é o que salva O Amor Acontece do esquecimento total, ainda que a temática poderia ser desenvolvida com mais propriedade. Boa parte do público se interessa pelo assunto e costumam se identificar com personagens que vivenciam o conflito, seja pela dor natural ou pelo sentimento de culpa. Ryan fez de seu trabalho um escudo para não lidar com seu próprio problema. Sofre em silêncio e escondido, mas surge em público como alguém de sucesso, um modelo a ser seguido e parece que Eloise é a única que consegue enxergar o verdadeiro homem por de trás dos holofotes. Com um título que aponta para outro caminho ligeiramente diferente, é certo que a fita tem muitos pontos que necessitavam de ajustes, mas ainda assim não é de todo ruim. Todos os anos dezenas de produções que nem deveriam sair do papel são lançadas e não é justo despejar a revolta em um único filme que na verdade cumpre o seu papel como entretenimento. Mensagens positivas e esperançosas são sempre bem-vindas e existe um nicho de espectadores que procura sempre renovar tais ensinamentos e busca o óbvio, justamente aquilo que os críticos adoram destroçar. Aos amantes de drama, romance ou simplesmente um passatempo leve eis uma boa pedida.

Romance - 109 min - 2009 

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