segunda-feira, 27 de agosto de 2012

DEMOLIDOR - O HOMEM SEM MEDO

NOTA 6,5

Longa protagonizado por herói 

pouco conhecido é prejudicado por
exigências para transformá-lo
obrigatoriamente em um sucesso
Os filmes de super-heróis acabaram formando um subgênero rentável, consagrado e explorado timidamente no passado, sendo as aventuras de Superman e do Batman as produções mais lembradas, mas desde que os mutantes de X-Men aportaram nos cinemas a onda de adaptações de quadrinhos tornou-se uma febre. Após a confirmação de sucesso do ramo com Homem-Aranha, parecia que apostar nos velhos gibis se tornaria a fórmula mágica de Hollywood e que qualquer projeto do tipo teria sua bilheteria inflada garantida, além é claro de ao menos uma continuação e de dezenas de produtos licenciados com a logomarca, mas Demolidor – O Homem Sem Medo veio logo em seguida para esfriar os ânimos. Embora seja uma produção caprichada que leva nos créditos o nome da editora Marvel, que acabou criando um braço cinematográfico, ela chegou aos cinemas pouco tempo depois da primeira aventura original do citado herói aracnídeo e essa proximidade de datas não lhe fez bem, sentindo os efeitos positivos e negativos dessa leve overdose de mascarados justiceiros. A culpa pelo fracasso nas bilheterias e repercussão é distribuída entre várias razões, a começar pelo fato do personagem-título jamais ter tido sua imagem explorada com afinco a âmbito mundial assim não tendo criado raízes na cultura pop. Só mesmo quem é aficionado por quadrinhos poderia conhecer o Demolidor e seu universo, mas mesmo hoje em dia, após anos do lançamento do filme, é triste verificar que o personagem não ganhou o prestígio que merece afinal suas origens são no mínimo curiosas. A história é de fácil compreensão até mesmo para quem nunca leu uma de suas aventuras e o leve tom dramático de sua história ajuda a segurar a atenção. Esta é a oportunidade do público conhecer um tipo diferente de herói, um ser com uma trajetória mais adaptável ao cotidiano da realidade, um homem vítima da violência que assola as sociedades em geral. Ele não tem poderes especiais oriundos de mutações ou experiências genéticas, pelo contrário, sua força provém da forma intensa com que treinou seus sentidos, como o tato e a audição, para enfrentar as dificuldades que a vida lhe impôs. Quando criança, após se decepcionar ao descobrir o verdadeiro ramo de trabalho de seu pai, o jovem Matt Murdock (Scott Terra) sofreu um acidente que acabou fazendo com que ele perdesse a visão. Porém, ele não deixa se abater e faz de seu sofrimento uma inspiração para desejar continuar a viver e a lutar por justiça. Mesmo sem poder enxergar, o garoto consegue perceber nitidamente o que ocorre a sua volta e não demonstra ter medo de absolutamente nada.

Ben Affleck assume o papel de Murdock na fase adulta. Agora ele literalmente se dedica em tempo integral à justiça. Além de lutar pelo direito das minorias nos tribunais como advogado, ele também treina arduamente artes marciais para ganhar aptidão e rapidez com lutas. Dessa forma ele acaba assumindo uma vida dupla. Ele pode sair de casa vestindo terno e gravata e carregando uma pasta de executivo, mas de uma hora para a outra ele passa a utilizar suas habilidades sensoriais e corporais para combater o crime sob o pseudônimo Demolidor, um justiceiro mascarado que só quer fazer o bem, contudo, como em toda boa história de super-herói, suas atitudes são incompreendidas por muitos. Ele está encalço do Rei do Crime (Michael Clarke Duncan), o chefão do submundo de Nova York, no entanto seu principal inimigo no momento é o criminoso conhecido como Mercenário (Colin Farrell), um homem inescrupuloso que vai testar até onde vai os limites da valentia deste cego benfeitor procurando encontrar seu ponto fraco. A jovem ninja Elektra (Jennifer Garner) acaba virando alvo do vilão quando ele descobre o interesse de seu rival pela moça, ainda que fique no ar a sensação de que ela e o Demolidor tenham suas diferenças, uma relação clara de amor e ódio. Tratado inicialmente como um projeto experimental, o filme ganhou rapidamente status de super produção e uma injeção de dinheiro extra em seu orçamento, assim nada mais natural que uma cobrança maior dos estúdios e produtoras envolvidos. É justamente aí que o caldo entornou. O diretor e roteirista Mark Steven Johnson recebeu do chefão da Marvel, Avi Arad, a incumbência de desenvolver o projeto de um filme para um herói menor do catálogo da empresa e pelos riscos o orçamento seria modesto. Com certa independência criativa, o cineasta conseguiu realizar o acordo, mas não adiantava ter um produto pronto e não ter distribuidora. Quando a Fox acolheu a obra, o longa não passou pelo crivo dos executivos e estes exigiram mudanças para diminuir o tempo de arte e também para não terem problemas com a censura, pois consideraram o filme muito violento. Com novos investimentos, cenas foram refeitas para arejar o longa. Pensaram demais na comercialização do trabalho, visando conquistar desde os pré-adolescentes e ter mais sessões diárias nas salas de exibição, e esqueceram-se da qualidade do mesmo. Até quem não conhece o personagem pelas HQs percebe que o longa é bem estilo sessão da tarde, bastante leve, sendo que as histórias originais do Demolidor são sombrias e com reflexões implícitas. Os cortes exigidos deveriam ter sido evitados.

Sem dúvidas os ajustes exigidos pela influente distribuidora foram para aproximar a imagem das aventuras do Demolidor às do Homem-Aranha, tanto que o herói cego pode, por exemplo, saltar de um prédio para outro ou despencar de alturas consideráveis sem sofrer um único arranhão e ainda aterrissar fazendo pose, situações inverossímeis e que descaracterizam o perfil do personagem que na realidade não tem superpoderes, mas sim astúcia e sensibilidade aguçadas como suas principais armas.  Aliás, seu histórico e cotidiano tem muito mais características compatíveis com o universo de Batman. Ambos tiveram uma infância traumática, cresceram acreditando que fazer justiça com as próprias mãos é a melhor saída para os problemas sociais, passaram por um intenso treinamento físico e mental e mantém uma vida dupla, ostentando uma cara sisuda quando estão à paisana e vestindo um uniforme e uma máscara para omitirem suas identidades quando saem para combater o crime, preferencialmente na calada da noite. As ações noturnas servem como pontos-clímax do longa, mas também não deixam de ser estratégicas. Podem ser interpretadas como uma sutileza do diretor relacionando a ideia de que o perigo dorme de dia e acorda a noite, o que também não deixa de ser uma metáfora à personalidade do protagonista. Contudo, com um orçamento limitado, Johnson foi obrigado a filmar muitas das cenas de combate em ambientes escuros e tranquilos, uma questão de logística, e precisou evitar explorar os cenários, focar sua câmera nos personagens e abusar dos cortes rápidos, tudo para escamotear os problemas.  Todavia, a pouca quantidade de habitantes deste universo ajudam a manter o interesse no filme. Affleck, antigamente subestimado, consegue segurar bem a onda de protagonizar um filme, apoiado obviamente pelas boas interpretações dos coadjuvantes, estrelas na época em plena ascensão. Farrell encarna com vigor o vilão enquanto Jennifer teve aqui a grande chance de mostrar seu talento, tanto que depois sua personagem ganhou seu próprio filme-solo, uma obra tão criticada quanto a primeira em que essa espécie de anti-heroína apareceu. Entre outras mudanças, os dois tiveram as vestimentas de suas personagens trocadas enquanto o grandalhão Duncan ganhou o papel do Rei do Crime pelo seu porte físico e carisma perante o público, já que esse criminoso nos quadrinhos é caucasiano. Visto hoje em dia, longe das expectativas de seu lançamento, Demolidor – O Homem sem Medo não deixa de ser uma produção que cumpre muito bem aquilo que promete: simplesmente divertir. Não é das melhores adaptações de HQs, mas talvez sua história seja uma das mais palatáveis entre os heróis, aproximando mais o espectador ao seu mundo pelo fato da premissa ao menos ser mais realista. Não se abater diante das tragédias, essa é a lição que o protagonista tira dos tristes acontecimentos que viveu na infância. Que bom seria se todos que estão cansados de injustiças e impunidades pudessem fazer o mesmo.

Aventura - 102 min - 2003 - Dê sua opinião abaixo.

Um comentário:

Rafael W. disse...

Acho um bom filme de super-herói, apesar de a critica ter detestado (o filme solo da Elektra é beeem pior).

http://cinelupinha.blogspot.com/

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