terça-feira, 27 de agosto de 2013

O SOM DO TROVÃO

NOTA 2,5

Aventura futurista faz uma
metáfora da relação do homem
e a natureza, mas comete falhas
e tem visual retrô e tosco
Poder viajar no tempo é uma fantasia comum a todas as pessoas, desde pensamentos infantilizados como poder voltar a época dos homens das cavernas ou objetivos mais maduros como ter a chance de corrigir algum erro que por ventura tenha cometido, e o cinema sempre se aproveitou do fascínio que tal ideia exerce universalmente. Grandes clássicos do passado nos mais variados gêneros beberam nessa fonte, mas é óbvio que os suspenses e as aventuras com um quê de ficção científica levam vantagem nessa área, um campo fértil e propício para testar novas tecnologias em busca de imagens e efeitos visuais cada vez mais impressionantes. Bem, é muito agradável imaginar que uma simples mudança no passado pode tornar a vida de um indivíduo no presente ou futuro bem melhor, mas esse é um pensamento mesquinho, um tanto individualista. Sabia que essa alteração poderia influenciar a vida de outras pessoas em menor ou maior grau também? Agora pegue esse conceito e aplique em uma situação mais abrangente, como aquele copinho plástico que vez ou outra você acaba jogando na rua. Pois é, esse simples ato somado ao de outras pessoas pode significar a enchente do próximo verão, aquele transtorno que te fará ficar parado na rua, destruirá o lar de alguém e pode até provocar mortes. Pode parecer algo muito apocalíptico, mas é uma teoria que tem fundamentos e que serve como base para a narrativa de O Som do Trovão, mescla de aventura e ficção científica dirigida por Peter Hyams, o mesmo que já havia explorado a extinção da humanidade sob uma ótica mais supersticiosa em Fim dos Dias. Neste caso o cineasta deixou de lado as crenças para buscar inspiração na ciência, mais especificamente na chamada Teoria do Caos que pode ser resumida como o passar dos anos justificando nossos atos. Se hoje o mundo sente frequentemente a fúria da natureza através de tsunamis, furacões e outras manifestações do tipo não devemos considerar que tudo acontece por acaso. Felizmente boa parte da população mundial já tomou consciência de que o ser humano há anos interfere drasticamente no clima, relevo e transformações de animais, por exemplo, sempre em busca de melhores condições de vida para si mesmo o que inerentemente envolve lucros e tecnologia. Pensamentos do tipo certamente passaram pela cabeça do renomado romancista Ray Bradburt quando escreveu o conto homônimo e visionário que originou este longa-metragem. Publicado originalmente em 1952 em uma revista, a temática do texto é extremamente atual, faz uma metáfora ao comportamento humano em relação a natureza, mas é uma pena que sua adaptação cinematográfica jogue por água abaixo as chances de seu conteúdo ser bem aproveitado. A precariedade da produção infelizmente salta aos olhos e é difícil alguém prestar atenção na narrativa quando o incômodo visual se faz presente do início ao fim.

Roteirizado por Thomas Dean Donnelly, Joshua Oppenheimer e Gregory Poirier, poderíamos dizer que muitas cabeças pensando em um mesmo produto poderia ter transformado a história original em um verdadeiro engodo, mas não é o que acontece totalmente. Para quem conseguir prestar atenção na narrativa e tiver conhecimento ou interesse pelo assunto perceberá que a ideia principal faz sentido, apesar da premissa aparentemente absurda. Em 2055 uma inovadora tecnologia está para ser lançada, algo que poderia salvar o mundo ou destruí-lo. A novidade está sendo usada para ganhar dinheiro e ser popularizada entre a elite social, ricaços que provavelmente já estariam entediados da suposta realidade vendida pelos videogames e televisores e computadores tridimensionais e afins (relação analisando o mundo atual, sendo que o filme é de 2005 e não cita tais alienações). Charles Halton (Ben Kingsley) é o empresário que financiou o “Safári no Tempo” visando lucrar muito com milionários deslumbrados com a ideia de poderem voltar ao período cretáceo para caçar dinossauros como esporte. O guia das viagens e responsável pelas operações do empreendimento é o cientista Travis Ryer (Edward Burns), que se preocupa com a extinção de várias espécies de animais e se sujeita as ordens de Halton para conseguir levar adiante suas pesquisas. Ele deseja aperfeiçoar cada vez mais a volta ao passado de forma que pudesse visitar as mais variadas épocas para conseguir fazer uma leitura do DNA de bichos extintos e recriá-los no futuro num tipo de cativeiro e depois recolocá-los na natureza reconstruindo a fauna. Contudo, na noite de lançamento do projeto, Ryer fica sabendo que o início das pesquisas foi conduzido por Sonia Rand (Catherine McComarck), cientista que acabou assinando uma clausula de anonimato para uma empresa também comanda por Halton que logo a cortou do projeto. Essa introdução é bastante interessante por deixar bem claro os interesses financeiros suplantando os objetivos científicos da nova tecnologia, mas é uma pena que logo de cara já recebemos um balde água fria com o visual trash do longa. O cenário pré-histórico é tosco e os efeitos especiais para recriar dinossauros são de doer, mas nem todo mundo é um Spielberg não é? Bem, pelos cinco minutos iniciais boa parte dos espectadores já deve estar falando cobras e lagartos do filme, mas como imagem não é tudo e o conceito narrativo é interessante, a quem quiser se aventurar... As viagens no tempo são rigorosamente organizadas e duram alguns poucos minutos, mas o suficiente para os mais abastados se deslumbrarem. As regras básicas são nunca esquecer qualquer tipo de objeto no passado e tampouco causar alguma modificação no ambiente, pois qualquer alteração no ecossistema antigo, por mais insignificante que pudesse parecer, poderia provocar sérias mudanças no futuro. E então como poderiam se divertir matando dinossauros? Ryer identifica os animais que estariam prestes a morrer naturalmente ou por fatalidades (poderes sobrenaturais?) e todas as armas são dotadas de um sistema de segurança que só as destrava para uso quando o cientista considera que está tudo sob controle e ninguém atirará no que não devia.

Apesar de todo o controle, logo na segunda viagem no tempo as coisas desandam. Um dos aventureiros quase atira em uma borboleta, felizmente a arma estava bloqueada e quem viu a cena concordou em não mencionar tal fato no relatório obrigatório ao final do passeio. Fora isso, no momento propício para atirar no tiranossauro chinfrim os armamentos não funcionam e o pânico se espalha entre os viajantes (pelo menos deveriam demonstrar apreensão) até que o problema é solucionado. É óbvio que nesse meio tempo alguém deve ter aprontado alguma, mas fica acordado entre todos que ninguém quebrou protocolo algum. Diante de algumas reclamações, Halton tenta contornar a situação exaltando a emoção inédita que todos os participantes viveram e sobreviveram. Serem os pioneiros no experimento é o suficiente para inflar o ego dos riquinhos, o problema é que rapidamente após esta viagem mudanças climáticas já começaram a ser percebidas, centenas de peixes misteriosamente apareceram mortos e plantas cresceram demasiadamente. Em um primeiro momento a associação entre os eventos naturais inesperados e as viagens no tempo não é feita, mas bastou mais uma volta ao passado e Ryer já percebeu algo estranho. O dinossauro morto anteriormente não havia ressuscitado e o grupo de visitantes é ameaçado pela erupção de um vulcão. Começa assim uma corrida contra o tempo para cessar as mudanças do futuro tentando descobrir o que foi modificado no passado e uma maneira de reverter a situação. Para criar tensão, Hyams introduz na narrativa as ondas de tecido temporal, ameaça que toda vez que passasse sobre a Terra traria algum tipo de mudança drástica. Primeiro foi o clima, depois as plantas, os seres primitivos como os insetos em seguida e por último os seres humanos seriam afetados. Antes de a humanidade ter seu xeque-mate há um tempo para evitar tal catástrofe, mas os voluntários para salvar o mundo terão que enfrentar animais modificados, como babuínos com corpo de répteis, morcegos gigantescos e com força descomunal e animais marinhos ferozes. A essa altura já estamos acostumados com a precariedade da produção, embora como criaturas que passaram por metamorfoses o visual imaginado para elas esteja no limite do aceitável, mas nada que nos faça esquecer das horríveis cenas com chroma key (atores “colados” em cima de imagens gravadas separadamente) apresentadas anteriormente mostrando os personagens em um cenário que mistura elementos futuristas, como aeronaves transitando pelos céus, e outros nostálgicos, como construções gigantescas servindo de habitações. Apesar de estar repleto de falhas, situações sem explicações e visual vergonhoso em vários momentos, O Som do Trovão contava com um polpudo orçamento que sabe-se lá em que bolsos foi parar. Com produção iniciada em meados de 2002, o longa enfrentou a falência da produtora que cuidava da pós-produção (o que explica os péssimos efeitos especiais), o desprezo da Warner que herdou o projeto, até que chegou aos trancos e barrancos ao público em 2005, sendo lançado diretamente em DVD no Brasil pela Europa Filmes trazendo na bagagem uma mirrada bilheteria mundial e muitas críticas negativas. Burns, ator chegado a filmes independentes e de conteúdo assim como o premiado e conceituado Kingsley (ostentando uma cabeleira branca pavorosa), certamente se sentiram atraídos pela premissa crítica do texto, mas devem ter se arrependido amargamente do resultado final.

Aventura - 101 min - 2005 

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